
Ha’Satan (O Satanás) segundo o Talmud
Comentário sobre Ha’Satan (O Satanás) no talmud Bava Batra 16a
Diante da discussão que foi levantada no grupo sobre a atuação do Satan, vamos comentar três citações do Talmud Bava Batra que tratam diretamente desse assunto. Essas passagens são fundamentais porque revelam como os sábios do Talmud compreendiam sua identidade, sua função e sua relação com outras forças espirituais, como a má inclinação (yetzer hará) e o Anjo da Morte. Assim, a partir deste ponto, vamos analisar e comentar as três referências de Bava Batra, observando o que cada uma acrescenta para a compreensão judaica sobre o Satan.
Vamos a citação do talmud
“Foi ensinado em uma baraita a respeito dos métodos de Satan: Ele desce a este mundo e induz a pessoa ao pecado. Em seguida, ascende ao Céu, acusa esse mesmo pecador e inflama a ira de D’us contra ele. Então, recebe permissão para agir e leva a alma do pecador como punição” (Bava Batra 16a)
Comentário
No texto citado os sábios descrevem a atuação de Satan, Yetzer ha’ra (má inclinação) e Mal’ach HaMavet (o Anjo da Morte). Aqui, o Talmud apresenta uma visão muito rica e complexa, mostrando que estes três não são entidades separadas em essência, mas três funções de um mesmo agente no drama espiritual humano.
A baraita (termo usado no estudo rabínico para designar ensinamentos da época da Mishná que não foram incluídos dentro da própria Mishná, mas que foram preservados e citados em outras coleções e no Talmud) descreve um ciclo em três etapas:
Primeiro — Ele desce e induz ao pecado. Aqui Satan aparece como o instigador, a força que testa e provoca o ser humano. No Judaísmo rabínico, essa função é semelhante ao papel descrito em Iyov (Jó), onde Satan não age por si só, mas como acusador e examinador, um fiscal espiritual que expõe a fragilidade moral do homem. Um agente maligno que cria desafios morais. Ele não força o pecado, mas sussurra, incentiva, sugere, colocando diante da pessoa uma escolha que revelará a sua verdadeira vontade.
Segundo — Ele ascende ao Céu e acusa o pecador. Depois de induzir, ele se transforma no promotor celestial, apresentando a queda da pessoa como prova da fraqueza ou da falta de mérito dela. É o papel de Satan como “o Acusador” – o sentido literal da palavra Satan (שָׂטָן): opositor, adversário, acusador judicial. Ele leva o pecado cometido e o coloca perante o tribunal celeste. Argumenta que o ser humano não é digno da proteção divina. Sua função é apontar o erro para que a Justiça Divina seja aplicada. Esse papel vem diretamente do livro de Jó, onde Satan aparece entre os “filhos de D’us” (anjos) trazendo relatórios e acusações.
Terceiro — Ele recebe permissão e tira a alma (Age como Anjo da Morte). Após acusar e provar a culpa, Satan recebe permissão para agir como Mal’ach Ha’Mavet — o Anjo da Morte. Isso mostra algo fundamental no pensamento rabínico: Satan não age de forma autônoma. Ele depende totalmente da permissão de D’us.
Ou seja, a punição não é um ato de vingança, mas um cumprimento do juízo divino. Essa baraita ensina três lições centrais:
A responsabilidade humana permanece intacta. Mesmo sendo tentado, o ser humano escolhe. Por isso a acusação tem peso.
Satan é parte da ordem divina, não um rival de D’us — mas dos homens. Ele desempenha funções no tribunal celestial, e todas elas sob autoridade divina.
O pecado gera um ciclo de consequências. O ensinamento mostra de forma pedagógica que: O pecado começa com uma inclinação. Gera uma acusação espiritual. E culmina em consequências reais, que podem ser físicas ou espirituais. A baraita não retrata Satan como um poder independente do mal, mas como um agente severo de D’us encarregado de testar, acusar e executar julgamentos. Esse ciclo nos ensina a temer o pecado, não Satan, pois: “Quem cumpre a vontade de D’us não tem nada a temer do acusador.” Assim, o foco do ensinamento é ética e responsabilidade, e não medo de forças demoníacas.
Citação do talmud
“Satan, a má inclinação e o Anjo da Morte são um só, ou seja, são três aspectos da mesma essência”. (Bava Batra 16a)
A afirmação pertence a Reish Lakish, e é uma das mais importantes para compreender a visão rabínica sobre o mal, a tentação e a morte. Ela ensina que Satan (acusador), Yetzer ha’ra (má inclinação) e Mal’ach Ha’Mavet (Anjo da Morte) não são três seres independentes, mas três manifestações funcionais de um único ser espiritual que D’us usa dentro do mundo. Reish Lakish está explicando que: Yetzer ha’ra é a atuação interna. Satan é a atuação judicial. Anjo da Morte é a atuação consequêncial, um ciclo completo.
O Grande princípio teológico de Reish Lakish é evitar o dualismo. No judaísmo rabínico: Não existe um “reino do mal” independente. Não existe um “deus do mal” independente. Satan não é rival de D’us. Ao dizer que essas três figuras são uma só, ele ensina que: O mal não tem existência própria — ele é funcional, limitado e subordinado. É parte do sistema moral do mundo criado por D’us para possibilitar o livre arbítrio e o mérito.
Citação do talmud
“Abaye disse a ele: Jó (9:24) estava se referindo aqui apenas a Satan, sendo ele o ímpio em cujas mãos a terra foi entregue” (Bava Batra 16a)
A pergunta dos sábios é: Quem é esse “ímpio”? Abaye responde: Jó estava falando de Satan.
Só Satan é o ímpio ao qual a terra foi entregue. O sentido é:
D’us dá autoridade limitada a Satan para agir no mundo. Essa autoridade faz parte do mecanismo de teste, acusação e julgamento. Satan age somente com permissão divina, como se vê no prólogo de Jó. Portanto, quando Jó diz que “a terra foi entregue ao ímpio”, isso não significa que Satan governa soberanamente, mas que: Ele recebeu espaço de atuação; Ele é usado como instrumento de provação; Ele não age por conta própria.
Na tentação no deserto, Satan diz a Yeshua:
“A mim foi entregue toda autoridade e glória destes reinos; e eu as dou a quem quiser.” (Lucas 4:6)
Essa frase ecoa exatamente a visão rabínica apresentada por Abaye: Satan reconhece que recebeu autoridade (“foi entregue”). Assim como Abaye diz que D’us permitiu a Satan agir na terra, Satan afirma que os reinos lhe foram dados. Isso mostra que: Satan não reivindica ter conquistado nada, ele admite que recebeu essa autoridade. Em ambos os textos, Satan tem poder delegado, não absoluto. O poder dele é temporário e funcional. Tanto no Talmud quanto na Brit Hadasha: Satan age apenas conforme a permissão de D’us. Seu papel é provar, testar, tentar e expor o coração humano. Ele faz parte de um cenário de julgamento moral.
No caso de Yeshua, Satan tenta provocar: orgulho ambição, glória, domínio político. Da mesma forma que em Jó, Satan age como instigador dentro de um teste autorizado por D’us.
Quem é Satan?
O ímpio a quem “a terra foi entregue”
A entidade que diz:
“Tudo isto me foi entregue”
De onde vem seu poder?
De permissão divina, de autoridade delegada (“foi entregue”)
Função principal
Provar, acusar, punir.
Conclusão
Quando Abaye diz que “a terra foi entregue a Satan”, ele descreve o mesmo cenário espiritual que aparece no deserto: Satan tem autoridade delegada. Ele usa essa autoridade para testar. Ele não pode agir fora dos limites determinados por D’us. O Tánach, o Talmud e a Brit Ha’dashá convergem para uma mesma visão:
Satan é um agente mal, que testa e acusa, nunca um soberano. O verdadeiro governo sempre pertence a D’us.
De acordo com a visão talmúdica, o Satan é, de fato, compreendido como um ser pessoal e maligno, uma força real que opera no mundo. Contudo, o Talmud deixa claro que ele não age por conta própria. Toda sua atuação depende da permissão do Todo-Poderoso, pois nada escapa ao controle divino. Embora seja um ser mau — criado já com essa essência — sua existência e suas ações continuam subordinadas ao decreto celestial.
Dentro dessa perspectiva, entende-se que, por ser essencialmente maligno, houve sim uma rebelião, pois ele desejou ser mais do que o Eterno determinou para ele. Porém, o tema dessa rebelião, suas implicações e as fontes que a sustentam serão tratadas em outra oportunidade. Quando voltarmos a esse assunto, traremos passagens do Tanach e também fontes judaicas externas que nos ajudarão a aprofundar essa questão de maneira mais completa.


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