
Shalom U’vracha (Paz e Benção)!
Chegamos a Parashat Beshalach (“Ao Enviar”), a décima sexta porção de estudos da Torah. A nossa parashá corresponde ao Sêfer Shemot (Livro do Êxodo) 13:17—17:16. Os principais eventos e temas da Parashat Beshalach incluem:
• A Travessia do Yam Suf (“Mar Vermelho”): Beshalach narra o evento inspirador onde os hebreus, perseguidos pelo exército egípcio, testemunham a milagrosa abertura do Mar Vermelho, permitindo-lhes atravessar em terra seca;
• O Canto do Mar: Após a travessia, Moisés e os hebreus cantam alegremente o Canto do Mar, expressando gratidão e louvor pela libertação e pelos atos poderosos de D’us;
• Provisão de Maná: No deserto, D’us fornece aos hebreus maná, um sustento celestial, ressaltando o cuidado divino e a importância da confiança na provisão contínua de D’us;
• Água amarga tornada doce: D’us transforma água amarga em água doce em Mara, ilustrando o tema da intervenção divina na manutenção do bem-estar dos hebreus.
Introdução
Abraão, o primeiro Patriarca do Povo Judeu, já tinha 75 anos quando D’us se revelou a ele e lhe ordenou que deixasse a casa de seu pai rumo a um novo destino: Canaã, posteriormente conhecida como Terra de Israel. Nessa revelação Divina, o Altíssimo também lhe fez promessas significativas: “E farei de ti uma grande nação e abençoar-te-ei, e engrandecerei teu nome e serás uma bênção.”(Gênesis 12:2). Anunciou ainda que “à tua descendência darei esta terra.” (Gênesis 12:7). Essas palavras não só marcaram o estabelecimento de uma aliança única entre D’us e o Patriarca do povo hebreu, mas também estabeleceram os alicerces do vínculo eterno do Povo Judeu com a Terra de Israel.
Acompanhado por sua esposa Sarah, primeira Matriarca do povo judeu, Abraão acatou a ordem Divina e emigrou para Canaã. Quando lá chegou, o Eterno reafirmou que aquela terra seria a herança eterna dos descendentes do Patriarca, porém advertiu que a posse perpétua da região implicaria um custo elevado. Em um episódio da Torah conhecido como o Pacto das Partes (Brit Ben HaBetarim), revelou: “Sabe com certeza que tua descendência será peregrina em terra que não lhe pertence, e a farão servir e a afligirão por 400 anos. E também à nação que há de servir, Eu julgarei; e depois sairá com grande riqueza… E a quarta geração voltará aqui, porque não se completou a medida do pecado do Emoreu, até aqui.” (Gênesis 15:13-16). Isso foi o prenuncio da escravidão dos Filhos de Israel no Egito e a volta deles à Terra Prometida.
A escravidão no Egito serviu como prelúdio para um padrão, observado ao longo da história, de sofrimentos e adversidades para o Povo Judeu fora de sua terra natal. Portanto, já em sua primeira revelação a Moisés, o Altíssimo prometeu libertar os Filhos de Israel e reconduzi-los à terra ancestral: “Eu sou o D’us de teu pai, o D’us de Avraham, o D’us de Isaac e o D’us de Jacó. Tenho visto a aflição do Meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa de seus capatazes, porque conheci as suas dores. E desci para o livrar do poder do Egito e para o fazer subir daquela terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que emana leite e mel, para o lugar do Cananeu, do Hiteu e do Emoreu, do Periseu, do Hiveu e do Jebuseu.” (Êxodo 3:6-8).
D’us disse a Moisés que ordenasse Faraó para libertar o povo de Israel. Faraó, entretanto, não tinha a intenção de fazê-lo. Em cada um dos encontros que se seguiam, Faraó mostrava-se irredutível, mas o que ele não imaginava, era que o juízo de D’us tornava-se iminente. D’us castigou (como vimos nas parashiot passadas) o Egito com DEZ pragas (makot – מכות – em hebraico, literalmente chicotes). Faraó resistiu até a NONA praga, até que chegamos à culminante DÉCIMA praga sobre o antigo Egito, a morte dos primogênitos. Os pormenores desta praga são fornecidos na parashá Bo, disponível aqui no blog. Que tremenda demonstração do poder do Eterno foi essa ocasião, tanto de preservar como de destruir! Pereceu todo filho primogênito, desde o de Faraó, até o do cativo que estava no cárcere, bem como o primogênito de todo animal. Os deuses do Egito foram julgados inúteis naquela noite e assim provaram que não eram deuses. Especialmente isto se deu com Amon-Ra, o suposto preservador de todos os primogênitos. Onde estava ele naquela noite? Não podia haver dúvida, então, quanto a quem era maior, o Amon-Ra, de Faraó, ou Havayah, de Moisés.
“E Faraó se levantou de noite, com todos os seus cortesãos e todos os egípcios, porque havia um grande clamor no Egito; pois não havia casa em que não houvesse um morto. Ele chamou Moisés e Arão à noite e disse: ‘Levantem-se, saiam do meio do meu povo, vocês e os filhos de Israel com vocês! Vão, adorem Havayah como vocês disseram!’”
(Êxodo 12:30-31).
E assim começa a nossa parashá:
“E aconteceu ao enviar Faraó o povo, D’us não o guiou pelo caminho da terra dos filisteus, embora fosse mais perto; pois D’us disse: “O povo pode mudar de ideia quando vir a guerra e retornar ao Egito”. Então D’us fez o povo rodear, pelo caminho do deserto, até o Mar Vermelho. Os filhos de Israel saíram armados da terra do Egito”.(Êxodo 13:17-18)
As 70 nações
Os primeiros versículos da nossa parashá, chamaram a atenção dos sábios do povo Judeu. Primeiro, a Torah fala que o Faraó deixou o povo ir (vs 17), mas adiante a Torah os chama de Beney Israel – filhos de Israel (vs 18).
Para Chizkuni, a razão pela qual a Torá não escreveu que “o Faraó deixou os filhos de Israel irem” é porque a palavra Ha’am (העם) o povo, incluía companheiros de viagem que se juntaram à nação judaica, bem como espiões que relatariam ao Faraó a rota que haviam tomado.
Or HaChaim afirma – com base no Zohar – que sempre que Israel é descrito como am (עם) povo, é uma alusão à multidão mista de convertidos que se juntou aos filhos de Israel no Êxodo. Segundo esse comentário, nessa parashá, encontraremos os israelitas descritos de várias maneiras como “Benei Israel” (בני ישראל) e como “Ha’am” (העם). Por exemplo, no verso 18, os israelitas que partem já são chamados de “Benei Israel” (בני ישראל) filhos de Israel. Aparentemente, D’us queria ter certeza de que percebêssemos que as pessoas descritas como Ha’am (העם) não eram judeus natos.
De acordo com a tradição dos sábios do povo judeu, 70 nações saíram do Egito com o povo hebreu. O conceito de haver 70 idiomas é encontrado em várias passagens do Talmud e do Midrash. Por exemplo, o Talmud (Shabat 88b) nos diz que quando D’us deu a Torá no Sinai, Sua palavra foi falada em 70 línguas, e Moisés traduziu a Torá em 70 línguas antes de morrer. Os 70 idiomas podem até mesmo ser inferidos da própria Torá. Depois de detalhar os descendentes de Noé, a Torá se volta para o incidente conhecido como a Torre de Babel onde D’us confundiu as línguas. Essa narrativa vêm imediatamente após a Torá fornecer uma lista detalhada de exatamente 70 descendentes de Noé. Podemos, portanto, inferir que a intenção da Torá é nos dizer que cada um dos 70 descendentes de Noé então gerou um clã, cada um dos quais falava sua própria língua.
O caminho mais longo
Segundo a narrativa de Moises, D’us não levou o povo pelo caminho que estava mais perto, porque o caminho mais rápido poderia se tornar o caminho do retrocesso, de volta ao passado, de atraso no propósito divino. O caminho mais curto era o caminho da guerra, do enfrentamento, de lutar contra os primeiros inimigos da jornada. Coloque-se por um momento no lugar deles. D’us estava com eles, o mesmo cujo nome é “Adonay Tsevaot” literalmente Adonay dos Exércitos (2 Samuel 7:26), além disso, estavam todos bem armados. Será que não ficaríamos animados com esse cenário? Esse caminho mais curto parecia certo, o que poderia dar errado? A questão é que D’us conhece nossa estrutura (Salmo 103:14). Ele tudo sabe porque tudo vê. Por isso, a direção correta naquele momento era o caminho mais longo. Por que?
Um dos motivos a própria Torah explica: “O povo pode mudar de ideia quando vir a guerra e retornar ao Egito”. Todavia, há algo mais profundo nessa história, e, é exatamente isso que iremos ver a partir de agora:
Midá Kenegued Midá – Medida por Medida
A primeira vista, não dá para entender. Qual foi o real propósito deste caminho mais longo? Por que D’us não apenas matou os egípcios malvados em seu sono e tirou os hebreus do Egito silenciosamente. Por que todo o alarde? E por que D’us dividiu o mar no último momento? Porque toda a tensão?!
Há uma explicação para o fato de D’us ter guiado os povo por um caminho mais longo, indo e voltando até parar diante do Mar Vermelho:
Segundo Sforno – Embora tivesse sido o plano de D’us levar os israelitas ao Monte Sinai para receber a Torá lá, e somente de lá para a terra de Israel, como Ele mesmo declarou: “Eu os tomarei como Meu povo, e os trarei para a terra…”(Êxodo 6:7-8), neste ponto, o plano de D’us era levá-los ao Mar Vermelho, que não era nem a rota para a terra dos filisteus, nem a rota que levava ao Monte Sinai. Devemos lembrar que Moisés estava no Monte Sinai na sarça ardente e ele não teve que cruzar o mar para fazer isso. A principal razão para isso foi provocar o afogamento do Faraó e seu exército no mar.
Tinha sido o Faraó quem ordenara aos egípcios que afogassem os meninos hebreus recém-nascidos nas águas do rio Nilo. A Justiça Divina determinou que, mesmo tendo sofrido as Dez Chicotadas (Pragas), os egípcios ainda teriam que pagar “Midá Keneged Midá” (medida por medida) pela crueldade que haviam cometido contra Israel. Precisamos internalizar este importante conceito da “Midá Keneged Midá” de D’us, pois isto nos ajuda em nosso crescimento espiritual. Quando entendemos que tudo está sendo “anotado”, cada pequeno detalhe, e que D’us não se esquece de nada, então nos tornamos mais cuidadosos, tanto para não cometermos transgressões quanto para sermos mais ágeis e aproveitarmos cada oportunidade de fazer uma Mitzvá como uma Tsedaka (Atos de justiça). No judaísmo, os rabinos ensinam que esse é um princípio aplicável a todas as áreas da vida: finanças, honra, socorro, perdão, justiça, etc.
A caveira flutuante
Contam os rabinos, a história de um homem que saiu para um passeio à beira do rio e notou algo estranho e assustador: uma caveira flutuando na superfície da água. Sua reação foi incomum. Não pegou seu “celular nem sua câmera digital”. Em vez disso, voltou-se para a caveira e pronunciou as seguintes seis palavras em aramaico: “Ahl d’ateiff aftfuch, v’sof mitofayich yitufun.” Se tivesse falado em português, teria dito isso: “Você se afogou porque afogou outros”. O motivo pelo qual ele usou aramaico foi porque na época em que o incidente ocorreu – próximo ao final da era do Segundo Templo – o aramaico ainda não era uma língua extinta. Na verdade, estava bem vivo, especialmente entre os judeus que viviam na Babilônia.
Este homem era Hilel, autor de conhecidas declarações como: “Se eu não for por mim, quem será” e “Aquilo que é odioso a você, não o faça ao seu amigo” e outras. Ficou famoso por sua profunda sabedoria e extraordinária paciência.
Maimônides, que viveu cerca de 1.000 anos depois da história da caveira, escreveu o seguinte em seu comentário sobre o Tratado Pirkei Avot (Ética dos Pais) onde a história da caveira está registrada. “Há conseqüências para nossas ações – conseqüências que refletem aquelas ações. Se você cometer assassinato e afogar outras pessoas num rio para ocultar seu crime, receberá seu castigo na forma de seu crime. Se você inventar algo injusto para se beneficiar às custas de outros, aquela injustiça terminará por ser usada contra você. Pelo lado positivo, se você introduzir algo que beneficie outros, aquilo também terminará por vir em seu benefício”. O neto de Maimônides, Rabi David Hanagid, cita uma tradição passada pelos “anteriores”, que a caveira flutuante pertenceu a ninguém menos que o próprio faraó. Hilel, portanto, disse-lhe: “Como você ordenou que os bebês judeus fossem afogados no Nilo, você foi afogado.”(Pirkei Avot 2:6)
No Talmude aprendemos que “…O céu mostra misericórdia àquele que é misericordioso para com os outros, mas não mostra àquele que não o é…”(Shabat 151b), e ainda “Com o instrumento de medida com que o homem mede, ele será medido.”(Tsedacá e Chessed, capítulo 1, página 11).
Midá Kenegued Midá – Nos ensinamentos de YESHUA
Yeshua não apenas o utilizou esse conceito (Midá Kenegued Midá) em seus ensinamentos, mas ainda fez questão de chamar nossa atenção para ele, dada sua especial relevância. Na oração do Pai Nosso, vemos uma de suas facetas: “…perdoa nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido…” (Mateus 6:12). Nesse caso, foi utilizado para a questão do perdão, contudo, como já explicamos, ele influencia todas as áreas da vida. Em outro momento, Yeshua fala ainda mais abertamente desse princípio: “Porque D’us julgará vocês do mesmo modo que vocês julgarem os outros e usará com vocês a mesma medida que vocês usarem para medir os outros” (Mateus 7:2; Marcos 4:24).
Reflexão
Diante da revelação desse poderoso princípio celestial, que foi afirmado e ensinado pelos profetas, pelos sábios e até mesmo por Yeshua, nosso Sumo Sacerdote Eterno diante de D’us, temos que ficar absolutamente atentos quanto a maneira como nos comportamos com nossos semelhantes. Às vezes, podemos ser levados a acreditar que somos melhores do que outras pessoas por termos nos dedicado mais a alguma atividade e, consequentemente, estarmos, pelo menos naquele aspecto, numa situação aparentemente melhor. Essa crença pode facilmente nos conduzir a sermos severos, escrupulosos, exigentes, criteriosos e até orgulhosos em nossos julgamentos, pensamentos e em nossa disposição em ajudar, não apenas financeiramente, mas também em atividades que exijam tempo e empenho pessoal. É exatamente contra esse tipo de forma de pensar e de agir que Yeshua chamou nossa atenção.
A coluna – Nuvem e Fogo


Seguindo com a nossa parashá, a Torah nos conta que D’us guiou o povo sob a sua proteção o tempo todo. Adonay manifestou-se benevolente providenciando uma coluna de Nuvem e ao mesmo tempo de fogo.
“E Adonay ia adiante deles numa coluna de nuvem durante o dia, para guia-los pelo caminho, e numa coluna de fogo durante a noite, para ilumina-los, a fim de que pudessem caminhar de dia e de noite. A coluna de nuvem durante o dia e a coluna de fogo durante a noite não se afastavam de diante do povo”.(vs 21-22)
Nem os filhos de Israel e muito menos os egípcios jamais haviam visto algo assim. Durante a caminhada pelo deserto, uma coluna de nuvem pairava perto deles e ficava ali dia após dia. À noite ela se tornava uma coluna de fogo. Que espantoso! D’us usou a coluna de fogo e de nuvem para guiar seu povo na saída do Egito e depois no ermo. Eles deviam estar sempre prontos para segui-la. Quando as forças egípcias que perseguiam os filhos de Israel estavam em vias de ataca-los, a coluna se posicionou entre um grupo e o outro, protegendo o povo de D’us. (Êx 14:19, 20) Embora a coluna não tenha indicado o rumo mais direto, segui-la era a única maneira de Israel chegar à Terra Prometida.
A presença da coluna garantia aos povo o apoio de D’us. Ela representava a Adonay, que, em certas ocasiões, falou de dentro dela. (Números 14:14; Salmos 99:7) Além disso, a nuvem identificava Moisés como o designado por Adonay para liderar a nação. (Êxodo 33:9) E o último registro da presença da nuvem confirmou que Adonay havia designado Josué como sucessor de Moisés. (Deuteronômio 31:14-15) Sem dúvida, o sucesso do Êxodo dependia de os filhos de Israel verem as evidências da direção de D’us e a seguirem.
Enquanto os filhos de Israel caminhavam em direção ao Mar Vermelho, as forças armadas egípcias saíram em seu encalço. O Faraó estava determinado a capturar os milhões de escravos a quem dera permissão de deixar o país e os trazer de volta ao Egito. Suas tropas alcançam os filhos de Israel enquanto estes acampavam frente ao Mar Vermelho. O povo viu marchar em direção a eles um exército forte, unido e extremamente bem-organizado, o mais poderoso da época. Naturalmente, foram tomados por medo: de um lado estava o Mar, do outro, um inimigo impiedoso. Não podendo nem avançar nem recuar, só lhes restava uma opção: clamar pela Misericórdia Divina. Mas, ao ver os egípcios se aproximarem cada vez mais, os filhos de Israel supõem que suas preces não estavam sendo atendidas. “Não teria sido melhor viver como escravos no Egito do que morrer aqui, no deserto?” perguntam a Moisés. Em pânico, o povo começa a recriminar seu Grande Líder.
Encurralados, sem ter para onde iremos, conta-nos o Midrash (Sêfer HaYashar) que o povo se dividiu em quatro facções (grupos):
•O primeiro grupo disse: “Deixem-nos atirar-nos ao mar. Será melhor morrer do que voltar à escravidão no Egito”;
•O segundo grupo disse: “Deixem-nos voltar ao Egito. Melhor é viver como escravos do que morrer”;
•O terceiro grupo disse: “Deixem-nos lutar contra os egípcios. Se tivermos que morrer, ao menos deixem-nos morrer lutando”;
•O quarto grupo disse: “Deixem-nos orar a D’us. Nada mais podemos fazer”.
Moisés, agindo de acordo com a Vontade Divina, rejeitou a abordagem de todos os quatro grupos.
“E Moisés disse ao povo: Não temais! Ficai e vede a salvação que o Eterno vos fará hoje; porque os egípcios que vedes hoje, não voltareis a vê-los nunca mais! O Eterno lutará por vós, e vós fiquem calados!”(14:14-15)
De acordo com o Midrash, a resposta de Moisés foi proporcional para os quartos grupos:
Não temais! Ficai e vede a salvação que o Eterno vos fará hoje. Essa foi a resposta de Moisés para o primeiro grupo. Porque os egípcios que vedes hoje, não voltareis a vê-los nunca mais. Essa foi a resposta para o segundo grupo. O Eterno lutará por vós. Resposta para o terceiro grupo. E vós fiquem calados. Resposta dada ao quarto grupo.
Reflexão
As reações do povo quando se viu aprisionado – pelo Mar, de um lado, e pelo exército egípcio, de outro – é uma lição para cada um de nós sobre como lidar com os obstáculos e as adversidades da vida. Apesar dos milagres que tinham testemunhado no Egito, não há dúvida de que os filhos de Israel tinham boas razões para temer quando o exército egípcio se aproximava deles. Seria praticamente impossível cruzar o Mar – ainda que alguns conseguissem salvar-se, certamente as crianças e os bebês se afogariam. E se optassem por enfrentar o exército egípcio, eles provavelmente seriam aniquilados. Afinal, não era o Egito a superpotência da época? Escravos fugitivos não se comparavam às forças bem equipadas do exército egípcio.
Ao se depararem com a morte, o povo se dividiu – como já falamos – em quatro facções. O primeiro grupo defendia o suicídio: argumentavam que era melhor afogar-se do que ser morto em batalha ou ser capturado e levado de volta ao Egito. O segundo grupo queria permanecer vivo a qualquer preço: nem queriam se afogar nem morrer lutando. O terceiro grupo defendia o martírio: “Como vamos morrer, de qualquer forma”, diziam, “deixem-nos ao menos morrer com dignidade”. O quarto grupo não queria morrer – nem no mar nem em batalha – mas tampouco queria voltar ao Egito. Como aparentemente não havia nenhuma solução natural para seu suplício, eles argumentavam que a única coisa que eles podiam fazer era clamar a D’us e esperar que Ele os salvasse.
Essas quatro abordagens frente a uma situação aparentemente impossível ilustram como quase todos os seres humanos lidam com as adversidades que lhes parecem intransponíveis. Algumas pessoas querem jogar-se ao mar, metaforicamente, e, às vezes, até literalmente. Elas entram em desespero e desesperança. Outras, que D’us os livre, até contemplam o suicídio. No mínimo, retiram-se do mundo como forma de se retirar da realidade.
Um segundo grupo lida com a adversidade se rendendo à situação. Essas pessoas se submetem à situação ou à pessoa que as está ameaçando. E fazem quaisquer sacrifícios – de fato, até sacrificam sua própria liberdade – em troca da vida. Metaforicamente, preferem continuar escravos do Faraó a ter que enfrentar suas legiões e arriscar sua vida ou sua integridade física. Para essas pessoas, é melhor viver acorrentadas do que correr o risco de se afogar ou morrer no campo de batalha. Tais pessoas conciliam, chegam a acordos e se subjugam. Elas farão qualquer coisa para evitar uma briga, mesmo se isso implicar em abrir mão de sua liberdade, seus valores, sua dignidade e crenças mais valiosas.
Há um terceiro grupo de pessoas que é a antítese do segundo. Essas adoram uma briga. Vivem para brigar. No que lhes diz respeito, quando surge um obstáculo, este tem que ser vencido pela força. Se um inimigo se impõe, este tem de ser derrotado. Diante de um problema, sua reação é preparar-se para uma luta. Essas pessoas não acreditam no meio-termo, nas negociações e, certamente, na conciliação. Quem pertence a esse grupo geralmente despreza quem faz parte dos outros dois. Para eles, a ideia de ceder sem lutar – ou pior, se autodestruir – é absurda. As pessoas que pertencem ao terceiro grupo às vezes até gostam de problemas e obstáculos. Afinal, é sua chance de exercitar seus músculos, de mostrar como são poderosas, mesmo que elas, também, tombem em meio à batalha. Seu lema, como Sansão, é: “Que eu morra com os filisteus” (Juízes 16:30). “Pode ser que eu tombe”, argumentam, “mas farei tudo para que também caiam meus inimigos”. “Os exércitos do Faraó podem mesmo me vencer”, dizem, “mas eles, também, sentirão o gosto de sangue e cairão mortos”.
Há um quarto grupo de pessoas: aqueles que creem que a oração é a resposta para todos os problemas. “Como D’us é Onipresente e Onipotente”, raciocinam, “Ele pode bem cuidar de todos os meus problemas”. Tais pessoas obviamente não pertencem ao primeiro grupo de pessoas, pois quem tem uma profunda fé em D’us não se desespera. Eles também não pertencem ao segundo nem ao terceiro grupo, pois não creem em submissão nem em confrontação. Somente creem no poder da oração – em invocar a ajuda do Altíssimo.
A ordem é pra Marchar! – A abertura do Mar

A Torah Sagrada nos conta que D’us não aprovou as abordagens de nenhum dos quatro grupos – nem mesmo do quarto grupo. Pelo contrário, D’us diz a Moisés:
“Por que você clama a Mim? Diga aos filhos de Israel que MARCHEM!”(14:15)
O tema principal de Pessach é a liberdade, que, para o Povo Judeu, adveio em estágios. Primeiro vieram as Dez Chicotadas (Pragas), a seguir o Êxodo e, por fim, o milagre da divisão do Mar Vermelho. Esses relatos e as lições que deles tiramos são atemporais e universais. No decorrer de nossa vida, enfrentamos obstáculos – externos e internos. Ao longo de nossa história, nós enfrentamos muitos faraós, muitas legiões egípcias e muitos Mares Vermelhos. Alguns se atiram ao mar, outros voltam ao “Egito”, outros, ainda, decidem que a solução para lidar com um mundo hostil é a luta, e outros concluem que tudo que podem fazer é orar e esperar pelo melhor. Mas a melhor abordagem tem sido a que é recomendada pela Torah: MARCHAR!
A ordem Divina de MARCHAR (seguir em frente) se aplica ao Povo Judeu como um todo, e também a cada judeu em particular e a cada ser humano. Precisamos constantemente seguir em frente, mesmo diante de um Mar Vermelho cheio de ondas bravias. E quando seguimos em frente, os obstáculos não apenas se desfazem – eles se transformam em milagres.
Em seguida, D’us ordena a Moisés dizendo:
“E levantas a tua vara, e estendes o teu braço sobre o mar, e fende-o, para que os israelitas entrem no mar em terra seca.”(14:16)
D’us também revela a Moisés que ele iria punir os egípcios por terem atirado os meninos hebreus às águas do Nilo. Disse D’us a Moisés:
“E endurecerei o coração dos egípcios, para que entrem atrás deles; e obterei glória por meio do Faraó e de todos os seus guerreiros, seus carros e seus cavaleiros. Que os egípcios saibam que eu sou Adonay, quando eu obtiver glória por meio do Faraó, de seus carros e de seus cavaleiros.”(14:17-18)
Seguindo a ordem Divina, Moisés estende sua mão sobre o mar… Contam os rabinos por meio dos midrashim, que as águas não se abriram imediatamente. D’us esperava que primeiro os israelitas demonstrasse confiança Nele antes de realizar o grande milagre. Foi Nachshon ben (filho de) Aminadav, posteriormente líder da tribo de Judá, que entrou no mar e caminhou até as águas lhe chegarem à altura do pescoço. Acreditando que D’us os salvaria, confiando num milagre que é difícil até de se conceber, ele continuou com fé e bravura a caminhar pelas águas do mar, mesmo quando estava para se afogar. Só então o mar começou a se abrir. Durante toda a noite, D’us abriu as águas com um poderoso vento leste, transformando o leito do mar em terra seca. Apesar de Moisés ter estendido sua mão sobre o mar, foi D’us, Ele Mesmo, quem, por meio de um forte vento, dividiu as águas.
No início da alvorada, D’us lançou relâmpagos e fortes chuvas contra as tropas egípcias. Fez também se desprender as rodas de suas carruagens. Só então os egípcios perceberam o que realmente acontecia e gritaram: “Fujamos de Israel! D’us luta por eles contra o Egito!” Mas era tarde demais. Diz o Eterno novamente a Moisés:
“Estenda o braço sobre o mar, para que as águas voltem sobre os egípcios, sobre os seus carros e sobre os seus cavaleiros. Moisés estendeu o braço sobre o mar, e ao amanhecer o mar retornou ao seu estado normal, e os egípcios fugiram com sua aproximação. Mas Adonay lançou os egípcios no mar. As águas voltaram e cobriram os carros e os cavaleiros, todo o exército do faraó que os seguiu mar adentro; não sobrou nenhum deles.”(14:26—28)
Ao testemunhar um milagre que salvara os oprimidos e punira os opressores, os Filhos de Israel vivenciaram uma nova dimensão do Amor e da Justiça Divina. Os egípcios foram punidos da mesma maneira pela qual tentaram aniquilar o povo hebreu – morreram afogados.
“Mas os filhos de Israel atravessaram o mar em terra seca, enquanto as águas formavam um muro à direita e à esquerda”.(14:29)
Observação: Ao descrever a abertura do Mar Vermelho, a Torah descreve um único milagre: a divisão das águas. Em contraposição, é no âmbito do Talmud, Midrash, Cabalá e de todos os comentários dos sábios que podemos analisar e procurar entender, em pormenores, o milagroso acontecimento. O Midrash nos conta que na “abertura do mar”, D’us realizou não um, mas dez milagres para os Filhos de Israel. Todavia, essa abordagem vai ficar para o próximo ciclo de leitura da Torah.
O cântico do Mar Vermelho
O Cântico de Moisés, também conhecido como cântico do mar, é um dos textos mais significativos e profundos da Torah Sagrada. Composto por Moisés depois que os filhos de Israel atravessaram o Mar Vermelho, o cântico é uma expressão de gratidão e louvor a D’us por sua libertação e vitória sobre o Faraó e seu exército. Nele, Moisés exalta a grandeza de D’us, sua justiça e poder, e reconhece a fidelidade e o amor do Eterno para com o seu povo.
Além de ser uma expressão de gratidão, o Cântico de Moisés também possui um profundo significado teológico. Ele revela a soberania de D’us sobre todas as coisas e a sua capacidade de agir em favor daqueles que o buscam. Moisés reconhece que foi Adonay quem libertou Israel da escravidão no Egito e que é Ele quem os guiará até a Terra Prometida. Este cântico aponta, no futuro, a destruição de todos os adversários da justiça, e a vitória final do Povo de D’us. O apóstolo João em Patmos vê a multidão vestida de branco, dos que “saíram vitoriosos”, em pé sobre o “mar de vidro misturado com fogo”, tendo as “harpas de D’us. E cantavam o cântico de Moisés, servo de D’us, e o cântico do Cordeiro” (Apocalipse 15:2-3).
A libertação por meio de Moisés foi ao mesmo tempo uma redenção através do cordeiro de Pessach, Yeshua. Entretanto, no contexto do Apocalipse estará em primeiro plano que o cântico de Moisés foi cumprido por Yeshua, o Cordeiro de D’us que tira o pecado do mundo, e que por isso pode ser cantado validamente como cântico do Cordeiro. Estava prefigurada no judaísmo a expectativa por um segundo Moisés que, por fim, libertaria o povo de D’us integralmente. A passagem pelo Mar Vermelho era considerado como descrição antecipada da redenção messiânica.
Assim concluímos a primeira parte da Parashat Beshalach, dizendo: A ordem é pra MARCHAR!
Abençoado Seja O Eterno


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