Parashá Bereshit – No Princípio

Shalom!

Chegamos a Parashat Bereishit (“No Princípio”), a primeira parashá no ciclo anual de leitura da Torah, e corresponde ao livro de Genesis 1:1-6:8. A Parashá começa com a criação do mundo por D’us. As primeiras pessoas, Adão e Eva, comem da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e são banidas do Jardim do Éden. Seu filho mais velho, Caim, mata seu filho mais novo, Abel, e Caim é destinado a uma vida de peregrinação.

Esta Parashá será dividida em 5 partes:

• Introdução a Parashá;

• Relato da Criação;

• A queda;

• O Surgimento da idolatria;

• O enigma dos irmãos – Cain e Abel.

ENTENDENDO O PASSADO – COMPREENDENDO O FUTURO PARTE 1 – INTRODUÇÃO A PARASHÁ

O Tudo antes do Nada

No capítulo inicial da Torah (Bíblia Hebraica), onde se desenrola a história da Criação, a mística (Cabalá) apresenta uma fascinante questão: Como, se D’us existe, o universo pode simultaneamente existir? D’us é infinito, D’us está em toda parte. Portanto, em qualquer lugar, existe tanto o finito como o infinito. Porém certamente o infinito supera tudo que seja finito. Simplesmente não há espaço para a matéria física se todo lugar está preenchido com a presença infinita de D’us. Como, então, existe um universo?

A resposta mística dos sábios é obrigatória. Para criar espaço para o universo, D’us, por assim dizer, iniciou um processo que em hebraico chamamos de “tzimtzum”, auto-contração ou retirada, criando um vácuo esférico; o espaço necessário para o mundo existir. Ao retirar Sua luz infinita, um mundo autônomo, “independente”, distinto de D’us, pode emergir.

Qualquer explicação da leitura das passagens relevantes de Bereshit, está fadada a levantar muitas dificuldades. Portanto, tentaremos esclarecer o máximo possível sobre esse conceito (Tzimtzum) que é separado por fases:

Primeira Fase

Antes do tzimtzum, havia uma luz celestial e simples que preenchia toda a existência, e não havia espaço vazio. Em vez disso, tudo estava preenchido com luz infinita simples, que não tinha começo nem fim, mas tudo era uma luz simples, tudo igual e igual. Isso é chamado de luz infinita (Or Eyn Sof).

Segunda Fase

Então, esta luz foi contraída (Tzimtzum) e afastada, deixando um espaço vazio, um espaço oco (Chalal). Depois desta 
contração, havia agora espaço onde emanações e criações poderiam (potencialmente) ser formadas e feitas.

Terceira Fase

Então foi desenhada da luz infinita uma única linha reta (kav), desenhada da luz circundante, descendo sucessivamente para dentro do oco. O topo desta linha é desenhado da própria luz infinita e a toca, e através desta linha a luz infinita é desenhada e espalhada abaixo. Assim, naquele espaço oco, todos os reinos foram emanados, criados e feitos.

A parashá começa assim:

בראשית ברא אלהים את השמים ואת הארץ

Bereshit Bará Elohim Et HaShamayim V’et HaAretz

Em (“No”) Princípio Criou D’us os Céus e a Terra

Os sábios ensinam que o processo do Tzimtzum não pode ser compreendido totalmente, pois não foi plenamente revelado a nós. Essa conclusão se deu após a observação do formato da primeira letra da Torah – Bêt (ב).

Como mostra a imagem acima, a letra Bêt (ב) é fechada do lado direito, lembrando que no Hebraico a leitura começa da direita para esquerda. Isso significa que: Nós não temos acesso ou conhecimento real do que aconteceu antes da Criação. Tudo que sabemos vem da tradição midrashica dos sábios talmúdicos que dizem o seguinte:

“No princípio, dois mil anos antes do céu e da terra, sete coisas foram criadas: a Torah escrita com fogo preto sobre fogo branco, e repousando no colo de D’us; o Trono Divino, erguido no céu, que mais tarde estava sobre as cabeças dos Hayyot; o Paraíso no lado direito de D’us, o Inferno no lado esquerdo; o Santuário Celestial diretamente em frente a D’us, tendo uma joia em seu altar gravada com o Nome do Messias, e uma Voz que clama em voz alta: “Retornem (Teshuvah), filhos dos homens”.

Tudo quanto aconteceu ou existiu antes do princípio, foi ocultado de nós (Dt). Talvez seja esse o motivo que nos leva a se perguntar: “por que estou aqui?”, “Por que este universo inteiro (aparentemente) está aqui?” ou “Qual o propósito de tudo isso?”

O universo não precisa estar aqui. Não há razão para que você, eu ou eles, ou qualquer coisa, tenhamos de estar aqui. A Realidade Suprema (D’us) não tem necessidade de que nada exista – como explica Maimônides no início de sua obra Fundações da Torah. Mas quando D’us fez tudo existir, Ele o fez com um desejo a ser encontrado dentro de Sua criação e Ele investiu todo Seu Ser naquele desejo. Aquele desejo é um elemento essencial da realidade. Chame-o de propósito. Ele se desenrola através da história e por fim floresce abertamente. Explicar aquele propósito exige um contexto, o que equivale a dizer que precisamos de uma resposta mais longa. Essa resposta “será” dada ao longo de todo estudo sobre esta Parashá (Bereshit).

De forma interessante, o Zohar (obra máxima da Cabalá) apresenta uma razão para a criação. Numa passagem freqüentemente citada, o Zohar (Parashat Bô 42b) menciona que o mundo foi criado: “…para que houvesse criaturas que O conhecessem em toda medida pela qual Ele dirige Seu mundo, com bondade e com critério, segundo os atos de humanidade. Pois se Sua luz não se espalhasse a cada uma de Suas criações, como Ele (D’us) seria conhecido? De que maneira se cumpriria ‘Toda a terra está repleta de Sua glória’?” D’us é bom, portanto cria. Isso é levar as coisas um pouco mais além: ser bom é mais que auto-expressão, ser bom é espalhar, transmitir a sua própria bondade.

Como dissemos, D’us não tem necessidade ou “razão” para criar um mundo. Ele apenas o fez. Mas quando Ele o fez, foi com um propósito. Ele decidiu desejar ter dois opostos de uma vez: Um mundo terreno, real, descobrindo seu Criador em todos seus aspectos. Numa linguagem midrashica: “Ele desejou um mundo para Si Mesmo no mais inferior dos mundos”.

O mais inferior dos mundos, é nosso mundo. Em termos de “clareza de sinal” – informação clara sobre sua fonte – você não pode ir mais baixo que isso e ainda ter algo existindo. É isso que o faz parecer tão real – a falta de aparente conexão com sua fonte. E é isso que o torna tão importante, a tal ponto que dentro dele está o propósito de todas as coisas. Se isso parece contra-intuitivo, é porque é mesmo. Acostume-se a isso. A partir daqui, todas as nossas conclusões estarão baseadas neste princípio contra-intuitivo. Tudo bem que ele seja contra-intuitivo porque, como você se lembra, não é razoável. D’us não precisa de um lar. Ele está perfeitamente bem não fazendo nada. Ele apenas quis desejar isso. E Ele pode decidir desejar tudo aquilo que decidir desejar. Isso não significa – e é importante assinalar – que Ele realmente não deseja isso. Pelo contrário, você já teve de lidar com um desejo irracional? A razão tem seus limites, mas quando as coisas são decididas “só porque sim,” você não está lidando mais com algo que possa alterar. Está lidando com a pessoa completa.

Então aqui, também, D’us decide. “Isso o que escolho desejar, só porque assim decidi.” E então, Ele está lá naquele desejo em toda Sua essência. A criação contém apenas o mais ínfimo (pequeno) traço de um raio de um reflexo da luz do Criador. Somos todos uns nadas desnecessários. Mas em Seu desejo por Sua criação e esta realização, ali está Ele em Sua plenitude.

Antes de mais nada, nenhuma outra resposta expressa tão bem aquilo que os cabalistas chamam de “a simplicidade do infinito.” O Infinito, Bendito Seja, está além da razão, além da busca pela perfeição. Todas essas nada mais são que ficções de seu próprio projeto. Colocar propositadamente o propósito no mais inferior dos mundos é uma expressão pungente deste ponto. De fato, é a suprema expressão do Infinito Essencial. “A Fonte (D’us) de todas as emanações, Sua existência é de Seu próprio ser e não o efeito de qualquer causa que o tenha precedido. E portanto, somente Ele tem a capacidade de criar algo a partir do nada absoluto, sem nenhum precedente ou causa para sua existência”

Com isto, entendemos que nos primeiros versículos e capítulos do Gênesis são narrados os planos divinos da Criação. Concebe-se pela Torah que o Universo é um influxo espiritual da palavra Divina, dita no Talmud como sendo reshit, o princípio de tudo. Quando D’us criou, tudo ocorreu por, como já foi explicado Tzimtzum, a vontade Divina, sendo D’us Criador, Legislador e Condutor do Universo.

Entendido isto, concebe-se que D’us tinha um plano de Criação, que a criação não foi um processo casual, mas sistemático, sob os quais forças cósmicas, formas criativas e a Vontade Divina, fluíam para formação daquilo que concebemos como universo. Os “tempos” da criação foram diversos e foi exatamente depois de constatar que a obra finalizava em sua concretude, no sexto dia, surge o elemento mais importante da criação divina, o ser humano. Os detalhes desse surgimento veremos na parte 2 desta parashá. Interessante que existe um Midrash que comenta que D’us conversou com os Malachim (“anjos”) sobre a conveniência de criar o homem ou não, pois a ele seria destinado o mundo e a responsabilidade de nomear, manter e dominar. Daí, uma das primeiras mitzvá (mandamento): “Frutificai e multiplicai, e enchei a terra e sub julgue-a, e dominai sobre o peixe do mar e sobre a ave dos céus, e em todo animal que se arrasta sobre a terra” (Bereshit/Gn 1:28).

Muita responsabilidade para um ser tão ingênuo? Arrogante? Aliás, ainda hoje vemos que não conseguimos manter a beleza desta OBRA.

O  homem após a “queda do Éden” vivia em depravação. Os detalhes desta queda, veremos na parte 3 desta parashá. A Torah descreve um mundo maravilhoso criado por D’us e corrompido por uma geração que era ruim e má, que desequilibrava a criação por sua voluptuosidade. Foi deste episódio que ocorreu o dilúvio, e surgiu um novo pacto entre D’us e os homens, nos mandamentos de Noé chamado Shevá Mitsvót Benê Nôach ou Os Sete Preceitos dos Descendentes de Noé. Os detalhes deste pacto, veremos na Parashat Noach.

A maldade era tão grande que deu início a idolatria. Sobre a idolatria trataremos na parte 4 desta parashá. Com o passar do tempo, Caim (primeiro filho de Adão e Eva) matou Abel seu irmão. Deus disse a Caim: “Onde está seu irmão Abel?” Caim disse: “Não sei. Sou eu o guardião do meu irmão?” A resposta de D’us, veremos na parte 5 desta parashá.

Ensinam os sábios, que se entendermos os três primeiros capítulos de Bereshit, compreenderemos toda Torah. O surgimento, o desenvolvimento e o desfecho final da raça humana estão em Bereshit. Por exemplo:

No Éden, Adão e Eva foram proibidos de comer do fruto do conhecimento do Bem e do Mal. Como consequências da desobediência, pois comeram do fruto proibido, eles foram expulsos do Jardim e consequentemente privados de comer do fruto da árvore da vida. Sem permissão para comer deste fruto, com o passar do tempo eles moram. Nós, seus descendentes e também eles comeremos (após a ressurreição) deste fruto no Olam Haba (Mundo Vindouro).

“Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à (comer do fruto da) árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas.”(Ap 22:14)

Note que toda Escritura está harmônizada, de Bereshit a Hizayon (Genesis a Apocalipse). Inclusive, o livro do Apocalipse usa 70% dos elementos concretos ou alegóricos do Tanach (“Velho Testamento”).

Ainda sobre a Luz Infinita, Or Ein Sof, os cabalistas ensinam que D’us criou o mundo que são receptáculos designados para receber a Luz Divina. Mas o universo não conseguiu resistir à intensidade da emissão da Luz Divina, e então se estilhaçou. Todo o recém-criado universo entrou num estado de caos, onde a luz e a escuridão poderiam então coexistir. Também é ensinado pelos sábios que o Todo-Poderoso criou um universo físico porque desejava ter uma Morada aqui em nossa realidade terrena. Isto significa que D’us deseja ser encontrado no mundo físico que Ele criou e, desta forma, permeá-lo com a Revelação de Sua Bondade Infinita. Mas, para que isto pudesse ocorrer, Ele “precisou” retrair sua Luz (processo do Tzimtzum como já explicamos), gerando de si mesmo uma luz retraída para que o mundo pudesse suportar. Essa luz é descrita no terceiro versículo de Bereshit quando Ele declara:

יהי אור ויהי אור

Yehi Or VaYehi Or

Haja Luz ! E Houve Luz.

Esta Luz, ensinam os sabios que era o Mashiach (Yeshua). D’us, “almejando” se relacionar com a sua Criação, teve que se “diminuir” para que pudéssemos suporta-lo. Esta é a explicação, dentre o conhecimento humano, para explicar a razão e o propósito de toda a Criação.

Com esse estudo, iniciamos a Parashá Bereshit. Aguarde a parte 2,3,4 e 5.

Abençoado Seja O Eterno


Comentários

3 respostas para “Parashá Bereshit – No Princípio”

  1. Avatar de Josiano Santana
    Josiano Santana

    Shalom

  2. Baruch HaShem!!! Que o Eterno abençoe o autor desse abençoado shiur!!!

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