
A serpente e Satan — Um comentário em pirkei deRabbi Eliezer
Quem foi Rabbi Eliezer?
Rabbi Eliezer ben Hyrcanus foi um dos maiores sábios do período tanaítico (século I – início do século II d.C.), pertencente à geração dos Tanaim, os rabinos cuja autoridade forma a base da Mishná. Ele viveu na época logo após a destruição do Segundo Templo (70 d.C.) e foi contemporâneo de grandes mestres, como: Rabban Yohanan ben Zakkai (seu mestre); Rabbi Yehoshua (seu colega e às vezes opositor); Rabbi Akiva (seu aluno).
Características
Discípulo de Rabban Yohanan ben Zakkai, Rabbi Eliezer é descrito como um estudante extremamente fiel e dedicado. Seu mestre dizia:
“Se todos os sábios de Israel estivessem de um lado da balança e Rabbi Eliezer do outro, ele pesaria mais que todos.”
Isso mostra seu altíssimo nível de conhecimento e rigor.
Citação de pirkei deRabbi Eliezer
“Imediatamente Adão se levantou e pronunciou os nomes de todas as Suas criaturas, como está escrito: ‘E o homem deu nome a todos os animais domésticos’ ( Bereshit/Genesis 2:20 ). Ao verem isso, os anjos ministradores recuaram e disseram: Se não tomarmos conselho contra este homem para que peque contra o seu Criador, não prevaleceremos contra ele”
Comentário
O episódio descreve um momento dramático da tradição rabínica: a reação dos anjos ao verem a sabedoria de Adão. Quando Adão se levanta e “pronuncia os nomes de todas as criaturas”, o texto não está apenas dizendo que ele escolheu nomes arbitrários para os animais. No pensamento judaico antigo, dar nome é revelar a essência. Os nomes que Adão deu refletem uma compreensão profunda da natureza espiritual e funcional de cada ser vivo. Isso demonstra uma capacidade quase celestial — algo que surpreende e até intimida os anjos.
Por isso, o midrash afirma que:
“Os anjos ministradores recuaram”
Eles reconhecem que o ser humano possui uma grandeza singular, uma capacidade intelectual e espiritual que o coloca acima até mesmo dos anjos em certos aspectos. O recuo é um sinal de admiração misturada com temor. Em seguida vem a frase mais forte:
“Se não tomarmos conselho contra este homem para que peque contra o seu Criador, não prevaleceremos contra ele.”
Este trecho expressa um tema central da literatura midrashica: o ser humano, quando está alinhado com sua missão divina, é praticamente invencível. Os anjos, sobretudo aqueles que desempenham o papel de acusadores (como Samael, no midrash), percebem que não podem “superar” o homem justo. O único modo de vencer o ser humano seria fazê-lo pecar, pois o pecado enfraquece sua relação com D’us e, portanto, sua autoridade espiritual. Isso conecta com uma ideia principal: A grandeza original do ser humano na criação. O homem é criado “à imagem de D’us”, com livre-arbítrio e discernimento — dons não concedidos aos anjos no mesmo grau.
No pensamento rabínico, especialmente no Pirkei deRabbi Eliezer, Samael e outros anjos acusadores sentem inveja da posição especial do ser humano. A queda no Éden é descrita como consequência direta dessa rivalidade. Isso ecoa também leituras posteriores no judaísmo e no cristianismo, onde Satanás atua como provador e acusador, tentando levar o homem ao erro para ter domínio sobre ele.
O texto ensina que: Adão, ao nomear os animais, demonstra uma sabedoria superior. Os anjos reconhecem essa superioridade humana. A única forma de derrotar o ser humano é fazê-lo pecar. O midrash revela uma tensão entre o homem e as forças espirituais acusadoras. A queda acontece não apenas por tentação, mas por inveja e oposição das forças celestes ao lugar especial do ser humano.
Citação de pirkei deRabbi Eliezer
“Samael era o grande príncipe no céu; o Chayyôth tinha quatro asas, o Serafim tinha seis e Samael tinha doze. O que fez Samael? Ele pegou seu bando, desceu e viu todas as criaturas que o Santo, bendito seja Ele, havia criado em Seu mundo, e não encontrou entre elas nenhuma tão hábil para o mal quanto a serpente, como está escrito: “Ora, a serpente era mais astuta que todos os animais do campo” ( Bereshit/Gênesis 3:1 ). Sua aparência era semelhante à de um camelo, e ele a montou e cavalgou. A Torá começou a clamar em alta voz, dizendo: “Por que, ó Samael! Agora que o mundo foi criado, é tempo de se rebelar contra o Onipresente? É tempo de se exaltar? O Senhor do mundo ‘se rirá do cavalo e do seu cavaleiro’”
Comentário
Aqui, Samael (Satan) aparece como uma entidade altamente elevada no céu — e também profundamente corrompida.
Samael como “o grande príncipe”
Dizer que Samael era um “grande príncipe no céu” indica: elevada hierarquia angélica, não um ser baixo ou monstruoso; acesso à presença divina e às cortes celestes; grande poder e autoridade sobre legiões (“pegou seu bando”). Essa visão difere do imaginário cristão posterior, onde Satan já é visto desde o início como caído. No judaísmo antigo, Samael é alto, glorioso — e perigoso.
O midrash mostra que Samael possui 12 azas, isso mostra mais mobilidade, mais poder, mais abrangência do que todas as outras ordens celestiais. Isto ressalta o contraste: quanto maior a altura espiritual, maior a queda potencial — um tema recorrente nos rabinos.
A busca pelo mal
“Não encontrou nenhuma tão hábil para o mal quanto a serpente”
Samael procura entre as criaturas um instrumento compatível com sua intenção de rebelião. A serpente, por sua astúcia, torna-se o parceiro ideal. A intenção do midrash não é zoológica; é simbólica: A serpente é astúcia ativa no mundo físico. Samael é astúcia espiritual. Rebeldes e Juntos, formam o vetor da tentação no Éden. A serpente torna-se o “corpo” e Samael o “cavaleiro”, como o texto diz. A aparência da serpente:
“semelhante a um camelo”
Este detalhe, estranho para leitores modernos, expressa: poder, imponência, mobilidade, aparência originalmente não rastejante. Antes da maldição de Bereshit/Gênesis (3:14), o midrash entende que a serpente tinha forma e postura majestosa. O camelo simboliza um animal alto e resistente.
“E ele a montou e cavalgou”
Esta frase é decisiva na teologia rabínica: Samael possui a serpente. Ele opera através dela. A serpente não fala por si mesma; é instrumento da rebelião espiritual. Isso cria uma leitura do Éden onde: a voz da serpente — a voz de Samael — a tentação. A ação direta do “acusador” é uma ponte muito forte entre o judaísmo antigo e a leitura depois adotada no cristianismo.
A Torá clama em alta voz. Este é um dos elementos mais poderosos do midrash:
“Ó Samael! É tempo de se rebelar contra o Onipresente? É tempo de se exaltar?”
A Torá personificada fala porque, no pensamento rabínico, ela existia antes do mundo. Ela é como um árbitro moral cósmico. A Torá diz que: o mundo está recém-criado, é hora de ordem, estrutura e equilíbrio, e Samael está tentando introduzir caos e rebelião. A Torá pergunta: Por que criar desordem agora, justamente no início da criação? É um protesto contra o abuso do “livre-arbítrio” angélico.
“O Senhor se rirá do cavalo e do seu cavaleiro”
Esta citação ecoa Jó 39:18 e outros textos: O “cavalo” é a serpente, o “cavaleiro” é Samael. O midrash diz que D’us “rirá” deles porque: a rebelião não mudará o plano divino, o poder de D’us é absoluto, no fim, tanto serpente quanto Samael serão humilhados. A confiança divina contrasta com a arrogância de Samael.
Este texto expressa três ideias centrais do judaísmo antigo:
Primeiro — O mal não nasceu pequeno — nasceu grande. Samael é poderoso, brilhante, majestoso. A queda vem da vaidade espiritual.
Segundo — A serpente não age sozinha. Ela é o instrumento físico do mal espiritual.
Terceiro — A rebelião ocorre contra D’us, mas atinge o homem. Samael mira o ser humano porque: Adão representa a imagem de D’us na terra. Adão recebeu autoridade sobre as criaturas. O homem, justo, possui poder maior que os anjos. Humilhar o homem era, para Samael, atacar o próprio plano divino.
Conclusão
Assim, fica claro e evidente que, no pensamento do judaísmo antigo, especialmente na obra Pirkei deRabbi Eliezer, o Satan não é uma força abstrata, nem um símbolo psicológico, nem uma metáfora literária. Ele possui nome, identidade, intenção e autonomia moral. O texto o chama diretamente de Samael, apresenta sua hierarquia celestial, descreve sua inveja contra o ser humano, sua rebelião contra o Eterno e sua atuação ativa na sedução da serpente. Ou seja: o Satan, no judaísmo antigo, é sim um ser pessoal e rebelde, com vontade própria, plenamente envolvido na tentação do Éden e no conflito espiritual com a humanidade. Isso não é invenção do cristianismo; ao contrário, é material profundamente enraizado nas tradições midráshicas e na Torá Oral preservada pelos Tanaim.
A verdade é que muitos “rabinos de internet” tentam esconder ou minimizar esses fatos, porque querem desvalorizar a Brit Ha’dashá e, por consequência, deslegitimar Yeshua como o Mashiach. Para isso, precisam negar tudo o que o judaísmo antigo ensinava sobre Satan como ser pessoal — porque as descrições do Novo Testamento se encaixam perfeitamente na mesma tradição midráshica que encontramos em obras como o Pirkei deRabbi Eliezer. Mas a literatura judaica clássica é clara: Samael é real, pessoal, maligno e rebelde. E o conflito entre as forças espirituais e o propósito de D’us na humanidade não começou no cristianismo — ele está presente desde os primeiros mestres de Israel, muito antes.


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