Parashat Shof’tim

Parashat Shof’tim (Juízes)

Introdução

Chegamos a Parashat Shoftim (Juízes), a quadragésima oitava porção da Torah que corresponde ao livro de D’varim/Deuteronômio (16:18-21:9).

A Parashat Shoftim retrata principalmente a administração da justiça, onde juízes e oficiais deveriam ser apontados dentre as tribos e procedimentos judiciais estabelecidos para que Israel trilhasse o caminho que os tornassem “uma nação de sacerdotes e um povo santo”(Shemot/Ex 19:6), sendo que a justiça é o ingrediente essencial para se atingir este objetivo, e Israel é alertado no sentido de “a justiça, e somente a justiça seguirás” (D’varim/Dt 16:20). A formação de uma corte de julgamento, (Bet Din) é o primeiro mandamento encontrado nesta parashá, sendo que toda cidade deveria ter uma independente se teriam 3, 23 ou 71 juízes.

Nessa parashá, o mandamento de se ter um rei para o Povo Judeu na terra de Israel foi então explicada: Moshê fala quais as funções do rei, suas obrigações e proibições, então, a classe sacerdotal foi abordada especificando as funções e direitos tanto dos Cohanim (Sacerdotes) como dos Levitas, e o mais especial dos consagrados também foi elencado a saber um profeta, o que se deveria fazer para se aceitar a um ou punir outro por blasfêmia e enganação.

A parashá também específica a instituição de cidades de refúgio (Arei Miklat): quando uma pessoa poderia se refugiar lá e as conseqüências por sair do refugio antes do tempo… e o que fazer com o assassino. A importância de se preservar os limites das propriedades e a validade das testemunhas são abordados nessa parashá.

Assim começa a parashá:

שפטים ושטרים תתן לך בכל שעריך אשר יהוה אלהיך נתן לך לשבטיך ושפטו את העם משפט צדק

Shof’tim (juízes) e Shot’rim (oficiais) darás (nomearás) para vocês em todos os seus portões (cidades) de vocês que Adonay Elohim de vocês dar para vocês, para as tribos de vocês, e (eles) julgarão o povo com juízo justo (justiça).(D’varim 16:18)

As primeiras palavras dessa parashá são lidas literalmente: darás… juízes. A primeira pergunta que qualquer israelita poderia ter feito é; Quem dará esses juízes ? A resposta é, o povo. Sistemas tribais empregam anciãos como representantes do povo. Esses anciãos nomeava os juízes. É possível que os juízes foram determinados pelos anciãos.

Curiosidade da palavra ancião: Ancião ou idoso em hebraico é “Zaken(זקן). Esse termo foi traduzido para o grego como “presbyteros” (πρεσβύτερος).

Presbitero não é um título, um cargo eclesiásticos como pensam no mundo cristão.

Shof’tim (Juízes)

A palavra hebraica para o juiz é Shofet (שופט). Pouco depois que Israel conquistou Canaã, a história introduz a era de 250 anos dos juízes que governaram Israel. Mas em D’varim é onde o oficio de Shofet (Juiz) é realmente estabelecido. Cada tribo tinha seu próprio conjunto de Shof’tim – juízes e oficiais. Enquanto Israel se tornava um sistema cada vez mais descentralizado de Governo em Canaã, Adonay ainda espera que cada tribo funcionasse sob o mesmo conjunto comum de princípios: a Lei, a Sua Torah. Este princípio é afirmado no final do versículo: esses juízes e oficiais são para governar com julgamento justo; em Hebraico Mishpat Tzedek.

A parashá segue, agora explicando fundamentos de Mishpat Tzadek aos olhos de D’us:

לא תטה משפט לא תכיר פנים ולא תקח שחד–כי השחד יעור עיני חכמים ויסלף דברי צדיקם

Não estenda o juízo, não modele faces e não pegue recompensa, porque a recompensa cega os olhos dos sábios e derruba as palavras dos justos.(D’varim 16:19)

Os juízes deveriam julgar, governar o povo conforme as determinações da Torah. Eles eram considerados como autoridades quando a usavam legitimamente. Isso significa que sua autoridade provinha de algum lugar: a Torah. Vamos analisar o versículo.

Lo tateh – (לא תטה): Essa frase é geralmente traduzida como “não perverta”. Mas o que seria perveter o juízo/julgamento ? Ora, o próprio texto já não explica, quando diz para não fazer acepção de pessoas e não aceitar suborno ? Sim, o texto explica. Então o que significa de fato a expressão “lo tateh”? Optamos por verter essa expressão (lo tateh) por “não estenda”, também poderia ser “não estique”. Como sempre gosto de salientar: o hebraico sempre usa elemento concreto para expressar o abstrato. Aqui é um exemplo disso. Vamos aos exemplos:

1° exemplo: Força elástica

A força elástica (Fel) é a força exercida sobre um corpo que possui elasticidade, por exemplo, uma mola, borracha ou elástico. Essa força determina, portanto, a deformação desse corpo quando ele se estica. Como exemplo, pensemos numa mola presa num suporte. Se não houver uma força atuante sobre ela, dizemos que ela está em repouso. Por sua vez, quando esticamos essa mola, ela criará uma força em sentido contrário, distanciando as suas extremidades. Note que a deformação sofrida pela mola é diretamente proporcional à intensidade da força aplicada. Sendo assim, quanto maior for a força aplicada, maior será a deformação e distanciamento da mola. Vamos a segundo exemplo para entendermos melhor.

2° exemplo: Estender o prazo

O atraso na logística (entrega) é um dos maiores riscos para uma empresa de transporte de cargas, pois pode gerar diversos problemas, desde prejuízos financeiros até danos à imagem da empresa. Atrasos frequentes podem levar à insatisfação dos clientes, perda de contratos (vendas) e até mesmo processos judiciais. Além disso, o acúmulo de cargas atrasadas pode sobrecarregar a logística da empresa e afetar a eficiência dos processos de transporte, levando a atrasos ainda maiores e a possíveis cancelamentos de contratos. Por isso, é fundamental que as empresas de transporte de cargas estejam sempre atentas aos prazos de entrega e tomem medidas para evitar atrasos e garantir a satisfação dos clientes.

Quando eu atuava nessa área como supervisor da logística era necessário as vezes estender o prazo para entrega de algumas mercadorias. Claro que isso era feito em comum acordo com o cliente. Uma planilha de roteirização era fixada aos dias úteis da semana. Quando um cliente nosso desejava comprar um produto e não tínhamos em estoque suficiente para atender a necessidade do comprador, resolvimaos da seguinte maneira: Duas opções eram apresentadas aos nossos clientes. A primeira: Era oferecido outro produto que tínhamos em estoque e que atendence a necessidade dos nossos clientes. A segunda: Era sugerido aos nossos clientes um prazo maior para a entrega quando o status do produto estava em rota, ou seja, estávamos aguardando para completar o estoque. Resumindo, isso significa (na logística) estender a entrega, ou seja, demorar um pouco a mais do que estava na nossa planilha de roteirização. Sendo assim, lo tateh significa literalmente não estenda. Mas em sentido figurado ou abstrato significa: Não se distancie, não demore, não atrase, não recuse. O juíz não pode esticar a mola e não pode estender a entrega. Partindo desse pressuposto, assim fica o início do versículo:

Lo tatehNão demore, não atrase, não recuse o julgamento (fazer justiça justa).

O nosso Amado e Bom Mestre Yeshua, conta uma parábola sobre um shofet (juíz) que agia dessa forma.

O shofet (juíz) perverso

Ele (Yeshua) também lhes contou uma parábola, para que orassem sempre e não se cansasse. Havia em certa cidade um juiz que não temia a D’us e não respeitava os homens. Havia naquela cidade uma certa viúva que foi ter com ele, dizendo: Eu exigo! faça-me justiça contra o meu senhor (adversário). E ele não quis, por um longo tempo: mas depois, ele disse a si mesmo: Embora eu não tema a D’us, e não respeite os homens, Contudo, como esta viúva me incomoda, eu lhe farei justiça, para que ela não venha me importunar continuamente. Então nosso Senhor disse: Ouçam o que o juiz injusto disse. E D’us não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele dia e noite, ainda que ele seja longânimo para com eles? Eu vos digo, Ele os reivindicará rapidamente. Contudo, o Filho do homem virá; e encontrará fidelidade na terra?(Lucas 18:1-8)

Na parábola contada por Yeshua, a viúva tinha um senhor (opositor) que de alguma forma estava agindo com injustiça contra ela. As viúvas naquela época facilmente passavam necessidades, principalmente quando herdavam dividas de seus maridos falecidos, talvez fosse esse o motivo. Todavia não é possível afirmar qual era a verdadeira situação daquela viúva. Não sabemos se ela era jovem ou idosa, se era rica ou pobre; nem mesmo sabemos a causa de seu litígio. Simplesmente tais detalhes são indiferentes à narrativa de Lucas. Por outro lado, na cidade em que a viúva vivia havia um juiz. Yeshua o descreve como sendo um homem contrário a D’us e que também não tinha qualquer respeito pelas pessoas. Essa descrição sem dúvida enfatiza que aquele juiz era alguém egoísta e desprezível. Quando Yeshua diz que aquele juiz não tinha qualquer reverência para com D’us, isso significa que o juiz iníquo não se preocupava em fazer o que era moralmente certo. Com a informação de que ele não respeitava as pessoas, também concluímos que ele não dava importância para a opinião de ninguém.

Yeshua conta que a viúva procurou diretamente o juiz para que sua causa fosse resolvida. Em casos assim, a viúva passava a ocupar o lugar do marido falecido, tendo então os mesmos direitos de um homem no Beit Din (Casa do julgamento). Na parábola Yeshua não indica que o adversário da viúva comparecia regularmente ao tribunal. A viúva, por sua vez, constantemente procurava o juiz pedindo que ele julgasse sua causa. O comportamento do juiz foi completamente condizente ao seu perfil perverso. Durante um tempo ele se recusou (tateh) a fazer qualquer coisa a favor da viúva, até que depois de muita insistência ele resolveu julgar a sua causa. Ele queria apenas ficar livre daquela importunação. A forma com que o texto bíblico descreve a intenção do juiz, indica que ele não agiu pelo senso de justiça, e, muito menos, pela compaixão. Em sua própria fala ele declara explicitamente não temer a D’us e nem se importar com os homens. Ele julgou a causa da viúva para não ser mais incomodado.

Devido Lucas narrar que Yeshua contou uma parábola, para que orassem sempre e não se cansasse. Criou-se em torno dela, uma narrativa incompleta, onde é visto apenas um lado, uma lição: os filhos de D’us devem orar constantemente, de modo perseverante e sem esmorecer, mesmo que sejam submetidos a uma longa espera. Todavia, a parábola gira em torno de dois temas centrais: a perseverança e principalmente a justiça. Yeshua, o maior e melhor Mestre de Torah, sempre a usou em seus ensinamentos, inclusive nas parábolas. Nessa parábola, Yeshua chama atenção não apenas para a viúva perseverante, mas principalmente para o juíz. Em sua época, ele combateu um sistema religioso corrupto onde as viúvas eram as mais prejudicadas entre a sociedade. Em primeiro lugar, Yeshua faz mais uma vez, uma crítica aos líderes religiosos da época, chamando atenção para o juíz perverso, isso também é evidente em Marcos (12:38-49).

E em seu ensino ele disse a eles: Cuidado com os escribas, que gostam de andar com vestes longas e gostam de ser saudados nas ruas. E os primeiros assentos nas sinagogas, e os lugares principais nos banquetes; Aqueles que devoram as casas (se apropriam dos bens) das viúvas e, para a ocasião, prolongam suas orações: eles receberão o julgamento maior.

Alguns líderes religiosos da época, eram beneficiados pelas “pobres” viúvas, que os consideravam homens justos. Eles as visitavam conforme o mandamento, porém, com uma única intenção: se apropriarem dos seus bens. Para parecerem justos eles faziam longas tefilot (orações), ganhando assim, a admiração delas. Infelizmente, essa prática perpetua até os dias de hoje. Yeshua mostra, usando essa parábola, que os líderes religiosos de sua época não estavam agindo em conformidade com a Torah. Como já foi dito: as viúvas eram desprezadas por esses amantes dos seus próprios ventres, ou amantes de si mesmo.

Querido(a) leitor, você está agindo em conformidade com a Torah ? Você tem agido com justiça ?

Pois o trabalho (adoração) que é puro e verdadeiro diante de D’us, o Pai, é este: visitar (Cuidar/prover) os órfãos e as viúvas nas suas aflições, e que o homem se guarde do mundo sem mácula.(Ya’akov/Tiago 1:27)

Voltando ao versículo da parashá, Moshê orienta os juízes para não modelar (reconhecer) faces, em hebraico: “lo takir panim” (לא תכיר פנים). Os Shof’tim (juízes) devem comportar-se como se não conhecessem as partes envolvidas em julgamento, ou seja, não dar prioridade ao lado que conhecem. Em particular, uma pessoa cujo rosto é conhecido não deve ser tratada de forma diferente de uma pessoa cujo rosto é desconhecido; e a referência não é apenas ao veredito, mas também ao procedimento legal. A proibição “Não conhecerás um rosto no tribunal” também se refere à comissão que nomeia os juízes, que deve nomear juízes com base em considerações substantivas e não com base em ligações pessoais:

“Para que não digas: ‘Fulano é bonito, sentaremos com você, ”Oshibanu Dayan” e se descobrirá que o devedor é culpado e aquele que tem direito – não porque ele seja mau, mas porque ele não sabe disso”(Rambam leis do Sanhedrin 3)

O profeta Yeshayahu (Isaías) repreendeu os juízes do seu tempo por não cumprirem este mandamento, e até fizeram do reconhecimento facial uma norma aceitável:

O reconhecimento das suas faces “hakirt panichem”(הכרת פניהם) testificou contra eles, e o seu pecado, como o de Sodoma, eles o anunciaram, mas não o negaram; ai da sua alma, porque se pagaram com o mal.(Isaías 3:9).

O profeta Isaías fala de uma situação em que o reconhecimento facial se tornou uma norma aceitável, os líderes declararam isso sem vergonha. Sobre esse versículo, Rashi (Um dos maiores sábios do judaísmo) comenta: “O pecado de que eles reconhecem rostos [isto é, mostram favoritismo] em julgamento testificou contra eles diante de Mim”.

O que o texto está ensinando que não devemos fazer acepção (escolher ou rejeitar) de pessoas.

Os sinais de hipocrisia e bajulação evidentes no rosto testemunharão o que está no fundo de seus corações por falsidade e bajulação.

Sábio Malbim, 1809-1879

Lo tikach shochad (לא תקח שחד), não pegue (aceite) recompensa (suborno). A Torah ordena que é proibido para um juiz aceitar qualquer suborno, como explica o versículo: “O suborno cega os olhos do sábio e derruba as palavras do justo”. Rashi comenta ainda que esta injunção aplica-se a todos os casos a qualquer tempo, mesmo se o juiz ainda planeja julgar o caso corretamente. Tal lei, entretanto, parece difícil de entender, pois se uma pessoa tem certeza absoluta de que o suborno que está aceitando não terá efeito adverso algum sobre seu julgamento, então por que não lhe seria permitido aceitar um presente de um litigante? O que está errado em receber algum dinheiro “por fora”?

Para responder a isso, o Talmud (Tratado Ketubot 105b) oferece uma profunda introvisão na psicologia humana. Nossos Sábios ensinam que assim que a pessoa aceita um suborno, sua opinião automaticamente inclina-se a favor do argumento daquele litigante, a tal ponto que torna-se praticamente impossível permanecer emocionalmente isento. Com efeito, o juiz e o litigante tornam-se uma só pessoa, pois seu raciocínio e opiniões estão intrinsecamente ligados. De repente, o juiz fica incapaz de ouvir o outro lado da questão, pois tornou-se pessoalmente envolvido no caso. Como resultado, mesmo se o juiz pretende realmente decidir de forma correta, pois é incapaz de enxergar a si mesmo como culpado, achará muito mais difícil decidir contra a pessoa que pagou-lhe o suborno. O juiz tornou-se cego. (Fonte: Chabad)

(Saiba mais em: suborno é crime)

Aqui eu abro um parêntese para para reforçar o conceito de Tsedaká segundo o Hebraico Bíblico. A palavra hebraica para caridade é Tsedaká, que na verdade significa “justiça” ou “honestidade”. Há uma importante nuance aqui. Na filosofia judaica, dar para as pessoas necessitadas não é algo extra; é simplesmente o correto, a coisa honesta a fazer. Nosso dinheiro não é nosso. Pertence a D’us, que graciosamente o confiou a nós. É correto para nós distribuí-lo como Ele deseja, partilhando com Seus filhos necessitados.

Em uma publicação do chabad encontrei a seguinte explicação: “A Tsedaká pode ser dinheiro, bens ou qualquer outra forma de “ajuda”. Está com pouco dinheiro? Prepare uma refeição para um vizinho idoso, visite algum doente, ou se ofereça como voluntário na escola de seu filho. Os sábios nos ensinam que até uma pessoa pobre que subsiste com a “caridade” dos outros deveria realizar atos de “caridade”. Cada um de nós tem algo para contribuir com os outros: tempo, experiência, atenção, ou até um simples sorriso”.

Cuidado com a famosa frase: “fico te devendo uma” ou “você me deve uma”. Geralmente, quando fazemos ou recebemos “favor” para/de alguém, nos sentimos na obrigação de retribuir o mesmo. Como já expliquei o significado da palavra hebraica Tsedaká, nós realmente temos a obrigação de ajudar o próximo, não se primeiro formos ajudados por ele. Infelizmente existem pessoas que só “ajudam” com a intenção de receber algo em troca. Esse tipo de ajuda não é Tsedaká, ou seja, justiça. Você conhece a frase (fulano tem o rabo preso) ? Ela pode ser aplicada a ideia de favor. Exemplo simples:

-Pedro estava na estrada com o pneu do carro furado. João ia passando na hora e o ajudou trocando o pneu com o auxílio do seu macaco (ferramenta usada por mecânico para suspender). Passados alguns dias, o João precisou de 100,00 reais para um determinado ofício, porém ele não tinha. Foi aí que ele lembrou do Pedro e pensou consigo mesmo: “Há, já sei. O Pedro me deve uma.” Ele procurou o Pedro e pediu os 100,00 reais emprestado. Todavia, infelizmente o Pedro não tinha os 100,00 reais para emprestar. No entanto ofereceu ajuda de outra forma, porém João não aceitou. De volta para casa, João resmungava: “Há filho da peste, me deve favor e não quis me ajudar. Besta foi eu que ajudei a ele.” Moral da história: João fez Tsedaká? Não, porque no momento em que o Pedro não pode lhe ajudar com os 100,00 reais, o João ficou decepcionado. Eu sei que isso parece estranho para nós que já estamos acostumados com esse tal de favor. Todavia, lembre-se que a realidade de D’us não é a nossa.

Shot’rim (Oficiais)

Shot’rim (שטרים) é o plural de Shoter (שטר), que pode ser traduzido como oficial ou policial. Os oficiais, nesse contexto são aqueles que executam as ordens do Shofet (juiz). Sem eles o juiz não poderia fazer executar as suas ordens, e no caso não teria como controlar quem obedecia e quem não obedecia a Torah. Os oficiais ou a polícia não funciona bem sem os juízes porque precisam saber quais ordens devem executar. Por isso, o texto menciona esses dois tipos de funcionários ou de servos, e eles devem trabalhar paralelamente para que a sociedade seja beneficiada. E com isso, podemos perceber que o objetivo do Eterno através das palavras de seu servo Moshê, sempre foi o de instruir a sociedade para que vivessem de forma digna e justa. Shoter (שטר) também significa: mandado, promissória, nota fiscal, documento. Deve ser por isso que a pessoa que leva uma intimação para alguém, é chamado de oficial de justiça.

Os Shof’tim e os Shot’rim (juízes e oficiais) deveriam agir de acordo com a Torah, veja a imagem abaixo:

Imagem do canal Teshuvah Total

A gematria final da frase “Shof’tim v’sot’rim (שפטים ושטרים) juízes e oficiais é 5, exatamente o número de livros da Torah.

Melech (Rei)

Feche seus olhos e por alguns segundos imagine a figura de um Rei…

Foi assim 👇 que você imaginou o rei ?

Não vivemos em uma monarquia, mas arrisco-me a dizer que você não teve problemas em evocar a imagem de um rei. Talvez ele usasse vestes reais de veludo vermelho e dourado. Talvez ele estivesse sentado em um trono. Talvez ele segurasse um cetro. Mas duvido muito que seu rei imaginário estivesse carregando um rolo da Torah.

No entanto, é isso que a parashá dessa semana nos diz. O povo deveria entrar na terra, possuí-la e se estabelecer. Eles “deveriam” nomear para si um rei. E além de não acumular um excesso de prata, ouro ou esposas, o rei deveria ter sua própria cópia do rolo da Torah. Ele deveria estuda-la, aprender com ela e tê-la consigo o tempo todo.

“Se, depois de teres entrado na terra que o teu D’us, יהוה, te designou, e dela tiveres tomado posse e nela te tiveres estabelecido, e decidires: Porei sobre mim um rei, como fazem todas as nações ao meu redor, você será livre para estabelecer um rei sobre si mesmo, um escolhido por seu D’us יהוה . Certifique-se de estabelecer como rei sobre si mesmo um de seu próprio povo; você não deve estabelecer um estrangeiro sobre você, alguém que não seja seu parente.”(D’varim 17:14-15)

O texto da Torá comenta sobre os tempos em que o povo pedirá um rei, como todos os demais povos, mas esse rei terá leis muito específicas de vida e comportamento pessoal entre outras coisas.

“E não terá muitas mulheres, para que o seu coração não se desvie; nem amontoará prata e ouro em excesso.”(17)

Nem sempre os reis do povo de Israel seguiram ao pé da letra esses conselhos, muitos o fizeram, e muitos não.

“Quando ele estiver sentado em seu trono real, ele terá uma cópia deste Ensinamento escrita para ele num rolo pelos
sacerdotes levitas.”
(18)

O que significa isso ? Muito simples. O rei pedirá que se escreva para ele dois rolos da Torah, um para seu palácio, que deve permanecer com ele sempre, e outro quando sai ao caminho, sempre terá que levar essas palavras para não esquece-las nunca. Quando for a um julgamento, ao tribunal, deve levar com ele, ou então na guerra, sempre. Até quando dorme, deve estar com ele. Para que assim aprenda a amar D’us todos os dias de sua vida e a seguir um caminho de justiça e igualdade. Daí deduzem os sábios que somente o estudo pode levar a esse caminho. Sem estudo somente há ignorância e a ignorância conhecemos muito bem as consequências que tem. Mais ainda se os ignorantes são os que decidem nossos destinos para nossos povos.

Dez (10) Mandamentos para os reis de Israel

1° Mandamento – O rei será escolhido por Adonay; 2° Mandamento – O será um Israelita, nunca um estrangeiro; 3° Mandamento – O rei não deverá adquirir muitos cavalos para si; 4° Mandamento – O rei não deverá fazer o povo voltar para o Egito; 5° Mandamento – O rei não deverá ter muitas mulheres; 6° Mandamento – O rei não deverá ter muita quantidade de ouro e prata; 7° Mandamento – O rei deverá fazer para sim uma cópia da Torah; 8° Mandamento – O rei deverá ter a Torah com ele todos os dias; 9° Mandamento – O rei deverá meditar na Torah todos os dias; 10° Mandamento – O rei não se considerará melhor do que qualquer um de seu povo.

O perigo da assimilação

Ao pedir um rei sobre si, o povo externou o desejo de assimilação com as nações vizinhas.

O que é “assimilação”? Esta palavra pode ser assim definida: Assimilação é um metaplasmo (mudança) que consiste ou na aproximação ou na perfeita identidade; isso pode acontecer com indivíduos ou entre dois fonemas, como ocorreu, por exemplo, na evolução da palavra latina “persicum” (de Mela Persicum, literalmente “Maçã da Pérsia”) para o português “pêssego”.

A assimilação judaica é um fenômeno que pode ocorrer quando um judeu se perde de seus laços e tradições, tornando-se mais vulnerável a ser absorvido por outra cultura. Na prática, é o esforço consciente de uma pessoa em ser igual ao seu meio, por causa disso a cada ano o povo judeu perde milhares de pessoas; “um derramamento nacional de sangue”. (Rabino Yechezkel Sofer)

Segundo o rabino os culpados são os pais e a educação descompromissada com o judaísmo que transmitem a seus filhos. “Tentando dar uma educação moderna, onde o individualismo impera, os pais esquecem de transmitir valores judaicos, que além de privilegiar o nacional, a comunidade como um todo, trazem uma ética, uma moral como modo de vida.” Acabam buscando com grande ânsia os valores materiais, os prazeres imediatos como forma de vida, destaca o rabino.

“Tudo isso é um engano, a vida ultrapassa estes valores, a sua verdadeira essência está sendo esquecida, o judaísmo, o lado espiritual”.(Chabad)

“O perigo para a vida judaica e a existência nos países livres, especialmente nos Estados Unidos, não é da exterminação física, D’us não o permita, por um outro Hitler ou Eichman, mas sim um perigo não menos destrutivo, o risco da assimilação”.

Trecho da carta do Rebe – 12 de Marcheshvan, 5722 (1961)

(Carta completa do Rebe aqui)

O Rabino Shau’l (Paulo) nos adverte com as seguintes recomendações: “Não imitem o modo de vida deste mundo, mas transformem-se pela renovação das suas mentes, para que possam discernir qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de D’us” (Romanos 12:2)

Em poucas palavras, Shau’l Ha’shaliach (apóstolo Paulo) revela a essência de um verdadeiro seguidor de Yeshua: alguém que, ao rejeitar a assimilação com o mundo, busca incessantemente conhecer e viver a boa, agradável e perfeita vontade de D’us.

O mundo – se refere à sociedade humana com seus padrões, suas práticas e suas atitudes. Esse mundo não está de acordo com os padrões e o modo de pensar de D’us. O mundo pressiona as pessoas o tempo todo e acaba moldando o comportamento e a personalidade delas. Quem quer adorar a D’us da maneira correta precisa rejeitar a influência (assimilação) do mundo. Se a pessoa não fizer isso, vai desenvolver características que prejudicam a ela mesma e desagradam a D’us.

Renovação de mente – A pessoa também precisa se esforçar para mudar sua maneira de pensar e seus sentimentos mais profundos, uma transformação completa, como a de uma lagarta em uma borboleta. Um verdadeiro seguidor de Yeshua que teme e adora a D’us tem que desenvolver uma nova personalidade, nascer de novo (água e espírito) como disse Yeshua.

Boa, agradável e perfeita vontade de D’us – O profeta Micha (Miquéias) declara em alto e bom som: “Foi-te dito, ó mortal, o que é bom, e o que D’us quer de você: Fazer justiça, amar a bondade e andar modestamente com o teu D’us”. Andar com D’us é fazer como Avraham avinu (Abraão nosso pai) fez, pois a seu respeito é dito: “Porque Avraham me obedeceu e guardou os Meus mandamentos, as Minhas leis e os Meus ensinamentos (Torah).” Essa é de fato a boa, agradável e perfeita vontade de D’us.

A vários fatores que definem a assimilação, dos quais três são os mais importante:

1° Não guardar o Shabat (Sábado); 2° Não guardar a Kashrut (lei da alimentação apropriada); 3° Não guardar as moedim (encontros marcados com Adonay, ou seja as festas da Torah).

Observação: Sabemos que entre os nossos irmãos em Teshuvá, há quem não consegue (ainda) guardar esses Mandamentos Torah. Isso não pode ser caracterizado como assimilação desde que haja kavaná (intenção) de guardar esses Mandamentos.

Arê Miklat (Cidade de refúgio)

A parashá segue, agora destacamos a necessidade de separar as cidades de refúgio, às quais um homem que tivesse matado involuntariamente poderia fugir, encontrar abrigo e expiar por suas falhas. D’us ordenou a Moshê: “Separe três arê miclat (Cidades de refúgio) a leste do Rio Jordão. Depois que Benê Yisrael cruzar o Jordão, Yehoshua deverá separar outras três em Erets Yisrael.” Se um judeu matar outro sem intenção, acidentalmente, deverá correr em direção de uma ir miclat, (cidade de refúgio). Em seguida, os juízes do Sanhedrin o levam a julgamento e determinam se ele matou intencionalmente (Bemezid) ou por engano (Beshogueg). Se decidirem que o assassinato foi cometido deliberadamente, o assassino não pode retornar a cidade-refúgio. É condenado à morte pelo Bet Din (desde que tenha sido advertido e duas pessoas tenham testemunhado o assassinato).

Entretanto, se os juízes decidirem que o assassinato ocorreu por acidente – por exemplo, a pessoa estava cortando madeira e o ferro do machado voou e matou um circunstante – eles o mandam de volta a ir miclat. Apenas lá ele estará a salvo do goel hadam. O goel hadam (o redentor do sangue) é o parente mais próximo da vítima. Ele tem o direiro de matar o assassino em qualquer local, fora de um ir miclat, mas jamais dentro do ir miclat.

(Cidades de refúgio, saiba mais)

Conclusão

Nessa parashá, aprendemos a importância de praticarmos justiça e buscarmos a mesma. A Torah nos ensina que nada do que temos é de fato nosso, mas de D’us para que possamos praticar boas obras para com o nosso próximo. Vimos o quanto que é importante seguir a justiça, somente a justiça. Vimos também o perigo da assimilação e aprendemos a rejeita-la por meio da transformação da renovação da nossa mente, buscando sempre compreender a boa, agradável e perfeita vontade de D’us. E concluímos com a certeza que D’us é justiça, pois as cidades de refúgios revelam esse atributo, pois as mesmas protegiam o inocente evitando assim, um derramamento desenfreado de sangue.

Abençoado seja O Eterno


Comentários

Uma resposta para “Parashat Shof’tim”

  1. Muito bem explicada essa parashá, que Hashem abençoe.

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