
Shalom…
Chegamos a parashá Ki Tavô (quando entrares), a quinquagésima porção semanal da Torah no ciclo anual judaico da leitura. A nossa parashá corresponde ao Sêfer D’varim 26:1 até 29:8. Nela, abordaremos os seguintes tópicos:
•A oferta da primeira colheita;
•O dízimo trienal;
•O altar de pedras e o memorial da Torah “Lei”;
•Proclamações de bênçãos e maldições.
A nossa parashá tem como cerne: Gratidão
“Mais grato a ti, mais grato a ti mais consagrado, oh faz-me, Senhor! Mais humilhado e cheio de amor, faz-me mais grato a ti, mais grato a ti”
Acima, uma estrofe do hino 370 da harpa cristã. Esse louvor é um dos meus favoritos, muito lindo, doce e suave. Os autores: Adriano Nobre, Samuel Nyström e Paulo Leivas Macalão, expressão GRATIDÃO por tudo quanto o Senhor fez (faz) por eles.
GRATIDÃO, sem dúvida alguma, é uma das palavras mais utilizadas atualmente. Seja nas redes sociais, em vídeos ou no dia a dia, a expressão está mesmo em alta. Mas você sabe mesmo o que é gratidão e como esse “sentimento” pode ser importante para sua saúde física, mental e espiritual? Conheça a gratidão além do modismo!
Existem no mínimo, dois termos hebraico que podemos traduzir como GRATIDÃO: Hakarat hatov e Hodah.
Hakarat hatov, é um termo hebraico que significa “reconhecer o bem“. Um ensinamento fundamental na lei judaica, ele nos desafia a desenvolver uma consciência das bênçãos e dádivas que recebemos diariamente. Elas podem ser grandes e pequenas e também vêm de lugares diferentes. É fácil tomar coisas simples como certas, como acordar de manhã, ter comida para comer ou receber um sorriso de um estranho. Mas hakarat hatov nos encoraja a parar e apreciar esses milagres cotidianos. Hakarat hatov envolve tomar nota conscientemente das coisas boas em nossas vidas, desde as necessidades mais básicas até as pessoas que cuidam de nós. É uma mudança de perspectiva que nos permite ver a bondade sempre presente ao nosso redor a qualquer momento.
Este conceito não visa meramente promover a auto-realização, é também um ato de respeito. As criações milagrosas de D’us são frequentemente desvalorizadas e negligenciadas nas atividades da vida cotidiana. Nosso relacionamento com a emunah (fé) não deve ser apenas por meio de orações e bênçãos, mas também por meio de rituais de adoração. A prática de hakarat hatov é um reconhecimento de que nada nos é devido, e que cada bênção, não importa quão pequena, é um presente.
Modê ani – a primeira oração do dia
Modê ani lêfanêcha, Mélech chai vecayam, shehechezarta bi nishmati bechemlá, rabá emunatêcha.
Sou grato a ti, Rei vivo e eterno, por ter restaurado minha alma dentro de mim com misericórdia. Tua lealdade é grande.
Estas são as primeiras palavras que devemos verbalizar toda manhã – enquanto ainda estamos na cama. Nossos primeiros momentos conscientes são passados agradecendo a D’us pelo dom da vida. Não importa o que fizemos ontem ou na noite passada; nada pode manchar aquelas primeiras palavras inocentes que estão na nossa consciência primitiva.(Chabad)
•A oferta da primeira colheita; (Bikurim)

Neste sentido (Gratidão), nós podemos entender a sequência de nossa leitura da Parashá Ki Tavo. A leitura começa assim:
וְהָיָה כִּי־תָבֹוא אֶל־הָאָרֶץ אֲשֶׁר יְהוָה אֱלֹהֶיךָ נֹתֵן לְךָ נַחֲלָה וִירִשְׁתָּהּ וְיָשַׁבְתָּ בָּהּ׃
E quando vocês entrarem na terra que Adonay, o D’us de vocês, lhes dá como herança, e a possuírem e nela se estabelecerem,
וְלָקַחְתָּ מֵרֵאשִׁית כָּל־פְּרִי הָאֲדָמָה אֲשֶׁר תָּבִיא מֵאַרְצְךָ אֲשֶׁר יְהוָה אֱלֹהֶיךָ נֹתֵן לָךְ וְשַׂמְתָּ בַטֶּנֶא וְהָלַכְתָּ אֶל־הַמָּקֹום אֲשֶׁר יִבְחַר יְהוָה אֱלֹהֶיךָ לְשַׁכֵּן שְׁמֹו שָׁם׃
vocês tomarão de todos os primeiros frutos da terra que vocês colherem da terra que Adonay D’us de vocês, está dando a vocês, e os porão num cesto, e irão ao lugar que Adonay o D’us de vocês, escolher para ali estabelecer o nome divino.
וּבָאתָ אֶל־הַכֹּהֵן אֲשֶׁר יִהְיֶה בַּיָּמִים הָהֵם וְאָמַרְתָּ אֵלָיו הִגַּדְתִּי הַיֹּום לַיהוָה אֱלֹהֶיךָ כִּי־בָאתִי אֶל־הָאָרֶץ אֲשֶׁר נִשְׁבַּע יְהוָה לַאֲבֹתֵינוּ לָתֶת לָנוּ
Você irá ao sacerdote responsável naquele tempo e lhe dirá: “Eu reconheço hoje diante de Adonay , D’us de vocês, que entrei na terra que Adonay jurou aos nossos pais que nos daria”.
וְלָקַח הַכֹּהֵן הַטֶּנֶא מִיָּדֶךָ וְהִנִּיחֹו לִפְנֵי מִזְבַּח יְהוָה אֱלֹהֶיךָ
O sacerdote tomará a cesta da sua mão e a colocará diante do altar de Adonay D’us de vocês.
וְעָנִיתָ וְאָמַרְתָּ לִפְנֵי יְהוָה אֱלֹהֶיךָ אֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי וַיֵּרֶד מִצְרַיְמָה וַיָּגָר שָׁם בִּמְתֵי מְעָט וַיְהִי־שָׁם לְגֹוי גָּדֹול עָצוּם וָרָב׃
Você então recitará o seguinte diante de Adonay D’us de vocês: “Meu pai era um arameu fugitivo. Ele desceu ao Egito com números escassos e peregrinou lá; mas lá ele se tornou uma grande e muito populosa nação.(D’varim 26:1-5)
A parashá começa descrevendo a mitsvá de bikurim, os primeiros frutos que os judeus traziam ao Beit HaMicdash (Templo). Este é o cenário: 40 anos se passaram desde a travessia do Yam Suf (“mar vermelho”), o povo está prestes a entrar na terra de Canaã. Moshê (Moisés) continua o seu discurso, relembrando os momentos de rebeldia do povo, os milagres do Eterno, e sempre ensinando o povo a respeito dos Mandamentos. Agora, é hora de instruir o povo como eles devem agir ao entrar na terra e possui-la.
A mitsvá de bikurim foi instituída para mostrar nossa GRATIDÃO pelo bem que D’us nos concedeu e para mostrarmos nosso apreço por Ele por “nos ter concedido todas as bênçãos deste mundo”. E, este apreço, não é expresso meramente por palavras de agradecimento, mas através de ações. A pessoa devia selecionar seus primeiros frutos e fazer uma viagem especial para levá-los a Jerusalém para demonstrar seu agradecimento a D’us. Além disso, os primeiros frutos seriam, assim, consagrados, indicando que uma conexão duradoura com a santidade de D’us tinha sido estabelecida. Segundo os sábios, o objetivo da mitsvá, é levar o homem a dominar seus apetites o que poderá revelar o controle de suas vontades. A primeira colheita obtida com esforço e há muito esperada é a parte do Eterno e não do homem. De acordo com a tradição, o povo levava ao Santuário apenas as primícias das sete espécies que simbolizam tradicionalmente a terra de Israel: o trigo, a cevada, a uva, o figo, a romã, a azeitona e a tâmara.
Os bikurim tinham que ser da melhor qualidade, produzidos na Terra Santa, dos primeiros frutos a amadurecer. Antes de tomar qualquer fruto para si mesmo, esses frutos eram trazidos para o Templo Sagrado para expressar gratidão a D’us pela oportunidade de se estabelecer na Terra de Israel e pela bênção deste produto. Maimônides explica que, “tudo o que for usado para demonstrar amor por D’us deve ser o melhor e mais bonito. Quando se constrói uma casa de oração, ela deve ser mais bonita do que a sua própria habitação. Quando se alimenta o faminto, ele deve alimenta-lo do melhor e do mais doce de sua mesa. Sempre que se designa algo para um propósito sagrado, deve-se santificar o melhor de suas posses”.
Os frutos eram colocados em frente ao altar (os bikurim eram colocados próximos do altar para simbolizar que eles não eram trazidos para o cohen [sacerdote], mas sim para D’us, Que os dava de presente aos cohanim). E o proprietário recitava em hebraico os versículos referente aos bikurim (D’varim 26:5 -10). Segundo a tradição dos sábios talmúdicos, depois de o judeu ter cumprido a mitsvá de bikurim, uma voz celestial podia ser ouvida no Bet Hamicdash: “Que você tenha o mérito de trazer seus bikurim no próximo ano mais uma vez!”
Reflexão
Os Bikurim ensinam-nos a estabelecer prioridades em nossa vida. Na miríade (imensidade) de responsabilidades da “rotina diária”, lembram-nos de dar precedência, e dedicar nossos recursos mais fortes, mais frescos, para as pessoas e para os valores que nós prezamos mais. Quantas vezes deixamos de agendar tempo de qualidade com os nossos cônjuges, para reacender a centelha que originalmente nos atraiu um pelo outro? Em vez disso, quanto do nosso tempo juntos é desperdiçado em listar todas as tarefas mundanas que precisam ser concluídas? Quantas vezes nós reservamos tempo para nossos filhos ao final do nosso dia, depois de estarmos esgotados de energia ou de iniciativa, para realmente nos relacionar com as questões de suas vidas? Quantas vezes estamos tão ocupados com a nossa busca pelo sucesso material que deixamos apenas algumas migalhas de energia para saciar o nosso crescimento espiritual? Será que nós mantemos contato com o nosso Criador em apenas alguns momentos apressados de orações distraídas, só para aliviar nossa culpa antes de abordar as tarefas “reais” de nossos dias?
Bikurim nos ensina a dar um passo atrás e priorizar ‑ que o primeiro e o melhor de nosso fruto, do nosso tempo, energia e recursos, deve ser dedicado a D’us.
•O dízimo trienal; (Maasser Ani)
A parashá ki tavo, além de tratar dos bikurim, também aborda a questão do “Maasser Ani” (Dízimo para os pobres). Na época do Templo Sagrado, os Cohanim (sacerdotes) e Leviim (descendentes de Levi) eram os representantes do povo de Israel, dedicando seu tempo para o serviço Divino. Estes não receberam uma porção de terra para o cultivo, como as outras tribos, pois moravam na região do Templo em Jerusalém ou em cidades designadas para eles. Estas tribos, que tanto dedicavam-se em prol de Israel, eram sustentadas pelo povo.
Quando você tiver separado integralmente a décima parte da sua produção, no terceiro ano, o ano do dízimo e a tiver dado ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, para que comam até se fartar nas suas casas, tu declararás diante do teu D’us יהוה: “Eu limpei a parte consagrada da casa; e a dei ao [família do] levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, assim como me ordenaste; não transgredi nem negligenciei nenhum dos teus mandamentos:(D’varim 26:12-13)
No primeiro, segundo, quarto e quinto anos de cada ciclo de sete, o fazendeiro tinha que separar o maasser sheni e comê-lo em Jerusalém. No terceiro e sexto anos, o agricultor tirava o maasser ani (dízimo para os pobres) ao invés do maasser sheni. Esta décima parte era para as pessoas necessitadas (estrangeiros, órfãos, viúvas), que vinham ao seu campo reivindica-lo. Uma vez que não há mais pessoas da tribo de Levi trabalhando no Templo Sagrado, todo judeu tem a obrigação de dar um décimo de seu lucro para caridade e ajuda aos necessitados. Isto inclui desde comida para pobres, até bolsas de estudos e projetos e a qualquer indivíduo ou instituição beneficente de nossa escolha.Há muitas leis relativas ao maasser (dízimo) inclusive relativas ao plantio e colheita da terra em Israel que vigoram até hoje, beneficiando viúvas, órfãos e necessitados.(Chabad)
Reflexão

Acima, uma imagem de cortar o coração. Infelizmente essa é a realidade de muitas crianças e também adultos em todo o mundo. Quão difícil é: olhar para uma criança de rua, e não sentir o ardor de uma lágrima descendo como brasa acesa queimando o nosso rosto.
O Todo-Poderoso D’us fez questão que existissem pobres e ricos no mundo, um precisando do outro para praticar a bondade e a caridade, ou seja, a tsedacká. D’us, portanto, fez questão que neste mundo haja uma interação entre mashpia (doador) e mecabel e (receptor). Tudo pertence a D’us. Quando estendemos a mão para ajudar um necessitado, seja um pobre ou uma instituição, não estamos lhes fazendo um favor. A filosofia judaica nos ensina que D’us retém os bens que seriam dos pobres e os entrega nas mãos dos ricos. Seria como então “oportunizar” a que o rico faça uma boa ação (Orach Chaim, Êxodo 22:24; Alshich, Provérbios 18:16; Maamarim Kuntressim, vol. 1, p. 119a). Então, na realidade, em primeiro lugar, quando um homem rico e afortunado, dá algo para um pobre, ele está apenas devolvendo o que não era seu. Trata-se, portanto, de uma noção de caridade bastante diferente da que vemos adotada pelo mundo hoje. Podemos ler diretamente do Midrash: “Mais do que o rico faz para o pobre, o pobre faz pelo rico” (Vayicrá Rabá, porção 34). O pobre permite que o rico devolva seu achado. Teoricamente, ao fazermos tsedaká, deveríamos falar “muito obrigado” para o pobre. Agradecer-lhe pelo simples fato de ele aceitar a caridade. É que, sob essa ótica, o rico apenas estará restituindo algo que de fato nunca pertenceu a ele, mas tão somente ao pobre.
Dízimo: “dar ou não dar”? Eis a questão…
No mundo cristão, existem diferentes interpretações sobre a prática do dízimo na atualidade.
Para os cristãos católicos, o dízimo é de fato um mandamento, e deve ser praticado nos dias de hoje, sob algumas observações. Uma dessas observações é a porcentagem devolvida para a “santa” igreja. O crente católico deve estipular uma porcentagem acima de 1% e devolver para a paróquia. Não há uma ordem legal que impõe aos fies, retirarem 10% do seu ganho (salário) mensal. Os dizimistas católicos são todos registrados.
Para os cristãos protestantes, o dízimo também é de fato um mandamento vigente para os dias de hoje. Todavia, em contraste com o catolicismo, deve ser devolvido a décima parte, ou seja, 10% de todo salário mensal. Os fiéis recebem um cartão chamado: “dizimista fiel” ou simplesmente “cartão do dízimo”, e só podem dizimar na sua congregação, como também é no catolicismo.
Para os cristãos da organização das testemunhas de Jeová, e os cristãos da CCB (congregação cristã no Brasil), o dízimo não faz parte da regra de fé e prática dos seus seguimentos. Ambas as instituições são sustentadas por donativos.
No movimento Judaico Messiânico, há também diferentes interpretações sobre a aplicação do dízimo para os dias atuais. Judeus Messiânicos, Nazarenos e Israelitas divergem sobre essa mitzvá.
Segundo a Torah, há cinco tipos de dízimos:
1°) Bikurim – os primeiro frutos da safra eram trazidas ao Cohen (sacerdote);
2°) Terumá Guedolá – aproximadamente dois por cento da colheita era dada ao cohen (sacerdote);
3°) Masser Rishon – o ‘primeiro dízimo’ – dez por cento do restante da colheita era dado ao Levi, que por sua vez retirava dez por cento e dava ao cohen (sacerdote);
4°) Maasser Sheni – ‘segundo dízimo’ – no primeiro, segundo, quarto, quinto e sétimo ano do ciclo sabático, o agricultor retirava dez por cento do restante da colheita e levava a Jerusalém, onde era comido ou redimido.
5°) Maasser Ani – Dízimo do pobre – no terceiro e sexto ano no ciclo sabático, ao invés de levar-se o maasser sheni ao Templo Sagrado, este era dado aos pobres.
Bem sabemos que, por volta dos anos 69/70 da nossa era, o Templo de Jerusalém foi destruído pelos romanos sob a ordem e liderança do general Tito, que mais tarde viria a ser o imperador de Roma. Como já falamos anteriormente: Uma vez que não há mais pessoas da tribo de Levi trabalhando no Templo Sagrado, todo judeu tem a obrigação de dar um décimo de seu lucro para caridade e ajuda aos necessitados. Isto inclui desde comida para pobres, até bolsas de estudos e projetos e a qualquer indivíduo ou instituição beneficente de nossa escolha. Há muitas leis relativas ao maasser (dízimo) inclusive relativas ao plantio e colheita da terra em Israel que vigoram até hoje, beneficiando viúvas, órfãos e necessitados.
É certo que não há mas levitas atuando no Templo, portanto a mitsvá dos quatros primeiros dízimos, não são aplicáveis em sua literalidade. Todavia, órfãos, estrangeiros, viúvas e necessitados existem em nosso meio. Sendo assim, podemos e devemos aplicar o Maasser Ani (dízimo dos pobres) conforme ordena o Eterno em sua Torah.
Esperamos com este estudo despertar os seguidores de Yeshua em Teshuvah, sobre a verdade acerca do dízimo. Sabemos que este estudo vai contra os interesses pessoais de alguns grupos religiosos, porém não nos preocupamos com a aprovação de homens. Infelizmente, alguns esclarecimentos que apresentamos aqui não costumam ser pregados em certas “comunidades”. Encorajamos portanto a todos os leitores a verificarem cada detalhe que se encontram neste estudo, e tirem suas conclusões sobre o que está sendo apresentado.
•O altar de pedras e o memorial da Torah “Lei”;

A nossa parashá segue:
Moisés e os anciãos de Israel deram esta ordem ao povo: Observai todas as instruções que hoje vos ordeno. Assim que você tiver atravessado o Jordão para a terra que seu D’us יהוה está lhe dando, você deve levantar grandes pedras. Cubra-as com cal e inscreva neles todas as palavras deste Ensinamento. Quando vocês atravessarem para entrar na terra que seu D’us יהוה está dando a vocês, uma terra que mana leite e mel, como יהוה , o D’us de seus antepassados, prometeu a vocês.(D’varim 27:1-3)
D’us ordenou a Moshê, erguer doze pedras enormes nas planícies de Moav e escrever a Torah sobre elas. Moshê fez como D’us ordenou. As pedras serviam para lembrar a geração que entrou na terra de Israel do cumprimento da Torah. Somente ao preservar a Torah eles preservariam a terra. D’us ordenou que mais dois grupos de pedras fossem erguidos pelo próximo líder, Yehoshua (Josué).
1. Yehoshua e os filhos de Israel atravessariam o rio Jordão para entrar na Terra de Israel. Yehoshua deveria colocar doze pedras no local onde os filhos de Israel atravessaria o rio.
2. Outras doze pedras deveriam ser removidas do rio Jordão e ser carregadas até o monte Eval. Esta é uma montanha no centro da terra de Israel. Yehoshua e os filhos de Israel deveriam construir um altar com as pedras tiradas do rio Jordão para fazer oferendas para D’us. Depois de escrever a Torah nas pedras do altar, os filhos de Israel deveria pegá-las e levá-las novamente até a fronteira da terra de Canaã. Elas eram deixadas lá como um memorial.
Existe uma relação intrínseca entre a palavra pedra e filho. Todavia, essa relação só é vista e entendida através do Hebraico.
Os escritos dos nazarenos (novo testamento) nos conta que enquanto Yochanan (João) batizava as pessoas no rio Jordão, alguns dentre os fariseus e saduceus foram até o local onde Yochanan realizava o ritual da Tevilah (imersão/batismo). As pessoas confessava os seus pecados e Yochanan os batizava no rio Jordão. O batismo não era uma prática desligada da vida dos judeus, pois na própria Torah encontramos a sua essência através do Mikveh. Antes de receber o batismo as pessoas confessava os pecados. Quer dizer, reconheciam suas vidas desvirtuadas da Torah para mudar essa realidade, como dizia Yochanan, para produzir frutos que provassem a sua Teshuvah (retorno/arrependimento). Foi por isso que Yochanan se irritou com alguns fariseus e saduceus que pensavam poder valer-se de sua condição de “filhos de Avraham”. Ser filhos de Avraham era para eles uma coisa que dependeu exclusivamente do desígnio de D’us, e isso os tornavam melhores que os demais povos.
וְאַל־תֶּהְגּוּ בִלְבַבְכֶם לֵאמֹר אַבְרָהָם לָנוּ לְאָב כִּי אֲנִי אֹמֵר לָכֶם גַּם מִן־אֲבָנִים אֵלֶּה תַּשִּׂיג יַד־אֱלֹהִים לְהָקִים בָּנִים לְאַבְרָהָם
E não murmurem no coração de vocês dizendo: Avraham para nós para pai (é nosso pai), porque eu digo para vocês: também destas pedras consegue a mão de Elohim (D’us) levantar filhos para Avraham. (Mateus 3:9)
O que significa isso? Qual a relação entre pedra e filho?
Yehoshua fez como Moshê ordenou na Torah, colocando doze pedras no rio Jordão, no local onde o povo judeu atravessou. Estas pedras lembrariam às futuras gerações do milagre lá ocorrido.
ויאמר להם יהושע עברו לפני ארון יהוה אלהיכם אל תוך הירדן והרימו לכם איש אבן אחת על שכמו למספר שבטי בני ישראל
E disse para eles Yehoshua: Atravessem pela faça (diante) da arca de Adonay, Elohim de vocês para o meio do Yarden (Jordão) e levantem para vocês, cada homem, uma pedra sobre seu ombro pelo número das tribos dos filhos de Israel.
למען תהיה זאת אות–בקרבכם כי ישאלון בניכם מחר לאמר מה האבנים האלה לכם
Para que isso seja um sinal no meio de vocês, quando perguntarem os filhos de vocês amanhã: O que são essas pedras para vocês?
ואמרתם להם אשר נכרתו מימי הירדן מפני ארון ברית יהוה–בעברו בירדן נכרתו מי הירדן והיו האבנים האלה לזכרון לבני ישראל–עד עולם
E dirão para eles: Quando foram cortadas as águas do Yarden diante da arca da Aliança do ETERNO, ao atravessar no Yarden foram cortadas as águas do Yarden e serão essas pedras para recordação para os filhos de Yisra’el para sempre.(Yehoshua 4:5-7)
A palavra hebraica para “pedra” é even (אבן). Dentro dessa palavra nós temos outras duas: av (אב) pai, e ben (בן) filho. Pedra é a união de pai e filho. Note que no texto da Torah, as pedras serviam como um memorial para lembrar a geração que entrou na terra de Israel do cumprimento da Torah. Desde os tempos antigos, o filho é a memória do pai, o testemunho, a continuidade. Pare e pense um pouco: Se um homem morrer sem deixar filho, seu nome será esquecido. Não haverá uma pedra (filho) com seu nome gravado nela. Por isso, era comum entre o povo de Israel da o mesmo nome do pai para o filho. Assim, o filho seria como uma pedra sobre a qual estaria para sempre o nome do seu pai.
“E aconteceu que, ao oitavo dia, vieram circuncidar o menino, e lhe chamavam Zacarias, o nome de seu pai”.(Lucas 1:59)
Pedras sobre a Matzeivá (túmulo)

Ao andar pelo Brasil é impossível não perceber que nas beiras das estradas em meio a agitação da vida moderna ou nos campos mais remotos do interior brasileiro existe cruzes nos lembrando que ali morreu alguém. Isso é um costume de longos anos entre os cristãos, seja ele católico ou protestante. A cruz é o símbolo mais comum nos cemitérios, para muitas pessoas ela significa morte, porém, no Cristianismo é o símbolo da superação da morte. Jesus ao ser crucificado ressuscita no terceiro dia, portanto, o símbolo aparece nos túmulos contando que aqueles que descansam ali também tenha a chance de superar a morte e alcançar a vida eterna. É bastante comum perceber que além de cruz, pedras grandes ou pequenas são postas ao pé da cruz. Poucas pessoas sabem que isso é um costume Judaico.
O costume de colocar uma pedra tumular (matzeivá em hebraico) remonta aos tempos dos nossos patriarcas. É um ato de respeito pelo falecido. Marcando visivelmente o local do sepultamento, asseguramos que os mortos não serão esquecidos, sua memória não será apagada. Em 2208 (segundo a tradição judaica), Ya’akov estava levando sua família para Hevron, após passar vinte anos trabalhando para o sogro em Charan (atualmente na fronteira turco-síria). Enquanto estavam viajando Rachel (Raquel) deu à luz seu segundo filho, Benjamin, e faleceu no parto. Em vez de levá-la para o Túmulo dos Patriarcas em Hevron, Ya’akov enterrou-a no local, na estrada para Bethlehem (Belém).
“Ya’akov ergueu uma coluna (de pedra) sobre o túmulo dela; essa é a coluna no túmulo de Rachel até hoje”.(Bereshit 35:20)
•Proclamações de bênçãos e maldições.

Há duas montanhas na terra de Israel na vizinhança de Shechem – monte G’rizim e monte Eval. Moshe ordenou que no dia que os judeus entrassem na terra Israel, sob liderança do seu sucessor, eles deveriam viajar diretamente àquele lugar, para pronunciar as bênçãos e as maldições de D’us da seguinte maneira:
Seis tribos deveriam subir o monte G’rizim: Shim’on, Levi, Yehuda, Yissachar, Yossef e Binyamin. Mais seis no monte Eval: Reuven, Gad, Asher, Zevulun, Dan e Naftali.
O aron Hacodesh (Arca Sagrada), os cohanim (sacerdote) e os mais velhos dentre os leviyim (descendentes de Levi) deveriam ficar no vale entre as duas montanhas, os cohanim formando um círculo interno em volta do aron e os leviyim formando um círculo externo em volta dos cohanim. Virando seus rostos em direção ao monte G’rizim, os mais velhos entre os leviyim proclamavam a primeira bênção para que as tribos das duas montanhas pudessem ouvir: “Abençoado é o homem que não faz uma imagem esculpida ou fundida.” As tribos das duas montanhas deveriam responder: “Amen – que assim seja.” Então os mais velhos dentre os leviyim viravam-se para o monte Eval e pronunciavam a primeira maldição: “Amaldiçoado é o homem que faz uma imagem esculpida ou fundida.” As tribos das duas montanhas deveriam responder: “Amen – que assim seja.”
Os leviyim deveriam continuar a pronunciar alternadamente uma bênção e uma maldição. (Apesar de que a Torah escrita somente declara as maldições, cada maldição era antes formulada positivamente, como uma bênção).Por que D’us ordenou que os judeus escutassem a bênçãos e maldições no dia que entrassem na Terra Santa?
Este seria um novo pacto, uma nova aceitação da Torah na própria Terra Santa. As duas montanhas serviriam como testemunhas eternas que lembrariam os judeus de sua promessa de cuidar da Torah na terra de Israel. Os leviyim deveriam amaldiçoar aquele que cometesse um dos onze pecados apontados (e abençoar aqueles que se abstivessem deles). Estes pecados são geralmente cometidos em segredo, portanto não podem ser punidos por uma corte de justiça. Eles são:
Abençoado seja o homem que não molda secretamente uma imagem de idolatria! Amaldiçoado seja aquele que o faz! Abençoado seja o homem que não despreza seu pai e sua mãe! Amaldiçoado seja aquele que despreza seu pai e sua mãe [um pecado cometido freqüentemente em segredo]! Abençoado seja o homem que não move a demarcação de fronteira do seu vizinho [secretamente, para roubar sua terra]! Amaldiçoado seja aquele que o faz! Abençoado seja o homem que não induz o cego a errar no seu caminho (que não dá conselhos errôneos para um indivíduo ignorante)! Amaldiçoado seja aquele que o faz! Abençoado seja o homem que não perverte o julgamento de um guer (convertido), de um órfão e de uma viúva! Amaldiçoado seja aquele que o faz! Abençoado seja o homem que não deita (secretamente) com a mulher do seu pai! Amaldiçoado seja aquele que o faz! Abençoado seja o homem que não deita (secretamente) com um animal! Amaldiçoado seja aquele que o faz! Abençoado seja o homem que não deita (secretamente) com a sua irmã! Amaldiçoado seja aquele que o faz! Abençoado seja o homem que não deita (secretamente) com a sua sogra! Amaldiçoado seja aquele que o faz! Abençoado seja o homem que não atinge seu próximo secretamente [falando mal dele]! Amaldiçoado seja aquele que o faz! Abençoado seja o homem que não pega suborno [ou qualquer outro ganho financeiro] para matar um inocente! Amaldiçoado seja aquele que o faz! Abençoado seja o homem que cumpre todas as palavras da Torá! Amaldiçoado seja aquele que não o faz!(Chabad)
Destacamos a maldição sobre aquele que fizer o cego errar o caminho. Entendemos essa proibição de duas formas:
Primeiro – não fazer o cego errar literalmente o caminho.
Segundo – Esta maldição evoca a proibição: “Não porás obstáculo diante do cego”. Ela se aplica a qualquer um que engana os outros dando-lhes maus conselhos, mesmo que não sejam cegos, mas apenas não tenham as informações necessárias e possam tomar uma decisão errônea com base no conselho que receberam. Neste caso, a vítima não tem consciência de que está sendo enganada, e a responsabilidade é inteiramente de quem deu o conselho.(Steinsaltz)
Shau’l Ha’shaliach (apóstolo Paulo) orientou a congregação em Roma a não ser pedra de tropeço para os demais irmãos:
“Portanto, não nos julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, lembrem-se disto: nunca coloquem pedra de tropeço no caminho do seu irmão.”(Romanos 14:13)
O contexto para essa orientação de Shau’l diz respeito a kashrut (lei dietética), um grupo de irmãos vegetarianos estavam julgando um grupo de irmãos que comiam carne (kasher). E isso estava sendo motivo de tropeço ou escândalo entre eles. Abaixo, o comentário do Dr David H Stern:

Recentemente muitos irmãos tem descoberto verdades que por muitos anos lhes estiveram ocultas, e estão em processo de Teshuvah (arrependimento). Precisamos ter muito cuidado para não sermos pedras de tropeço para elas. Devemos lembrar que isso aconteceu com os discípulos de Yeshua(Atos 15).
Todos nós temos momentos na vida em que vamos precisar de um conselho. Qualquer um pode dar um conselho, mas nem todos são capazes de dar um bom conselho. Os melhores conselhos são baseados nos ensinamentos da Torah. Sempre que alguém nos aconselha em alguma área da nossa vida, não podemos seguir o conselho sem pensar e sem pesar as palavras. Precisamos ver se o conselho está de acordo com a Palavra de D’us. Seguir um conselho que vai contra o que a Torah ensina tem consequências graves na nossa vida. Atenção, pessoas boas também podem dar maus conselhos. Muitas vezes pessoas podem ter a intenção de nos ajudar, mas desconhecem o contexto da situação e acabam dando conselhos errados. Se você quer receber ou dar conselhos, peça sabedoria a D’us para seguir os bons conselhos e para aprender a dar bons conselhos. Se você precisa de pedir um conselho, tenha a certeza que a pessoa que te aconselha conhece e pratica as doutrinas da Bíblia e tem um relacionamento genuíno com Deus.
Se alguém vem até você pedindo um conselho, você não deve aconselha-la erradamente, de propósito. Quem lhe pede um conselho é como se fosse “uma pessoa cega”. Se você der a direção errada, estará fazendo-a “tropeçar”, cometer um erro. Quando você aconselha alguém, esta pessoa não sabe se sua intenção é ajudá-la ou causar-lhe problemas. Ela não pode ler seus pensamentos. Mas há alguém que lê sua mente – D’us. Ele adverte: “Aconselhe honestamente.”
Lembremos de Aitofel – um homem influente no meio do povo de Israel quando Davi se tornou rei. Por isso Aitofel fazia parte “dos conselheiros de Davi”. As pessoas do povo ouviam e seguiam as orientações de Aitofel como se fossem vindas de D’us. Mas Aitofel começou a se rebelar contra Davi e dava conselhos errados que o prejudicavam lançando Absalão contra seu próprio pai, o rei. Um dos piores conselhos que Aitofel deu foi para Absalão filho de Davi cometer um ato vergonhoso e público ao tomar as mulheres de seu próprio pai (2 Samuel 16.20-22). A mente de Aitofel, que um dia fora iluminada por D’us para ajudar as pessoas, agora usa sua criatividade para ter ideias malignas. Infelizmente Absalão já estava tão cheio de maldade, que seguiu o conselho de Aitofel como se fosse algo bom.
Aitofel propôs uma batalha contra Davi em plena noite, mesmo sem estar preparados:
“Disse ainda Aitofel a Absalão: Deixa-me escolher doze mil homens, e me disporei, e perseguirei Davi esta noite. Assaltá-lo-ei, enquanto está cansado e frouxo de mãos; espantá-lo-ei; fugirá todo o povo que está com ele; então, matarei apenas o rei”.(2 Samuel 17:1-2)
Absalão procurou o conselho de outra pessoa antes e procurou Husai, que na verdade estava ali a pedido de Davi. Husai abriu os olhos de Absalão dizendo que “o conselho que deu Aitofel desta vez não é bom” (2 Samuel 17.7). Por isso Absalão não aceitou mais o conselho de Aitofel (2 Samuel 17.14).
Quando Aitofel viu que perdera o status de conselheiro, que as pessoas não seguiam mais suas opiniões, então ficou apavorado. Como se achava muito importante e sábio, não procurou conselho de ninguém, tomou a triste escolha de se enforcar. Pouco tempo depois, Absalão morreu de forma semelhante pendurado numa árvore (2 Samuel 18.9)
Conclusão da parashá ki tavo
Pratique hakarat hatov (GRATIDÃO) para o Eterno e também para as pessoas que tem sido bondosas com você. Reconheça o bem que está a sua volta. Seja justo, pratique Tsedaká (justiça), ajude o pobre, o estrangeiro, o órfão e a viúva. Lembre-se da Torah do Eterno, grave-as em seu coração. Obedeça aos mandamentos da Torah e anule a maldição da tua vida.
Abençoado seja O Eterno


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