Parashat Chukat (Estatuto de)

Chegamos a parashat Chukat (חקת) “estatuto de”, a 39ª porção semanal da Torah no ciclo judaico anual de leitura da Torah, que corresponde ao sêfer de Bamidbar (19:1-22:1). Nessa parashá, abordaremos os seguintes tópicos:

1° A vaca vermelha; 2° Morte de Miriam e falta de água ; 3° A falha de Moshê e Aharon; 4° As serpentes.

A divisão das Mitsvot

As mitsvot (Mandamentos) da Torah, geralmente, pertencem a uma de três categorias:

Mishpatim – Leis Civis: “Mishpatim” são leis Divinas que promulgam a segurança e sobrevivência da sociedade humana. Incluem, por exemplo, a proibição de roubar e assassinar.

Edut – Testemunhos: Se uma mitsvá testemunha um evento histórico ou algum aspecto de nossa fé, é chamada de “Edut”, testemunho. São exemplos a mitsvá de observar o Shabat, que atesta nossa crença de que o Todo Poderoso criou o mundo em seis dias; observar as Festas (Yom Tov), pois comemoram o Êxodo do Egito; as mitsvot de tsitsit e tefilin que demonstram nossa crença na soberania de Hashem.

Chukim – Decretos Divinos: Na categoria de chok (plural: chukim) classifica-se todas as mitsvot cujo propósito ou significado não são compreendidos pela a inteligência humana. Esta categoria de mandamentos é a mais difícil de compreender. O Talmud nos diz que essas são as leis que “a má inclinação (yêtser hará) e as nações do mundo tentam contestar.” Se não compreendemos o motivo de alguma coisa é tentador achar pretextos para não fazê-la. O fato de um mandamento não ter um motivo óbvio torna seu cumprimento um ato de fé, muito mais ainda. Ele indica que estamos prontos e desejosos de obedecer às ordens de D’us, até quando não podemos justificá-las com lógica.

Há numerosos exemplos de chukim, mas os sábios enumeram quatro sobre os quais a Torá afirma explicitamente: “Este é um chok.” Uma vez que contém elementos aparentemente contraditórios, são passíveis de serem ridicularizados pelos que se pautam pelo pensamento racional. Hoje falaremos a respeito da vaca vermelha.

Pará Adumá: A vaca vermelha:

וידבר יהוה אל משה ואל אהרן לאמר

E falou Adonay para Moshê e a Aharon, dizendo:

זאת חקת התורה אשר צוה יהוה לאמר דבר אל בני ישראל ויקחו אליך פרה אדמה תמימה אשר אין בה מום אשר לא עלה עליה על

Este é o estatuto da Torah que ordenou Adonay, dizendo: Fala aos filhos de Israel e faze-os tomar para ti uma vaca vermelha, imaculada e sem defeito, sobre a qual não foi imposto jugo.(Bamidbar 19:1-2)

A “vaca vermelha” (Pará Adumá) era um dos elementos essenciais de purificação no Templo Sagrado. Este animal é extremamente raro. Todos seus pelos devem ser vermelhos, sem exceção, e não pode ter carregado um fardo nenhuma vez em sua vida. Quando uma vaca como esta era encontrada, era sacrificada próximo ao Templo, e suas cinzas, misturadas em água e outros ingredientes, eram usadas para purificar pessoas que ficaram ritualmente impuras.

Aquele sobre o qual a água era jogada ficava puro, porém aquele que jogava a água ficava impuro, e teria que passar por um processo de purificação. A mitsvá da “vaca vermelha” encontra-se na categoria de “chukim – dogmas”, ou seja, as leis que não somos capazes de entender. Existem preceitos que cumpriríamos de qualquer maneira por serem básicas da civilização humana, ou outras que não cumpriríamos sozinhos, mas somos capazes de entender um pouquinho de seu imenso significado. Porém, a “vaca vermelha” esta além de nossa capacidade de compreensão, e a cumprimos por ser a Palavra Divina, que com certeza tem um significado muito especial.(Fonte: Chabad.org)

Morte de Miriam e falta de água

ויבאו בני ישראל כל העדה מדבר צן בחדש הראשון וישב העם בקדש ותמת שם מרים ותקבר שם

Toda a congregação dos filhos de Israel chegou ao deserto de Zim no primeiro mês, e o povo se estabeleceu em Cades. Miriam morreu ali e foi sepultada ali.

ולא היה מים לעדה ויקהלו על משה ועל אהרן

A congregação não tinha água; então eles se reuniram contra Moisés e Arão.(Bamidbar 20:1-2)

Uma figura judaica cuja popularidade está em alta é a profetisa Miriam , irmã de Moshê e Aharon. Embora tenha sido destaque na Torah, a reivindicação de fama de Miriam sempre empalideceu diante de seus irmãos mais visíveis. Afinal, Aharon foi o primeiro Kohen Gadol (sumo sacerdote) , o elo entre o povo judeu e sua religião, e Moshê era o amigo íntimo de D’us, transmitindo ensinamentos sagrados ao povo. Comparada a esses dois líderes, Miriam simplesmente desapareceu. Hoje, a fama de Miriam repousa menos em qualquer realização específica e mais no fato de que ela era uma mulher. Esta porção da Torah comenta sobre a morte desta profeta, que “Miriam morreu ali e foi enterrada ali, e a comunidade ficou sem água.”

Rashi (um dos maiores comentaristas da Torah) notou a estranha justaposição da morte de Miriam e a escassez de água, e assumiu que deve haver uma conexão entre os dois. “Disso aprendemos que todos os 40 anos, eles tiveram um poço por causa do mérito de Miriam.” O Poço de Miriam entrou no reino do Midrash como testemunho da grandeza desta líder única.

Enquanto os judeus vagavam pelo deserto, a falta de água adequada teria sido fatal. No entanto, o poder da integridade, piedade e cuidado de Miriam era tal que D’us providenciou um poço de água em movimento, um que acompanhou o povo durante suas andanças até o momento de sua morte. Sem Miriam, não havia mais água. O exemplo de Miriam, acompanhado por inúmeras mulheres depois dela, é um exemplo de ação, atos de amor e apoio. Sem os esforços de Miriam, ninguém teria sido capaz de ouvir as palavras de Moshê ou estudar a Torah de D’us. Atos de cuidado e amor, esse é o presente especial que as mulheres dão à humanidade. Observe, também, que ninguém comenta sobre ela, sobre o quão importante e valorizada é sua contribuição até depois que ela morre.

Trabalhando nos bastidores

O palco é o lugar onde a magia acontece, onde todos ficam admirados e encantados, tanto o público quanto o artista. Nos bastidores há muita tensão, muita correria, por vezes, muita gritaria e bate boca, mas são nos bastidores que os detalhes são ajustados, os erros são corrigidos para que os artistas possam brilhar e dar um show.

“E foi um homem da casa de Levi e casou com uma filha de Levi. E a mulher concebeu e deu à luz um filho; e, vendo que ele era formoso, escondeu-o três meses. Não podendo, porém, mais escondê-lo, tomou uma arca de juncos, e a revestiu com barro e betume; e, pondo nela o menino, a pôs nos juncos à margem do rio. E sua irmã postou-se de longe, para saber o que lhe havia de acontecer.”(Shemot 2:1-4)

Parada a uma distância segura, a menina não tirava os olhos de um lugar no meio dos juncos que cresciam no rio Nilo. As águas do rio corriam calmas, mas a menina estava tão tensa que mal se mexia. Parecia que o tempo se arrastava. Mas ela continuava ali observando, tentando não se incomodar com os insetos zumbindo em volta dela. Ela estava olhando para um cesto, que estava meio escondido entre os juncos. Dentro do cesto, estava seu irmãozinho de apenas três meses. Ver aquele bebezinho indefeso ali sozinho partia o coração dela. Mas ela sabia que seus pais tinham razão: esse era o único jeito de salvar o bebê naquele momento difícil. A menina estava sendo bem corajosa, mas logo teria que ser ainda mais corajosa. No coração dela, estava se desenvolvendo uma qualidade maravilhosa: a fé e o amor. E o que aconteceu a seguir provou que a menina tinha fé, uma qualidade que marcaria toda a sua vida.

Então a menina esperou. Passado um tempo, ela viu uma egípcia se aproximando do rio. E não era qualquer pessoa, não. Era a filha de Faraó e suas servas, que estavam indo tomar banho no Nilo. Provavelmente o coração da menina quase parou. Talvez ela tenha pensado: ‘Acabou. Nunca que a filha de Faraó vai desobedecer ao rei e proteger o meu irmão!’ Com certeza, a menina começou a orar a Adonay. A primeira pessoa que viu o cesto entre os juncos do rio foi a filha de Faraó. Ela pediu que uma das suas servas fosse buscar o cesto. O relato então diz sobre a princesa: “Quando ela o abriu, viu o menino, e o menino estava chorando.” Ela logo entendeu o que estava acontecendo: a mãe daquele menino hebreu estava tentando salvar a vida dele. Mas aquele bebezinho derreteu o coração da filha de Faraó e ela ficou com pena dele. Sem tirar os olhos do que estava acontecendo, a menina percebeu no rosto da mulher o carinho que ela sentiu pelo bebê. A menina sabia que aquele era o momento de mostrar sua fé em D’us. Ela criou coragem e se aproximou da filha de Faraó.

O que será que poderia acontecer com uma menina, filha de escravos hebreus, por se atrever a falar com um membro da família real do Egito? Não sabemos. Mesmo assim, a menina perguntou: “A senhora quer que eu chame uma ama hebreia para que ela amamente o menino para a senhora?” Essa era a pergunta certa! A filha de Faraó sabia que não tinha condições de cuidar de um bebê. Talvez ela tenha pensado que chamaria menos atenção se o menino fosse criado pelo seu próprio povo. Mais tarde, ela poderia adotar o menino e criá-lo como seu próprio filho. O coração da menina deve ter explodido de alegria quando a princesa respondeu com uma única palavra: “Vá!” A menina foi correndo contar a novidade para seus pais, que estavam bem ansiosos. Imagine a menina contando a novidade para sua mãe, de tão animada, a menina mal conseguia falar! Joquebede com certeza viu que Ha’Shem estava cuidando das coisas. Ela e a menina foram logo falar com a filha de Faraó. Talvez Joquebede tenha tentado esconder o quanto ficou feliz e aliviada quando a princesa disse: “Leve este menino com você e amamente-o para mim, e eu lhe pagarei.”

O tempo passou, a menina, agora uma senhora, devia ter quase 90 anos quando Moshê é enviado por D’us, para liberar Seu povo. Moshê e Aharon, seu porta-voz, foram até Faraó dizer para que ele deixasse o povo de D’us ir embora. Infelizmente, as pessoas tendem a lembrar de Miriam apenas como a irmã de Moshê que pecou contra ele e ficou leprosa. Quem não falha? Quem não erra? Quem não peça? O próprio Moshê falhou, e isso nós veremos mais adiante. As pessoas esquecem a grandeza, a importância dessa menina mulher que ajudou muito na formação da nação de Israel. Porém, o Santo Bendito Seja Ele, não esquece.

“Porque eu vos tirei da terra do Egito e vos remi da casa da servidão; e enviei adiante de vós Moshê, Aharon e Miriam”(Michah 6:4)

Sobre o versículo, comenta Rashi: “Moshê, Aharon e Miriam: Yonatan parafraseia: Moishe para ensinar a transmissão das leis, Aharom, para expiar o povo e Mirim para instruir as mulheres.

Por ter cuidado de Moshê as margens do Nilo, Miriam foi recompensada justamente através da água. Por causa de seu atributo de bondade, D’us proveu os judeus com água, uma necessidade vital. Uma miraculosa rocha da qual brotava água estava sempre presente no deserto com o povo. Quando o povo acampava, essa ficava num local alto, em frente à entrada do Tabernáculo. Há um midrash no tratado Tosefta Sucá 3:4 que fala sobre essa rocha.

“Então o poço, que estava com Israel no deserto, era como uma rocha do tamanho de uma k’bara, e estava escorrendo e subindo como da boca deste frasco, viajando com eles pelas montanhas e descendo com eles para os vales. Onde quer que Israel armasse suas tendas, acampava em frente a eles diante da porta do Tabernáculo.”(Tosefta Sucá 3:4)

Conhecendo bem as tradições do seu povo, Shau’l menciona essa interpretação midráshica para argumentar que a presença de Yeshua estava na jornada dos israelitas no deserto, cuidando deles, fornecendo a água que permitia a vida:

“Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar.
E todos foram batizados em Moshê, na nuvem e no mar,
E todos comeram de uma mesma comida espiritual,
E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era o Mashiach”
(1ª Coríntios 10:1-4)

É bom saber !

A geração do deserto recebeu três presentes pelo mérito de seus três grandes líderes:

• O Poço, pelo mérito de Miriam.

•As Nuvens de Glória, pelo mérito de Aharon.

• O maná, pelo mérito de Moshê.

No décimo dia de Nissan do quadragésimo ano no deserto, faleceu Miriam quando tinha cento e vinte e cinco anos de idade.

O que você destaca em Miriam, de acordo com essa parashá ? Deixe nos comentários.

A falha de Moshê e Aharon

Chegamos ao momento mais abstruso dessa parashá. Moshê batendo na pedra é um dos episódios mais intrigantes relatados na Torah. Moshê é sem dúvidas um dos personagens mais importante do Tanach. Maimônides o chama de “o mais perfeito ser humano”, e os Sábios do Talmud dizem que “a Presença Divina falou pela sua garganta”. Porém a Torah também atesta que o homem que tirou os Filhos de Israel do Egito e recebeu a Torah de D’us era “o homem mais humilde na face da terra”.

“Ora, este homem, Moshê, era extremamente humilde, mais do que qualquer homem sobre a face da terra”.(Bamidbar 12:3)

A parashá nos conta que após terem vagado pelo deserto durante quarenta anos, os filhos de Israel chegam a Kadesh, na fronteira da Terra Prometida. Não há água por perto e o povo está sedento. Lembrando que o poço de água era por mérito de Miriam, logo após a sua morte o poço desapareceu. Como faziam sempre que algo lhes afligia ou preocupava, lamentaram-se a Moshê:

וירב העם עם משה ויאמרו לאמר ולו גוענו בגוע אחינו לפני יהוה

O povo discutiu com Moshê e disse: “Se ao menos tivéssemos morrido com a morte de nossos irmãos diante de Adonay!

ולמה הבאתם את קהל יהוה אל המדבר הזה למות שם אנחנו ובעירנו

Por que vocês trouxeram a congregação de Adonay a este deserto, para que nós e nossos rebanhos morrêssemos ali?

ולמה העליתנו ממצרים להביא אתנו אל המקום הרע הזה לא מקום זרע ותאנה וגפן ורמון ומים אין לשתות

Por que nos tiraste do Egito para nos trazeres a este lugar mau? Não é lugar para sementes, nem para figueiras, nem para videiras, nem para romãzeiras, e não há água para beber.(Bamidbar 20:3-5)

Moshê e Aharon, seu irmão, oram a D’us para que surgisse água para o povo. O Eterno respondeu, ordenando a Moshê:

“Pegue o cajado e reúna a congregação, você e seu irmão Aharon, e fale com a rocha na presença deles para que ela dê água. Você deve tirar água da rocha para eles e dar de beber à congregação e ao seu gado.” Moshê pegou o cajado de diante de Adonay, como este lhe havia ordenado. Moshê e Aharon reuniram a congregação diante da rocha, e ele lhes disse: “Agora escutem, rebeldes, poderemos tirar água desta rocha para vocês?” Moshê levantou a mão e feriu a rocha duas vezes com seu cajado, e dela jorrou muita água, e a congregação e seus rebanhos beberam.”(Bamidbar 20:8-11)

Água brotando da rocha, pessoas e animais saciando a sede, todo o povo enchendo seus barris, crianças pulando de alegria. O povo está feliz. Talvez, Moshê e Aharon olharam um para o outro com a sensação de trabalho realizado, missão cumprida. Todavia, ele foram advertidos pelo Santo Bendito Seja Ele, que disse:

“E Adonay a Moisés e a Arão: “Visto que vocês não tiveram fé em mim para me santificar aos olhos dos filhos de Israel, vocês não levarão esta congregação para a terra que eu lhes dei.”(Bamidbar 20:12)

O que teria Moshê feito de errado nesse incidente, que ficou conhecido como as “Águas da discórdia”?

O erro de Moshê, aos olhos dos Sábios

Rashi, comentarista clássico da Torah, ressalta que D’us instruiu Moshê a falar à pedra, e não a golpear.

O Rabi Moshé ben Maimon, Maimônides, oferece uma explicação diferente: o pecado de Moshê teria sido perder a paciência com o povo judeu, quando seus membros reclamaram acerca da falta d’água. Pessoa alguma, sobretudo um líder de sua estatura, considerado o homem mais espiritual que já existiu, deveria dar sinais de impaciência, ao falar. Segundo Maimônides, teria sido o desabafo “Escutai, o rebeldes!”, bradado por Moshê, o que lhe teria custado a entrada na Terra Santa.

Rabi Moshé ben Nachman, Nachmânides, por sua vez, não aceita nenhuma das duas explicações acima. Esse místico comentarista bíblico levanta a seguinte colocação: se foi tão errado Moshê ter golpeado a rocha, para que lhe teria o Todo Poderoso ordenado levar consigo o cajado, quando da extração de água para o povo judeu?

Outros sábios tentaram encontrar diferentes justificativas para o episódio das “Águas da discórdia”. Cada um de seus comentários ensina importantes lições. Após a análise de diferentes sábios, a nível P’shat (simples), concluímos que o erro de Moshê foi exatamente por ter batido na rocha ao envés de falar-lhe. Todavia, existem algumas explicações místicas para esse episódio. Entre elas, está a mais interessante. Acompanhe!

O erro de Moshê: Uma visão místicas

Observação:.

A imagem acima, é simplesmente para fim didático, a mesma não reflete a sabedoria dos sábios de Israel.

Ra’ya M’hemna

Esta frase expressa a dedicação de Moshê para com a integridade do povo, que fez com que ganhasse o título, em aramaico, de “Ra’ya M’hemna”, “Pastor Fiel”, com o qual é chamado constantemente no livro do Zohar. Na realidade, se trata de um alto grau de auto-sacrifício e dedicação pelo povo que governa. Oferece sua prosperidade eterna para o bem do povo que recém havia pecado, o que em hebraico chamamos de “Mesirut Nefesh” – “rendição da alma”.

A verdade é que sua entrega foi muito além do que do que se pode ser feito, depois do erro do bezerro de ouro. Já na Parashá de Yitro lemos sobre sua dedicação em resolver os problemas de seus irmãos, sentando num tribunal do nascer ao pôr do sol (Shemot 18:13), a tal ponto que seu sogro lhe diz “(…) pois este trabalho está muito pesado para você, e você não pode faze-lo sozinho” (id. 18). Quando Yitro, sogro de Moshê, pergunta por que este julga o povo do amanhecer ao anoitecer, Moshê responde:

“Porque as pessoas vêm a mim para consultar D’us… Quando eles têm uma disputa, eles vêm a mim, e eu julgo entre um e o outro, fazendo com que conheçam os estatutos de D’us e Suas leis”.(Shemot 18:15-16)

Moshê estava sempre a serviço de Ha’Shem e a disposição do povo.

O “Pastor Fiel” deve lembrar em tempos de crise, desta qualidade básica, de “Consultar o Criador”. Tratar de conhecer a vontade divina, examinando-a com cuidado e, exigindo justiça e juízo, pois a virtude de dar a cada um o que lhe pertence ou corresponde, nunca é perdida. Como um fiel pastor, Moshê julgou não ser justo ele entrar na terra prometida, ao passo que as suas ovelhas, que do Egito saíram, não entrarem. Moshê sabia que deveria apenas falar a rocha para brotar água. Todavia, optou por bater, para que pudesse ser “castigado” e não entrar na terra. Moshê preferiu morrer no deserto junto ao seu povo.

O verdadeiro líder, não é um intermediário que fica no caminho entre nós e D’us; seu altruísmo e bitul permite que seja um canal transparente nos ajudando a conectar com D’us à nossa própria alma. Um verdadeiro mestre não ensina a você a verdade dele, ensina qual é a verdade Mais Elevada e que ela pertence a você tanto quanto pertence ao mestre. O verdadeiro mestre não tem ego, ele reconhece que o tempo todo é meramente um mensageiro transmitindo verdade a partir de um lugar maior. Na verdade, o maior título de um erudito de Torah não é “chacham”, sábio, mas “talmid chacham”, o aluno de um sábio. O erudito sempre sente o bitul de que é meramente um estudante da sabedoria Divina. “Reshis chohma yiras Hashem” (o princípio e alicerce da sabedoria é reverência a D’us).

O que é um bitul ?

Bitul é um conceito fundamental dentro da teologia judaico-messiânica, que se refere à anulação ou submissão da vontade humana à vontade divina.

A serpente de bronze

A história da serpente de bronze é uma das histórias mais ilustrativas e expressivas na Torá. Mesmo quando vista em contraste com o contexto maravilhoso e vibrante da Palavra de Deus, esta incrível história ainda se destaca. Vamos meditar sobre esses versículos juntos. O início da história é muito tradicional. Já estamos acostumados e mesmo cansados das intermináveis rebeliões, relatadas na Torah, do povo hebreu no deserto. Quando os judeus chegaram às terras de Edom, encontravam-se tão perto da terra prometida que bastaria atravessa-las que chegariam imediatamente. Mas o rei de Edom não permitiu que os judeus atravessassem o país. Por isso, Moshê e o povo judeu ainda andariam muito para chegar até lá. O êrev rav e os que não eram justos reclamaram:

Erev Rav  (ערב רב) “grande mistura”

Era um grupo que incluía egípcios e outros que se juntaram às tributos de Israel na fulga.

וידבר העם באלהים ובמשה למה העליתנו ממצרים למות במדבר כי אין לחם ואין מים ונפשנו קצה בלחם הקלקל

O povo falou contra Elohim e contra Moshê: “Por que vocês nos tiraram do Egito ? Para morrermos neste deserto ? Não há pão nem água, e estamos enojados com este pão desprezível (sem valor)”.(Bamidbar 21:5)

Curiosidades sobre o Maná:

•Era construído para o povo no terceiro céu (Shechakim) Tehilim 78:23-24

Impaciente, o povo reclamou do pão que os alimentou durante toda peregrinação no deserto, chamando-o de pão inútil. Mas, o que isso significa ? O que o povo quis dizer com essa declaração ? Os sábios do povo judeu, trazem comentários importantes para nós.

Rash no tratado de Yoma 75b, diz o seguinte: “Eles disseram: Este maná acabará inchando em nossos estômagos e nos matará; há alguém nascido de uma mulher que ingere comida, mas não expele resíduos ?”

Os sábios (Yishmael, Elazar, Reish Lakish, Yochanan), disseram que o Maná era uma substância que era dissolvida e absorvida em todos os 248 membros do corpo. O Maná possuía todos os nutrientes necessários para o organismo humano, ele era ingerido sem haver necessidade de excremento.

Curiosidades sobre o Maná:

• Era um pão; (Shemot 16:4)

• Era cremoso; (Bamidbar 11:8)

• Era como mel. (Shemot 16:31)

Além de desprezar o alimento que descia dos céus, o povo também cometeu o pecado da lashon hara (língua má) falando contra Moshê e contra o próprio D’us. Saiba mais sobre lashon hara clicando aqui.

וישלח יהוה בעם את הנחשים השרפים וינשכו את העם וימת עם רב מישראל

E enviou יהוה serpentes ardentes contra o povo, e elas picaram o povo, e muitos israelitas morreram.(Bamidbar 21:6)

A punição que veio sobre o povo, por causa da lashon hara foi serpentes arrasadoras, todos que por elas eram mordidos, morriam. Mas, por que serpentes ? O Midrash Tanchuma, Chukat 19 trás uma exploração para nós:

Por que o Santo, bendito seja Ele, achou adequado exigir retribuição deles por meio de serpentes? É simplesmente que a serpente começou [o uso de] linguagem caluniosa no início e foi amaldiçoada; ainda assim eles não aprenderam com isso e falaram linguagem caluniosa contra o Santo, bendito seja Ele. [O Santo, bendito seja Ele, disse:] “Que a serpente, que foi a primeira [a usar] linguagem caluniosa, venha e exija retribuição daqueles que [ainda] falam linguagem caluniosa.” Isto é o que está escrito:

“aquele que rompe uma barreira terá uma cobra o mordendo.”(kohelet 10:8)

Em geral, “romper uma barreira” significa “dizer”, mas aqui a referência pode denotar mais especificamente a barreira dos dentes, através da qual a calúnia deve passar.(Midrash Tanchuma, Chukat 19)

Desesperados, o povo suplicou a Moshê que rogasse a D’us para que as serpentes fossem tiradas:

ויבא העם אל משה ויאמרו חטאנו כי דברנו ביהוה ובך–התפלל אל יהוה ויסר מעלינו את הנחש ויתפלל משה בעד העם

O povo veio a Moisés e disse: “Pecamos ao falar contra יהוה e contra ti. Intercede junto a יהוה para que tire as serpentes de nós!” E Moshê intercedeu pelo povo.(Bamidbar 21:7)

Eles sabiam que tinham falado contra Moshê, e se prostraram diante dele e disseram: “Ore ao Eterno, e Ele afastará [a serpente] de nós” – era uma única serpente. “[Moshê] orou” – para informá-lo da humildade de Moshê; ele não hesitou em implorar por misericórdia em seu nome, e para informá-lo do poder do arrependimento. Uma vez que eles disseram: “Pecamos”, ele foi imediatamente apaziguado diante deles, pois aquele a quem o perdão é pedido não deve se tornar cruel. Da mesma forma, diz: “Avraham orou a D’us, e D’us curou [Avimelekh]” ( Bereshit 20:17 ). Da mesma forma, diz: “O Eterno restaurou a perda de Yiov quando ele orou por seus amigos” ( Yiov 42:10 ).(Midrash Tanchuma, Chukat 19)

O Eterno ouviu a oração de Moshê, e ordenou o seguinte:

ויאמר יהוה אל משה עשה לך שרף ושים אתו על נס והיה כל הנשוך וראה אתו וחי

E disse יהוה para Moshê :“Faça para você um saraf (serpente) e pendure ela sobre um poste. E quando uma pessoa mordida olhar para ela viverá.”(Bamidbar 21:8)

ויעש משה נחש נחשת וישמהו על הנס והיה אם נשך הנחש את איש–והביט אל נחש הנחשת וחי

E fez Moshê uma serpente de cobre e a colocou sobre o poste; e se uma serpente mordesse um homem, quando essa pessoa olhasse para a serpente de bronze, ela viveria.(Bamidbar 21:9)

D’us não mandou Moshê fazer uma serpente de bronze. Mas por que ele fez ?

A palavra hebraica para bronze é “nechoshet” (נחשת). Bronze nas Escrituras simboliza o juízo de D’us, por isso todos os elementos do pátio do Tabernáculo eram de bronze, visto que no pátio era o local onde os sacrifícios eram realizados e o juízo sobre o pecado era aplicado. Agora, veja que interessante. A palavra hebraica para serpente é “nachash” ( נחש ). Observe também a letra hebraica Tav ( ת ) que é comumente conhecida pela sua antiga representação, uma cruz ! Não por acaso, ao se adicionar uma letra Tav ao final da palavra para serpente, ela passa a ser “nechoshet”( נחשת), que significa bronze, ou seja, sabemos que a serpente simboliza (tipologicamente) o pecado, portanto, pela sua terminologia o bronze é uma representação da serpente aplicada a uma cruz, dessa forma o juízo de D’us resolve a questão do pecado ( serpente ), crucificando-o !

Isso fica ainda mais interessante quando se percebe que a palavra hebraica para serpente ( נחש “nachash” ) possui um vínculo muito forte com outra palavra hebraica muito conhecida e de profundo significado, Mashiach (משׂיח). Ambas as palavras possuem no hebraico o mesmo valor numérico, 358.

Nachash (נחש) vale ( 300 + 8 + 50 ) = 358

Mashiach (משׂיח) vale ( 8 + 10 + 300 + 40 ) = 358

O nome do Mashiach codificado

ויאמר יהוה אל משה עשה לך שרף ושים אתו על נס והיה כל הנשוך וראה אתו וחי

ויעש משה נחש נחשת וישמהו על הנס והיה אם נשך הנחש את איש–והביט אל נחש הנחשת וחי

ויסעו בני ישראל ויחנו באבת

ויסעו מאבת ויחנו בעיי העברים במדבר אשר על פני מואב ממזרח השמש

No texto que fala sobre a serpente de bronze, do versículo 8 ao 11, nós temos o nome de Yeshua (יֵשׁוּעַ) codificado. Basta pegar a última letra ( י ) do versículo 8 e contar numa sequência de 33 letras. Observe todas as letras que estão com destaque na cor vermelho, elas formam exatamente o nome de Yeshua (יֵשׁוּעַ).

Detalhe ! Por que 33 letras ? Yeshua tinha 33 anos quando foi pregado no madeiro.

Cumprimento na B’rit Chadashá

A história da serpente de bronze, feita por Moshê no deserto do Sinai, é um dos eventos mais proféticos que apontam para o Mashiach na Torah. Quando o próprio Yeshua afirmou que a Torah falava de si, sem dúvida, Ele tinha em mente a serpente de bronze de Moshê, entre outros tipos do Mashiach. Ele mesmo se referiu a ela em sua conversa com Nicodemos:

וְכַאֲשֶׁר נִשָּׂא משֶׁה בַּמִּדְבָּר אֶת־הַנָּחָשׁ עַל־הַנֵּס כֵּן יִנָּשֵׂא בֶּן־הָאָדָם׃

E como levantou Moshê no deserto a serpente sobre o poste, será levantado o filho do Adam.

לְמַעַן אֲשֶׁר לֹא יֹאבַד כָּל־הַמַּאֲמִין בּוֹ כִּי אִם יִמְצָא בוֹ חַיֵּי עוֹלָם׃

Para que não seja destruído todo que nele confia, mas encontre nele a vida eterna.(Yochanan 3:14-15)

O ato de olhar para a serpente de bronze era profético e significava reconhecer a condição de pecador. Era assumir o erro e se voltar para D’us. Era reconhecer que o castigo era merecido e o juízo de D’us justo. Contemplar a serpente de bronze equivalia a contemplar seu próprio pecado e o merecido castigo que ela simbolizava. As pessoas feridas mortalmente eram obrigadas a olhar para a imagem daquilo que lhes fustigavam e causava morte, caso quisessem continuar vivas. Não era uma visão agradável, pois representava a própria condição miserável do povo perante o Santo Bendito Seja Ele. No entanto, era a única maneira de permanecer vivo em face do juízo de fogo.

Muito séculos adiante, à semelhança do que ocorrera no deserto, Yeshua foi erguido em uma estaca assim como a serpente de bronze fora erguida sobre uma haste por Moshê, tendo de sofrer todo o castigo dos pecados da humanidade. E assim como todo o que fora mordido pelas serpentes de fogo tinha de olhar para a serpente de bronze para ser salvo da morte, toda a humanidade precisa olhar para a estaca a fim de ser livre da morte eterna. A serpente de bronze e o Filho do Adam são expressões de um D’us de justos juízos, porém, rico em misericórdias.

Abençoado seja o Eterno


Comentários

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    Jackson

    Miriã de fato foi uma peça fundamental no meio do povo, sendo primeiramente exemplo e “líder” juntamente com seus irmãos. Como foi dito, todos erraram em um dado momento e no caso de Miriã ela foi acometida da lepra mia se arrependeu e foi perdoada. E seu exemplo de mulher está vivo até os dias de hoje. Parabéns pelo estudo!

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