
Shalom!
Chegamos a Parashat Terumah, a décima nona porção semanal da Torah no ciclo judaico anual de leitura da Torah. A nossa parashá corresponde ao Sêfer Shemot (livro do Êxodo) 25:1—27;1.
Na Parashat Terumah: D’us pede aos Filhos de Israel que contribuam (terumah) para a construção do Tabernáculo para que ele (D’us) possa “habitar entre eles” (25:1-9);
São fornecidas instruções para a construção da arca, da mesa e da menorá (25:10-40);
Instruções detalhadas são dadas sobre como construir o Tabernáculo (26:1-27:19).
Introdução
O que torna um material adequado para a construção de um espaço Sagrado?
Cinco parashot (porções de leituras semanais da Torah) consecutivas no livro de Shemot (Êxodo) contêm seções técnicas sobre o tabernáculo e seus implementos, lidando com “porcas e parafusos”, materiais, medidas e construção. Essas parashot nos dão uma rara oportunidade de refletir sobre o valor “religioso” do artesanato e do trabalho manual, particularmente sobre a maneira como o trabalho manual humano é usado no encontro com o Divino.
Não é totalmente intuitivo que o Divino – cujo nome é Havayah – escolha habitar entre as pessoas, com toda a poluição ritual que tal habitação implicaria.
“Assim ele (Arão) purificará o Santuário da impureza e da transgressão dos israelitas, quaisquer que sejam seus pecados; e fará o mesmo com a Tenda do Encontro, que permanece com eles no meio de sua impureza.”
(Vaycra/Levítico 16:16)
É ainda mais contra-intuitivo que a Divindade habitasse em uma estrutura feita pelo homem e usasse móveis feitos pelo homem, como uma mesa, a menorá ou a arca. Existem regras para preparar tal morada? Esse tipo de empreitada requer materiais especiais? Ferramentas especiais? Modos de produção? Várias passagens em Shemot fornecem várias respostas a essas perguntas.
A nossa parashá está apenas começando! Faça a leitura completa da porção, clicando em Shemot 25:2—27:19
A parashá Terumah começa assim:
“E falou Havayah para Moshê dizendo: Fala aos filhos de Israel que me tragam uma contribuição, de todo homem cujo coração o move a dar-te, tomará a minha contribuição.”(25:1-2)
Este é o Criador do Universo, o Todo Poderoso falando aos filhos de Israel, que deixaram o Egito e foram libertados da escravidão poucos meses antes. Eles não cultivaram um campo, nem plantaram uma árvore, nem construíram uma casa. Eles cruzaram o Mar “Vermelho” em terra seca sem levantar um dedo por si mesmos. De repente, o Eterno ordena a Moisés que diga aos filhos de Israel para trazerem a ele (D’us) uma contribuição. Desta vez, não é uma “oferta” de um animal no altar. O tipo de “oferta” que os filhos de Israel precisam levar ao Eterno é chamada de Terumah (contribuição), especificado nos versículos seguintes (3—7). O termo “Terumah” (תרומה) significa “contribuição”. Neste contexto, refere-se às contribuições voluntárias que os israelitas devem fazer para a construção do Mishkan – Tabernáculo. D’us instruiu Moisés a convidar o povo a trazer materiais específicos, como: ouro, prata, cobre entre outros…
Terumah é uma contribuição específica, todavia deve ser feita por livre e espontânea vontade daquele que deseja, em seu coração contribuir. Por exemplo:
Chá de panela — O chá de panela ou chá de cozinha é um evento pré-casamento bastante tradicional no Brasil. É uma oportunidade dos noivos se reunirem com pessoas queridas para comemorar este momento especial e ainda receberem presentes úteis para a casa nova. No evento, os noivos oferecem comidas e bebidas aos convidados, além disso, é um momento de confraternização, que envolve brincadeiras, boas conversas, registros em fotografias ou vídeos e muita música. No chá de panela, os noivos definem uma lista de presentes que eles necessitam para a casa nova. A lista incluem: ítens para sala, quanto, banheiro, cozinha, lavanderia entre outros. Os convidados não são obrigados a contribuir. Todavia, se por livre e espontânea vontade quiserem, devem contribuir de acordo com os itens que estão na lista.
Seja espontâneo – Contribua de coração
A frase no início da Parashá (25:2),“…cujo coração o move a dar-te,…” é a ideia exata usada na segunda carta de Shau’l (Paulo) aos Coríntios:
“Portanto, cada um contribua conforme propôs no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Dus ama quem dá com alegria.”
(2 Coríntios 9:7)
Shau’l (Paulo) não está conectando a doação à congregação com o dízimo que era para os levitas e os sacerdotes que estão servindo no Tabernáculo. Fazer isso seria uma justificativa da teologia da substituição – que é a maior mentira e está em oposição direta às escrituras tanto no “antigo testamento” quanto no “novo testamento”. O apóstolo Shau’l está incitando os discípulos de Yeshua em Corinto a doar em uma base totalmente diferente.
Terumah não é o dízimo que era para os levitas e os sacerdotes, esta é uma contribuição especial para a construção do Tabernáculo no deserto. Este é o começo de algo totalmente novo na história da fé dos filhos de Israel. Abraão, Isaque e Jacó, os pais da nossa fé, não tinham um lugar santo nem tinham um “templo” de qualquer tipo. Eles adoravam a D’us em qualquer lugar e em todos os lugares. Eles construíram altares e fizeram ofertas de animais a qualquer hora e em todos os lugares.
Não havia nenhum “estabelecimento” religioso para administrar seu relacionamento com o Todo-Poderoso. As únicas pessoas que tinham templos para seus deuses eram as nações adoradoras de ídolos. Os filhos de Israel tinham acabado de sair do Egito. O Egito estava cheio dos mais magníficos templos para seus deuses. Havia muitos deuses no Egito, e cada um deles tinha seus templos e adoração particulares. Alguns desses templos, até mesmo alguns com vestígios da época de Moisés, ainda estão de pé e ainda são magníficos.
Agora, no deserto do Sinai, todo Israel está vivendo em tendas, eles se movem de acordo com o sinal do Eterno – de dia uma nuvem e de noite um fogo. Não há nada definido em pedra além dos Dez Mandamentos. Tudo é improvisado e temporário. E agora vem uma ordem do Senhor D’us de Israel a Moisés: peça ao povo que traga uma contribuição (Terumah), desses materiais preciosos, para que eu possa ter um lugar dentro deles – no meio deles.
Morada de D’us
Aqui está o versículo que é a chave para muitos dos ensinamentos mais maravilhosos e “complicados” de toda a Bíblia:
“E farão para mim um Santuário, (v’Shachanti b’Tocham) e habitarei dentro deles”(25:8)
O hebraico é difícil de traduzir corretamente. Uma tradução literal seria: “E farão para mim um lugar separado, e eu habitarei dentro deles”. Os tradutores cristãos não conseguiram entender o ponto. Eles estão acostumados com prédios de igrejas, templos e catedrais – a casa de D’us é o próprio prédio. Os profetas de Israel entenderam mais tarde o que D’us realmente quis dizer com essa promessa. Foi assim que os profetas e os apóstolos de Yeshua entenderam o papel do Tabernáculo que Moisés e Arão construíram no deserto do Sinai:
“E que consenso tem o templo de D’us com os ídolos? Pois vocês são o templo do Deus vivo, como Deus disse: ‘Habitarei neles e andarei entre eles. Eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.’”(2 Coríntios 6:16)
Na segunda parte deste versículo, Shau’l (Paulo) está fundindo dois textos: Levítico 26:12 e Ezequiel 37:27 (o texto da visão do vale dos ossos secos que ganham vida).
“Andarei entre vocês e serei o seu D’us, e vocês serão o meu povo.”(Levítico 26:12) “Meu tabernáculo também estará neles; e eu serei o seu D’us, e eles serão o meu povo.”(Ezequiel 37:27)
O Rei Salomão, que construiu o primeiro Templo feito de pedra em Jerusalém, dedicou o Templo. E é isso que ele diz sobre essa questão:
“Mas, de fato, habitaria D’us na terra? Eis que o céu e o céu dos céus não te podem conter. Quanto menos este templo que edifiquei!”(1 Reis 8:27)
Ao ver as palavras do Rei Salomão e os textos seguintes, entendemos que o verdadeiro propósito do Eterno era habitar no povo.
“E habitarei no meio dos filhos de Israel, e não desampararei o meu povo Israel.”(1 Reis 6:13)
“Cante e regozije-se, ó filha de Sião! Pois eis que venho e habitarei no meio de você [dentro de você], diz o Eterno”(Zacarias 2:10)
A Escritura diz que nós somos o templo do Espírito do Santo D’us. Isso significa que a sua “essência” habita em nós. Para entendermos corretamente o significado de ser o templo do Espírito do Santo, precisamos considerar alguns pontos importantes. A verdade de que somos o templo do Espírito do Santo D’us aponta primeiramente para a forma com que D’us manifestava a sua presença na primeira aliança. D’us era adorado no Tabernáculo construído primeiramente no deserto e, mais tarde, no Templo construído em Jerusalém durante o reinado do rei Salomão. O Templo era o local onde o Nome inefável de D’us habitava, no sentido de que sua presença se manifestava de tal forma que todo o Templo enchia-se com a nuvem de sua glória (1 Reis 8:10-11). Na aliança renovada, entendemos assim como os apóstolos, que a presença de D’us habita em seu próprio povo.
Ao nos tornarmos templos vivos do Santo Bendito Seja Ele, começamos a experimentar uma transformação interna que reverbera em todos os aspectos de nossa vida. A presença do Espírito do Santo nos guia, oferecendo sabedoria e conforto em momentos de dificuldade, e nos impulsiona a buscar uma vida de maior significado e propósito. Essa experiência não apenas molda nosso caráter, mas também nos capacita a viver de maneira que honre a D’us, observando e guardando os seus Mandamentos.
Além de nossa transformação espiritual, ser templo do Espírito de D’us também nos chama a cuidar – exatamente – do nosso corpo físico. Nosso corpo é a morada do Espírito do Santo, e cuidar dele é uma forma de honrar essa presença divina. Um dos aspectos da mordomia cristã é a consciência de que somos templos de D’us. Mas existem atitudes que violam este templo e impedem O Espírito do Santo de habitar em nós.
“Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de D’us, e que não sois de vós mesmos?” (1 Coríntios 6:19)
O que vou abordar aqui são (pelo menos) duas formas de violar este templo e que, ao fazê-lo, impedimos a ação de D’us em nosso corpo e abrimos as portas para que Satan o “possua”.
“Se alguém destruir o templo de D’us, D’us o destruirá; porque o templo de D’us é que sois vós, é santo”.(1 Coríntios 3:17)
Fornicação – Promiscuidade sexual
“Fugi da fornicação. Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo.”(1 Coríntios 6:18)
O primeiro pecado que viola o templo de D’us é a fornicação. O ato de praticar sexo fora do matrimônio, seja adultério (quando se é casado) ou a fornicação, que é o sexo sem o compromisso matrimonial, constituem-se um grave pecado. Para D’us, o sexo é um ato de comprometimento, como diz o texto: “Ou não sabeis que o que se ajunta com a meretriz, faz-se um corpo com ela?Porque diz, serão dois uma só carne”. (1 Coríntios 6:16).
No talmud, os sábios admitem que um judeu possa sofrer o martírio (aceitar ser morto), caso seja obrigado a optar entre a morte e uma entre três opções: promiscuidade sexual, homicídio ou idolatria. É preferível morrer do que assassinar um ser inocente, cometer promiscuidade sexual ou adorar ídolos (Sanhedrin 74 a).
Promiscuidade sexual é qualquer relação ilícita.
Alimentos não kasher – inapropriados
Um dos temas mais ignorados pelos cristãos modernos, é a questão da Kashrut, que podemos chamar de “dieta da Bíblia”. Ela representa o encontro do corpo e da alma. A Torah nos diz para não rejeitarmos o físico, e sim santifica-lo. Comida kasher é a dieta da nutrição espiritual para a nossa alma. Isso é designado para trazer refinamento e purificação também ao nosso corpo.
Ensinam os sábios do povo judeu que, de forma geral somos aquilo que comemos. Sabemos que os alimentos que ingerimos são absorvidos por nossa carne e sangue. Alimentos proibidos são mencionados na Torah como abominações à alma Divina, elementos que aviltam nossa sensibilidade espiritual. Para um judeu, toda comida não-kasher diminui a sensibilidade espiritual, reduzindo a habilidade de absorver conceitos da Torah e Mandamentos. Tanto a mente quanto o coração são afetados. É fácil entender por que a kashrut é freqüentemente considerada o Mandamento de mais longo alcance. A história demonstra que quando a observância de kashrut é forte, a identidade do povo de D’us permanece forte.
Carnes que D’us considerou imundas estão no topo da lista. Não se admire que um dos principais itens de rituais de blasfêmia é a carne de porco, animal considerado imundo por D’us (Veja Levítico 11). O profeta Isaías é enfático ao dizer que os que comem carne de porco não herdarão a terra prometida. “Os que se santificam, e se purificam, nos jardins uns após outros; os que comem carne de porco, e a abominação, e o rato, juntamente serão consumidos, diz o Eterno”(Isaías 66:17)
Saiba mais sobre Kashrut e a alma clicando aqui
“…Cada um de nós precisa construir um Tabernáculo para D’us no recesso de nossos corações, preparando-se para se tornar um Santuário para D’us e um lugar para a habitação da glória de D’us…”(Malbim Parashat Terumah)
O que quer que dermos, nossa terumah se torna o espaço compartilhado onde o espírito do Divino pode habitar dentro de nós. Esses presentes são os lindos fios de linho e carmesim, as especiarias, as pedras preciosas e os óleos, nossas canções oferecidas em voz alta ou baixa, nossas lágrimas, nossas esperanças, nossos sonhos, aqueles despedaçados e ainda por vir, e o anseio dentro de nossos corações. Tudo isso, junto, é nossa própria oferta única, o presente de nossos corações (asher yidvenu libo), que é transformado em um mikdash, um espaço sagrado. Criamos esse espaço dentro de nós mesmos para que o Divino possa habitar dentro de nós e trazer os presentes da divindade.
Abençoado Seja O Eterno


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