Shau’l tornou desprezível a kashrut (lei da alimentação apropriada) ?

Geralmente, o ser humano tende a tirar suas conclusões a partir das suas próprias percepções e não da realidade dos fatos. Esse é o jeito certo de julgar errado e gerar injustiças que acabam impactando nos relacionamentos amorosos, familiares, religiosos e até nas relações de trabalho. Isso, a maioria das pessoas sabe, o que elas não sabem é que esse tipo de julgamento, além do ressentimento profundo, faz sentir-se injustiçado e afasta a sua paz. O sentimento de injustiça surge por inúmeros motivos, pode ser por traição, pela falta de reconhecimento, ingratidão e também por incompreensão dos fatos, seja por atos ou palavras. Ao sofrer uma injustiça, você provoca uma força interna que diz ao universo o quanto está insatisfeito, o quanto se sente frágil e vítima da circunstância. Agindo assim, você está retendo o sofrimento na sua alma, ao invés de transmuta-lo pela força da sua consciência sobre os fatos e seus atos.
Uma das questões mais intrigantes sobre injustiça, é quando o injustiçado não tem a chance de se defender. As vezes eu fico pensando qual seria a reação de Shau’l Ha’shaliach (Apóstolo Paulo) frente as pessoas que o julgam de forma errada. Shau’l é um grande injustiçado por pessoas que fazem análises errôneas e até mesmo tendenciosas de suas cartas no “Novo Testamento”. No entanto, Shau’l era um grande judeu e defensor árduo das práticas judaicas. Todavia, é comumente tratado como o mais anti-judaico pelos cristãos. Muitos teólogos durante a história foram, e são defensores da teologia que afirma que Shau’l era oposto ou contra a Torah (“Lei”). Até mesmo os judeus afirmam isto, que Shau’l não viveu como judeu porque desmotivou os judeus a viverem como tais. Porém, há uma grande inverdade contida neste conceito. De forma resumida, abordaremos nesse estudo, um tema que desmente qualquer possibilidade de Shau’l ter sido (ser) contra a lei.
A ideia de Shau’l ser contra a lei não é algo novo. Ao discutir as cartas de Shau’l, o seu contemporâneo Keifá (Pedro) escreveu que nelas e em algumas outras partes das Escrituras (“Velho Testamento”) existem “certas coisas difíceis de entender”. Essas palavras são deturpadas ou modificadas por pessoas “ignorantes e instáveis […] para a própria destruição” (2 Pedro 3:16). Keifá não disse que todas as coisas são difíceis de entender, mas que apenas algumas são.
E sabemos disso, não é mesmo ? Qual leitor sincero da B’rit Chadashá (“Novo Testamento”) já não se deparou com textos que parecem estranhos e difíceis de entender ? Certamente, em algum momento, todos já tivemos essa experiência.
1 Coríntios 10:25 em seu contexto (judaico) original

“Comam de tudo o que se vende no açougue, sem fazer perguntas por causa da sua consciência”(1 Coríntios 10:25)
De acordo com o ponto de vista Cristão: Os cristãos não estão sob as restrições da Lei quanto a alimentos puros e impuros. Requer-se deles abster-se do sangue e de coisas estranguladas, quer dizer, de coisas que não foram devidamente sangradas. Mas, fora desta injunção bíblica, não devem criar caso quanto a comer ou a abster-se de comer certos tipos de alimentos, nem tentar reger a consciência de outrem segundo a sua própria consciência no que se refere a consumir alimentos. No entanto, são advertidos contra o consumo de alimentos como oferenda a ídolos e contra fazer outros tropeçar por insistirem em exercer sua liberdade cristã quanto ao consumo de alimentos.(Publicação das testemunhas de Jeová, Estudo Perspicaz das Escrituras, volume 1 pág. 89).
Em um blog cristão, encontrei a seguinte explicação para as palavras de Shau’l:
“No passado, a religião pagã era muito popular na Grécia, e a cidade de Corinto era uma grande comunidade religiosa. Os Coríntios eram altamente influenciados pela religião baseada em costumes e práticas pagãs. Como os cristãos eram minoritários na cidade, eles estavam preocupados com a possibilidade de serem influenciados pelos costumes e práticas pagãs.No entanto, Paulo afirma que os cristãos não precisam se preocupar com o que comer em um templo pagão. Eles podem comer qualquer coisa que seja vendida no mercado sem se preocupar com seus sentimentos de culpa. Isso porque Deus aceita os alimentos que os cristãos comem e todas as outras coisas que são oferecidas a Ele. Deus não exige um padrão rígido de comportamento religioso. Em última análise, o versículo 25 de 1 Coríntios 10 ensina que os cristãos podem se beneficiar dos bens materiais deste mundo sem se preocupar com suas consciências. No entanto, eles devem manter seus corações e mentes focados no Deus verdadeiro”.(versículo.com)
Esses tipos de comentários são feitos por cristãos comilões que não conseguem ou simplesmente não querem seguir as recomendações prescritas na Torah acerca da kashrut (lei da alimentação apropriada para o consumo). Eles, por não entenderem, não conhecerem ou simplesmente ignorar o contexto judaico do “Novo Testamento”, deturpam os ensinamentos dos Sh’lichim (apóstolos) concernente a Torah, principalmente sobre os alimentos puros e impuros.
Podemos, de fato, comer de tudo que se vende no mercado ? Como entender a fala de Shau’l ?

É muito simples, basta pegar a massa do pão, bater bem os parafusos no liquidificador, pôr um pouco de sal no óleo de freio, invernizar bem a carne e passar o ferro de engomar. E não pode esquecer a vara de bambu, se não tiver uma vara de bambu, pode ser um copo de vidro. Entendeu ? É assim que os ingnorantes entendem as palavras de Shau’l.
Basta tão somente analisarmos o contexto histórico judaico para entendermos a fala de Shau’l aos coríntios. Shau’l era Judeu, nascido em Tarso da Cilícia, criado em Jerusalém aos pés do Rav Gamaliel, instruído conforme a verdade da Torah (lei) dos seus pais e zeloso por D’us (Atos 22:3). Portanto é natural termos em mente que ao falar sobre qualquer alimento para ser consumido, Shau’l esteja falando dos que a Torah nos permite comer.
Resgatando o contexto histórico judaico do “Novo Testamento”, o Rosh (líder) da congregação B’nei Or, e também escritor Tsadok Ben Derech, em sua Peshita (O Novo Testamento traduzido diretamente do Aramaico), em uma nota de roda pé explica o versículo da seguinte maneira:
¹³⁹ Ou: mercado de carnes. Aramaico: ܒܡܩܠܘܢ. Está palavra aparece no Talmud da seguinte forma: מקולין (mekulin). Trata-se de um mercado de carne de propriedade de gentio, mas que emprega açougueiros judeus. Dispões o Talmud em Chulin 95a: “A Gemará observa que o Rabino Yehudá HaNasi está de acordo com a linha padrão de raciocínio, como disse: Se há açougues em uma cidade e açougueiros judeus preparam a carne, qualquer carne encontrada na posse de um gentio, ou seja, em um açougue de gentios, é permitida”. Esta carne é permitida pela seguinte razão: Não há a preocupação de que a carne não seja kasher, porque o açougueiro judeu não teria entregue a um gentio para vender em seu açougue.
Assim não resta dúvidas de que Shau’l fez referência aos alimentos Kasher (apropriados) que são vendidos nos açougues gentílicos.
Abençoado seja O Eterno

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