As faces do Eterno

O segredo do Hebraico de hoje apresenta, para vocês: “As faces do Eterno.”
דרשו יהוה ועזו בקשו פניו תמיד
Dirshu Adonay veuzo, bakeshú panayv tamid.
Busquem Adonay e o poder dele, procure as faces (presença) dele continuamente.(Tehilim/Salmo 105:4)p
Atribuído tradicionalmente ao rei David, o Salmo 105 é um convite à memória coletiva, um chamado para relembrar as maravilhas e os juízos do Eterno. Não se trata apenas de uma mensagem sagrada, é um convite a percorrer os corredores do tempo, onde cada eco é uma lembrança das promessas cumpridas. Ao proclamar “Busquem Adonay e o poder dele, procure as faces (presença) dele continuamente”, o cântico nos impulsiona a uma busca incessante pelo conhecimento e pela presença divina, pois é no encontro com o passado que encontramos as chaves para as portas do futuro.
O Salmo 105:4, é um convite à perseverança na fé, à constância na busca espiritual, ecoando no tempo como um mantra para os momentos de incerteza. E quem, ás vezes, não se vê mergulhado em incertezas diárias, na ânsia por respostas que parecem desaparecer no ar ? Este versículo é como um farol que não se apaga, uma estrela que insiste em nos guiar pelos caminho incertos da vida. “Busquem Adonay e o poder dele, procure as faces (presença) dele continuamente”, não por um instante, não em uma prece esporádica, mas como compromisso diário. A busca por D’us é a busca pela essência, pelo que há de mais genuíno em nós e fora de nós.
Sobre esse versículo, nós temos alguns comentários de pessoas “importantes” no meio acadêmico cristão (saiba a origem desse termo clicando aqui). Cito por exemplo:.
O teólogo Albert Barnes:
Procure seu rosto cada vez mais – Seu favor. Seu sorriso sobre nós, seu levantamento da luz de seu rosto é sinônimo de seu favor.
O teólogo Adam Clarke:
Procure o rosto dele – Reconciliação com ele. Não viva sem um senso de seu favor.
Além desses, outras ramificações “cristãs” interpretam o Salmo 105:4.
Candomblé e Umbanda:
Buscar a força a presença dos orixás e entidades espirituais, buscando a proteção e a orientação divina em todos os momentos.
Espiritismo
Buscar a força interior e a conexão com o divino, buscando a evolução espiritual e a comunhão com os planos superiores.
Às vezes, depois de ler um texto e tê-lo entendido não fica a impressão que mais coisa foi dita ? Essa intuição foi por tempos bem-vinda e ainda continua a ser padrão no judaísmo rabínico no modo de interpretação pardes.
Pardes
O pardes (Acróstico de Pshat – Remez – Drash – Sod) é o processo interpretativo desenvolvido pelo judaísmo rabínico para leitura dos textos sagrados. Foi empregado primordialmente para a exegese da Torah, mas estendido a outros escritos bíblicos e talmúdicos. E o Talmud é uma compilação de várias camadas de discussões e comentários que usa largamente o pardes.
P’shat
Peshat (esparramado) a denotação mais simples, óbvia e literal. Apesar de literal, leva em consideração as figuras de linguagem e pensamento facilmente reconhecíveis pelo leitor. Há preocupações filológicas, como a etimologia e gramática.
R’mez
Remez (sugestão ou alusão) interpretações tipológicas ou alegóricas enfocando desde uma só letra, palavra ou perícope (trecho).
D’rash
D’rash (investigação) inferências comparativa entre os textos de acordo com os middot, ou regras hermenêuticas, tais como as Sete regras de Hillel, as Treze regras do rabino Ismael ben Elias e as 32 regras do rabino Eliezer ben Yosêf ha-Galili.
Sod
Sod (oculto) a interpretação mística que pressupõe um significado profundo e espiritual.
Analisando o Salmo à nível Sod
A palavra “presença” é a tradução metafórica do termo hebraico “panay” [פני] que literalmente significa “faces“. Por que está escrito “faces” no plural, e não “face” no singular ? Vamos usar o quarto nível de interpretação judaica, o Sod (oculto) para entender esse “Mistorin Gadol” [מסתורין גדול] grande mistério.
De acordo com o Sêfer Zohar (livro do esplendor), obra central da Cabalá Judaica, D’us tem varias faces ou facetas, ou seja, varias formas de manifestações, mais especificamente dez, que são as dez “Sefirot” [ספירות] plural de “Sefirah” [ספירה], da árvore da vida.
Na palavra “panayv” [פניו] “faces”, a letra “Yud” [י], cujo valor numérico é 10, é o que torna a palavra plural. A letra “Vav” [ו] é um sufixo possessivo da 3ª pessoa do masculino singular, ou seja, “Ele”.
Informações da letra Yud

Com a ajuda da gramática e usando o nível Sod, podemos traduzir o texto da seguinte forma:
דרשו יהוה ועזו בקשו פניו תמיד
Busquem Adonay e procurem as Dez Manifestações dele continuamente.
Quais são essas dez faces ou manifestações do Eterno ? O Midrash Tanhuma, Parashat Veyekel, diz que toda pessoa é conhecida por três nomes: um pelo qual seus pais a chamam, um pelo qual as outras pessoas a chamam e um que ela constrói para si mesma. O midrash aponta para o fato de que apresentamos diferentes facetas de nós mesmos em momentos diversos das nossas vidas: somos carinhosos e cuidadosos ao pegar um bebê recém nascido nos braços, animados quando celebramos uma data importante, agressivos quando reclamamos de uma injustiça. Possuímos essas características, porque herdamos do próprio Criador, pois somos uma faísca do divino aqui nesse Malchut (Reino).
Sefirot, as Dez Emanações do Eterno

Sefirá (pl. Sefirot) é um modo ou um poder específico através do qual D’us governa e sustenta o Universo. Por isso, as sefirot podem ser consideradas como “atributos” ou “qualidades”, ou ainda, “vestimentas” Divinas. Quando pedimos a D´us que use conosco de Sua Bondade Absoluta e nos abençoe com a Sua Abundância, estamos pedindo para que Ele se releve através do atributo da sefirá Chessed, que veremos com mais detalhes mais adiante. Segundo o Zohar, D´us deu forma e conteúdo à Sua Criação através das dez sefirot. Toda a realidade, tanto espiritual quanto material, é criada por meio destas que são vistas como “forças fundamentais”, “recipientes” da atividade de D´us. As sefirot são “canais” através dos quais a energia Divina flui, permeia e se torna parte de cada coisa que existe, criando assim uma “corrente espiritual” que liga e vivifica todas as coisas, impregnando-as da Essência Divina. As leis que regem o fluxo destas energias foram estabelecidas durante o processo da Criação, que pode ser vista como uma progressiva transformação de níveis de energia espiritual. Nesta progressiva transformação, foram criados universos espirituais paralelos, sendo o nosso mundo o último desta corrente.
Nos textos cabalísticos podemos encontrar enumeradas onze sefirot. No entanto, como duas destas – Keter e Da’at – representam dimensões diferentes de uma mesma força, ambas se excluem mutuamente. Por isso, a tradição geralmente fala de dez sefirot. O Zohar, Livro do Esplendor, a obra central da Cabalá, de autoria do Rabi Shimon Bar Yochai (séc II EC) e, mais tarde, a doutrina de Rabi Isaac Luria centram-se nas sefirot. Seu conceito aparece em outras obras como o Sefer Yetsirá, atribuída ao patriarca Abraão, e o Sefer Ha-Bahir de autoria de Rabi Nechunia ben ha-Kanah. As sefirot parecem estar envolvidas em um mistério, de difícil compreensão, já que além de serem puramente espirituais, possuem inúmeros e complexos níveis de significado, inúmeras interpretações e implicações. Podemos até vislumbrar como agem, mas só alguns sábios espiritualmente elevados, verdadeiros mestres da Torah, chegam a compreender sua essência e seus segredos.
A palavra sefirá é relacionada com várias palavras hebraicas: Saper, que significa revelar ou se comunicar; Sapir, safira, brilho ou luminárias; Safar, contagem, número, e também com Sefar, que significa limite, fronteira. Em sua essência, todas estas palavras têm conceitos inter-relacionados e apontam para funções básicas das sefirot. A palavra sefirá aparece na Torah pela primeira vez no Sêfer Shemot (livro do Êxodo). Porém só é possível perceber através do Hebraico Bíblico.
ויראו את אלהי ישראל ותחת רגליו כמעשה לבנת הספיר וכעצם השמים לטהר
E viram o D’us de Israel, sob cujos pés havia uma espécie de pavimento de safira, semelhante ao próprio céu, em pureza.(Êxodo 24:10)
As traduções Bíblicas trazem a palavra Safira (pedra preciosa de cor branca), porém não podemos deixar de analizar o que dizem o sábios do povo judeu sobre esse versículo.
Ovadiah Sforno: “Uma essência, totalmente transparente, desprovida de cores e contornos permanentes, de modo que é quase completamente abstrata, capaz de absorver entrada espiritual de domínios espirituais à vontade. Uma descrição alegórica do humano [נפש] nefash, “força vital”. Eles perceberam que esta, “essência,” é totalmente independente da matéria-prima da qual o homem é feito; assim como o que percebemos como a essência do céu no céu é totalmente desprovido de matéria tangível. É a essência do que consideramos as regiões celestiais, “céu,” por falta de uma palavra melhor. Não está conectado aos planetas.”
Rabeinu Bahya: “Normalmente, esta gema revela apenas o que está do lado de fora, preservando o mistério de sua essência. Tudo o que se torna visível é um reflexo de sua essência interna. Sua essência em si não é compreendida nem mesmo pelo observador de seu reflexo. Isso seria semelhante ao que D’us disse a Moisés: (Êx 6,3) “Eu apareci a Avraham… como o D’us Shaddai.” Ele acrescentou: “mas Meu nome Hashem, ou seja, Minha essência, eu não os familiarizei” (…) No Monte Sinai, algo que a Torá descreveu como, “face a face” (Dt. 5;4), a referência é a “uma força espiritual dentro de outra força espiritual”. O destinatário dessa revelação recebeu a permissão de entrar em uma câmara interior de um domínio místico oculto sem penetrar em seu núcleo (…) Para ilustrar isso, a Torá escreveu a palavra k’maasé [כמעשה] como a ação, para descrever um processo semelhante à visualização do brilho da safira sem ver seu verdadeiro interior”.
Como podemos perceber, a visão não é sobre uma pedra de Safira branca, mas das Sefirot, das Emanações do Eterno. Portanto em vez de lê Safira, devemos lê Sefirá.
As Dez Sefirot
Keter: Coroa – representa a onipotência e onipresença de D’us ; a Vontade Divina Absoluta; a Soberania e Autoridade de D’us sobre todas as forças da Criação. É a primeira e mais elevada das sefirot e está além de qualquer compreensão. De tão inexprimível, às vezes nem é incluída entre as dez sefirot. É a mais próxima da Fonte Divina, é a base de toda a Criação. Keter transcende as leis que governam o universo, pois estas só passam a existir após a emanação das sefirot de Chochmá e Biná. A Cabalá refere-se a esta sefirá como o “mundo da Misericórdia”.
Biná: Entendimento, a compreensão, a lógica. Com sua emanação, é criado o sistema lógico pelo qual os axiomas de Chochmá são delineados e definidos. É através da Biná que podemos começar a entender os axiomas tanto da Criação quanto do nosso próprio ser.Da’at, conhecimento; a “lógica aplicada” de modo diferente das duas anteriores. Não é apenas o acúmulo, mas também a soma de tudo o que é conhecido. É a capacidade de juntar as informações básicas e fazê-las funcionar logicamente. Quando Keter se manifesta, D’aat se oculta, já que são manifestações interna e externa, respectivamente, da mesma força.
Chessed: Graça, amor e bondade que nos beneficiam; a grandeza (Guedulá) do amor. Esta sefirá representa o dar incondicional, o altruísmo, o impulso incontrolável de expansão. É D’us dando-se às Suas criaturas de forma irrestrita, abrindo todas as portas da Sua Abundância. D’us usou este atributo como o instrumento supremo no processo da Criação.
Guevurá: – Poder, justiça, o julgamento severo (Din); as forças para disciplinar a criação. Guevurá representa a contração, a restrição, a criação de barreiras. A “auto-limitação” Divina foi indispensável para a criação do Cosmo. A Cabalá se refere a esta como midat hadin, a medida ou atributo do julgamento, do rigor. Esta sefirá direciona a energia espiritual para atingir uma meta específica. É a força que permite o controle para podermos vencer tanto nossos inimigos internos quanto os externos.
Tiferet: Beleza, no sentido da harmonia. É a combinação da harmonia e da verdade, dando espaço para a compaixão. Esta sefirá está associada com o poder de conciliar as inclinações conflitantes de Chessed e Guevurá, para que haja compaixão. Na Cabalá é designada como midat harachamim, “o atributo da misericórdia”. A alma do homem emana desta sefirá pela união desta qualidade com Malchut, o corpo.
Netzach: Vitória, eternidade, resistência. Esta sefirá representa a imposição Divina. É o domínio, a conquista ou a capacidade de vencer. Representa o motivo primeiro da Criação: a capacidade de vencer o mal.
Hod: Esplendor, empatia. Esta sefirá permite que o poder e energia repassados sejam apropriados e aceitáveis a quem os recebe. É responsável pela criação dentro de uma relação do espaço deixado para o outro. A qualidade espiritual de Hod salienta o atributo da humildade e reconhecimento. Hod representa também a submissão que permite a existência do mal.
Yesod: Fundação; alicerce representa a reciprocidade ideal numa relação. É o meio de comunicação, o veículo de transporte de uma condição para outra. Representa o lugar do prazer espiritual e físico; o vínculo mais poderoso que pode existir entre dois indivíduos, assim como entre o homem e D’us: a aliança entre D’us e Israel: o Brit Milá.
Malchut: Reinado. É a Schechiná, o aspecto imanente de D’us neste mundo. É o mundo revelado onde o potencial latente é concretizado. É o poder que D’us nos deu de receber Dele. Como símbolo do receber, esta sefirá é caracterizada como aquela que não tem nada próprio. É um keli, um mero recipiente. Malchut é o último elemento de uma corrente que se inicia na Vontade Divina e encontra sua realização neste mundo. Aquele que recebe pode dar de volta, tornando-se além de receptor, um doador.
As sefirot são refletidas no homem e desta forma o homem compartilha o Divino. A pessoa que somos é determinada pelas sefirot no mundo da ação, pois são as bases de nossa personalidade individual. O “cabo condutor” ou o canal através do qual estas se manifestam, é a nossa alma.(As definições das Sefirot foram extraídas do site Morashá)
Em suma, as Sefirot são os atributos de D’us revelados na sua criação.
Compreendendo a essência de Buscar a presença de D’us
Quando o texto nos manda procurar ou buscar a presença de D’us, não está apenas nos orientando quanto a viver em oração. O Salmo, escrito por David está dizendo o seguinte:
דרשו יהוה ועזו בקשו פניו תמיד
Dirshu Adonay veuzo, bakeshú panayv tamid.
Busquem Adonay e o poder dele, procurem keter, Biná, Chessed, Guevurá, Tiferet, Netzach, Hod, Yesod e Malchut continuamente.
Ou
Busquem Adonay e o poder dele, procurem a Vontade Divina Absoluta, Sabedoria, Entendimento, Graça, Justiça, Harmonia, Resistência, Empatia, Reciprocidade e a Schechiná que é o aspecto imanente de D’us neste mundo continuamente.
Abençoado seja O Eterno

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