A Primeira Carta de Yochanan

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Bkriyah tovah (Boa leitura).

Primeira Carta de Yochanan (João): Contexto Original — Um Mergulho no Primeiro Século

Daremos continuidade ao nosso estudo da Primeira Carta de Yochanan. Após termos examinado os fundamentos apresentados no início da epístola — especialmente os temas da comunhão, da luz e da realidade do pecado — avançamos para uma nova etapa do texto.

(Confira o estudo do primeiro capítulo clicando no link a seguir: Primeira Carta de Yochanan Capitulo 1.)

Neste momento, entramos no capítulo 2, onde Yochanan aprofunda suas exortações e esclarece questões centrais da fé, como o pecado, a obediência, o mandamento do amor e a relação do discípulo com o Mashiach. Esse capítulo não surge de forma isolada, mas está diretamente ligado ao que foi exposto anteriormente, funcionando como uma continuação lógica e teológica do argumento do autor. Assim, ao iniciarmos o estudo de 1 Yochanan, capítulo 2, é fundamental mantermos em mente o encadeamento do pensamento do autor, permitindo que o próprio texto nos conduza à sua mensagem dentro do contexto original, com atenção ao seu propósito, linguagem e implicações espirituais.

Primeira Carta de Yochanan (João) — Capítulo 2

Texto

“Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Yeshua, o Justo.” (vs 1)

Comentário

“Meus filhinhos” — Linguagem rabínica. A expressão não é apenas afetiva. No judaísmo, um Rabino (mestre) chama seus Talmidim (discípulos) de “filhos”, pois ele os gera no conhecimento da Torah. Yochanan escreve como um Rabino instruindo sua comunidade a andar corretamente diante de Elohim. O objetivo principal é claro: “para que não pequeis”. No pensamento judaico, o ideal nunca é o pecado, nem mesmo com a ideia de perdão posterior. A Torah sempre chama o homem à retidão prática (halachá). Halachá (הֲלָכָה) é o conjunto de leis, normas e orientações práticas do judaísmo, que regulam como o judeu deve viver no dia a dia — na vida religiosa, ética, social e até civil. A palavra halachá vem do verbo hebraico הלך (halách), que significa “andar” ou “caminhar”. Ou seja, halachá é “o caminho a ser seguido”, a maneira correta de viver segundo a vontade de Elohim.

“E se alguém pecar…” — Realidade humana. Aqui Yochanan reconhece algo muito presente na tradição judaica: O ser humano pode tropeçar (nichshal), mesmo desejando obedecer. Isso não é licença para pecar, mas realismo espiritual, semelhante ao que vemos em: Eclesiastes 7:20 — “Na verdade que não há homem justo sobre a terra, que faça o bem, e nunca peque.” e Salmo 143:2 — “E não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não se achará justo nenhum vivente.” No judaísmo, o pecado não rompe automaticamente a relação com Elohim, desde que haja retorno (teshuvá).

“Temos um Advogado” — Conceito jurídico judaico. A palavra grega parákletos reflete um conceito judaico bem conhecido: o intercessor/defensor no tribunal celestial. Na literatura judaica: Elohim é o Juiz. O homem é o réu. A Torah é o padrão. Pode haver um defensor justo. Yeshua aparece aqui como alguém que intercede com justiça, dentro da lógica do tribunal divino.

“Yeshua, o Justo” — צדיק (Tsadik). No judaísmo, o Tsadik não é alguém que morre para anular pecados alheios, mas alguém cuja vida justa tem valor diante de Elohim. O argumento de Yohanan é: Nosso defensor é alguém que viveu em plena fidelidade a Elohim. Isso ecoa a ideia bíblica de: Yiov (Jó), Moshê (Moisés) e Samuel. Justos que intercedem, não que substituem a responsabilidade moral do povo.

Texto

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” (vs 2)

Comentário

A “propiciação” nos cultos pagãos era a tentativa humana de aplacar deuses irados para evitar castigos ou obter benefícios como chuva, vitória e fertilidade. Essa prática nascia do medo, pois os deuses eram vistos como instáveis, caprichosos e facilmente irritáveis. Ela se manifestava por meio de sacrifícios de sangue (inclusive humanos), ofertas materiais, automutilação, prostituição cultual e rituais mágicos, com a ideia de que quanto maior o sacrifício, maior seria o favor divino. Não havia perdão verdadeiro, apenas barganha contínua, o que gerava insegurança, ansiedade e repetição ritual. A Torah rejeita essa lógica. Elohim não precisa ser alimentado nem manipulado por rituais. No Tanach, o termo כפר (kapar) significa remover ou cobrir o pecado, não subornar Elohim. Os profetas denunciaram sacrifícios vazios e ensinaram que Elohim busca arrependimento, justiça e fidelidade, não trocas mágicas. Enquanto a propiciação pagã se baseia no medo e na barganha, a visão da Torah afirma um Elohim justo e misericordioso, que não é manipulado e que deseja um relacionamento verdadeiro, não rituais vazios.

O pano de fundo aqui é Levítico (Vayikrá). O conceito central é כפרה – kapará (cobertura, purificação, restauração de relação). O sangue não comprava perdão, o sangue era o meio ritual. O arrependimento (teshuvá) era indispensável. Yochanan não diz que Yeshua substitui o arrependimento, nem que elimina a Torah. Ele apresenta Yeshua como: instrumento de purificação, meio de restauração, referência de justiça diante de Elohim. Assim como no Templo, o ritual não funcionava sem coração quebrantado. Aqui também, não há kapará sem arrependimento.

“Não somente pelos nossos, mas pelos de todo o mundo”. No judaísmo do Segundo Templo, já existia a expectativa de que: O Elohim de Israel é Elohim das nações. A redenção final alcançaria os gentios. Yochanan não está dizendo que “todos estão automaticamente perdoados”, mas que: o alcance da purificação não é étnico, mas universal. Isso está em harmonia com: Isaías 49:6; Zacarias 14:16. A ideia do Elohim único para toda a humanidade. Dentro do contexto original judaico, Yochanan ensina que: O pecado não é desejável, o arrependimento continua sendo essencial, Yeshua é apresentado como: Tsadik (Justo) Intercessor, Meio de kapará. Não como alguém que anula a Torah, mas como alguém que opera dentro da lógica da Torah. O foco não é “pecar e confiar no sacrifício”, mas andar na luz, e quando houver queda, retornar com verdade diante de Elohim.

Texto

“E nisto sabemos que o conhecemos: Se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade. Mas qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Elohim está nele verdadeiramente aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele. Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou” (vs 3—6)

Comentário

“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos” (v.3)

“Conhecer” (hebraico: yada). No pensamento judaico, “conhecer” nunca é apenas intelectual. Yada significa conhecer por relacionamento e prática. Exemplo: “Adão conheceu Eva” (Gn 4:1) — relação real, não teoria. “Apenas a vós conheci de todas as famílias da terra” (Amós 3:2) — escolha e aliança. Portanto, Yochanan está dizendo: Sabemos que estamos em relacionamento de aliança com Elohim se vivemos segundo os Seus mandamentos. Isso reflete diretamente o Shemá:

“Ouve, Israel… amarás o Eterno… e guardarás estas palavras.” (Devarim/Deuteronômio 6:4—6) No judaísmo do primeiro século, amar é sinônimo de obediência.

“Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso” (v.4)

Aqui Yochanan combate uma ideia muito comum no mundo helenista: dizer que se conhece Elohim (Deus) apenas por “iluminação espiritual” ou “conhecimento interior”. Alguns grupos (proto-gnósticos) afirmavam: “Tenho conhecimento espiritual”“Meu corpo não importa”“Minhas ações não definem minha relação com Deus”. Yochanan responde como um judeu fiel à Torah: Não existe fé verdadeira sem obediência concreta. Isso ecoa Provérbios:

“Quem desvia os ouvidos de ouvir a Torah, até sua oração é abominação.” (Provérbios 28:9)

Para Yochanan, dizer “conheço Elohim” e viver em desobediência é uma contradição moral e espiritual.

“Mas qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Elohim está nele aperfeiçoado” (v.5)

“Guardar a palavra”. No judaísmo, guardar (shomer) significa: proteger, praticar, viver com zelo. Não é obediência mecânica, mas lealdade de aliança. “O amor de Elohim aperfeiçoado”. Isso não significa que Elohim começa a amar mais a pessoa, mas que: o amor de Elohim atinge sua finalidade na vida do fiel. É exatamente a lógica da Torah:

“Agora, pois, ó Israel, que é que Adonay teu Elohim pede de ti, senão que temas Adonay teu Elohim, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirva a Adonay teu Elohim com todo o teu coração e com toda a tua alma. Que guardes os mandamentos de Adonay, e os seus estatutos, que hoje te ordeno, para o teu bem?” (Devarim/Deuteronômio 10:12–13)

“Nisto conhecemos que estamos nele” (v.5b)

A expressão “estar nele” não é mística abstrata. No judaísmo, isso equivale a: permanecer na aliança, viver sob o senhorio de Elohim.

“Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou” (v.6)

Aqui Yochanan apresenta Yeshua como o modelo judaico perfeito. “Andar” é linguagem rabínica: Halachá — modo de vida prático, como alguém interpreta e vive a Torah. Yochanan está dizendo: Se alguém afirma permanecer em Elohim, deve viver segundo a Halachá de Yeshua. E como Yeshua andou?

Yeshua não apenas falou sobre a Torah — ele a guardou na prática e ensinou outros a guardarem. Abaixo estão provas claras, diretas e bíblicas, dentro do contexto judaico do primeiro século. Yeshua como modelo perfeito da Torah, desafia seus ouvintes:

“Quem dentre vós me convence de pecado?” (Yochanan/João 8:46)

No mundo judaico de Yeshua, “pecado” (חטא chatá) não era uma noção abstrata ou apenas “interior”. Ela estava ligada a transgressão concreta da Torah, especialmente: Violação explícita dos mandamentos, quebra pública da halachá, conduta moral que desqualificasse alguém como mestre (rabi).

Quando Yeshua pergunta “Quem me convence de pecado?”, Ele está usando linguagem jurídica, não devocional. A cena é um debate forense rabínico. Yochanan 8 está estruturado como uma disputa pública, muito semelhante aos debates registrados na Mishná e no Talmud: Um mestre faz uma afirmação, e os ouvintes tentam refutá-lo. A refutação exige testemunhas ou prova concreta. Segundo a Torah:

“Uma só testemunha não se levantará contra alguém por qualquer iniquidade…” (Devarim/Deuteronômio 19:15)

Portanto, Yeshua desafia: Apresentem uma transgressão objetiva da Torah. E ninguém consegue. Yeshua está dizendo: “Vocês não conseguem provar que eu violei a Torah.” Isso é coerente com outras declarações:

“Não vim abolir a Torah, mas ensinar de forma plena” (Matityahu 5:17)

“Faço sempre o que agrada ao Pai” (Yochanan 8:29)

No judaísmo, obedecer à Torah é agradar a Elohim. O problema não é pecado, é autoridade. O verso tem duas partes: “Quem me convence de pecado?” “Se digo a verdade, por que não credes em mim?” A lógica é clara: Se não há pecado — não há desqualificação moral — logo, a rejeição não é ética, mas ideológica. Os líderes não rejeitam Yeshua porque Ele “viola” a Torah,mas porque Ele interpreta a Torah com autoridade. No judaísmo antigo, um mestre só podia ser rejeitado legitimamente se: Ensinasse idolatria; Incentivasse quebra da Torah; Tivesse conduta moral reprovável. Nenhuma dessas acusações se sustenta contra Yeshua. Por isso, no próprio Talmud posterior, as críticas a Ele (se é que são) não são haláchicas, mas políticas ou identitárias — um reconhecimento indireto de que não conseguiram acusá-lo de violar a Lei.

Yeshua nasceu judeu, viveu como judeu, guardou a Torah, ensinou a Torah, corrigiu distorções, revelou o coração do Pai. Seguir Yeshua não é abandonar a Torah. É andar como ele andou.

Yeshua e o Shabat

Trabalhando no contexto judaico do primeiro século, sem leituras anacrônicas posteriores, podemos demostrar de forma textual e contextual que: Yeshua guardou o Shabat; Nunca violou o Shabat; Corrigiu interpretações erradas; Ensinou como guardar o Shabat corretamente, segundo a Torah. Antes de analisar os textos, é essencial afirmar um ponto básico: A Torah proíbe o Mashiach (Cristo) de ensinar contra a Lei.

“Nunca se levantará profeta… que te ensine a desviar do caminho que Adonay ordenou” (Devarim/Deuteronômio 13:1–5)

Se Yeshua tivesse violado o Shabat, ele: Não poderia ser considerado justo; Não poderia ser Rabi; Não poderia ser o Mashiach (Cristo). As Bessorot (evangelhos) afirmam que ele guardava o Shabat regularmente: Lucas afirma:

“Foi a Nazaré, onde fora criado, e, segundo o seu costume, entrou na sinagoga no dia de Shabat.” (Lucas 4:16)

“Segundo o seu costume” indica prática contínua.

Nos textos dos evangelhos (Mateus 12:1–8 | Marcos 2:23–28 | Lucas 6:1–5), os talmidim (discípulos) colhem espigas e esfregam com as mãos para comer. Os fariseus acusam dizendo: “Por que fazem o que não é lícito no Shabat?” A Torah permite isso:

“Quando entrares na seara do teu próximo, com a tua mão arrancarás as espigas; porém não porás a foice na seara do teu próximo.” (Devarim/Deuteronômio 23:25)

Este versículo faz parte de um conjunto de leis sociais que regulam a convivência comunitária em Israel. São mandamentos práticos, voltados para a vida diária no campo, onde a maioria do povo vivia da agricultura. O texto trata do direito de matar a fome, não de propriedade privada absoluta. A Torah protege tanto o necessitado quanto o proprietário. O princípio central é misericórdia com limites. A Torah permite: Arrancar espigas com a mão — matar a fome imediata. Mas proíbe: Usar a foice — colher de forma planejada, lucrativa ou abusiva. Ou seja: Necessidade não exploração; Socorro não roubo. O foco não é “pegar”, mas saciar a fome momentânea. Quando os discípulos de Yeshua colhem espigas com a mão no Shabat, eles não roubaram, não colheram com ferramentas. Eles agiram dentro da Torah. O conflito ali não era a Torah, mas interpretações rigorosas posteriores. Yeshua cita: Davi comendo os pães da proposição, Sacerdotes que “trabalham” no Shabat e não pecam.

“Se soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes.” (Matityahu/Mateus 12:7)

Assim, os discípulos são declarados inocentes, Yeshua não anula o Shabat. Ele corrige o legalismo excessivo.

Pikuach Nefesh (פיקוח נפש) e as curas de Yeshua no Shabat.

No judaísmo, pikuach nefesh é o princípio segundo o qual a preservação da vida humana tem prioridade sobre quase todos os mandamentos da Torah, inclusive as restrições do Shabat. Esse princípio não é uma invenção posterior, mas está enraizado na própria Torah e amplamente discutido na tradição dos sábios. A base bíblica encontra-se em textos como Vayikra:

“Guardareis os meus estatutos e os meus juízos; os quais, cumprindo-os, o homem viverá por eles.” (Vayikra/levítico 18:5)

Os sábios entendem: “viverá por eles” — e não morrerá por causa deles. A Torah foi dada para promover a vida, não para destruí-la. O Talmud afirma explicitamente que o Shabat pode e deve ser violado quando a vida está em risco:

“O perigo à vida suspende o Shabat… Profana-se um Shabat para que a pessoa possa guardar muitos Shabatot.” (Tratado de Yoma 85b)

Isso significa que agir para salvar ou preservar a vida no Shabat não é violar o Shabat, mas cumprir a vontade de Elohim. Mesmo quando há dúvida se existe risco real à vida, os sábios ordenam agir imediatamente. Além disso, a literatura rabínica reconhece que doença não é apenas morte iminente, mas também condições que podem se agravar ou causar sofrimento grave. Dentro desse contexto, as curas realizadas por Yeshua no Shabat não representam uma quebra da Torah, mas uma aplicação correta e profunda de pikuach nefesh. Quando Yeshua pergunta:

“É lícito, no Shabat, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou destruí-la?” (Lucas 6:9)

Ele está ecoando exatamente a lógica rabínica: o Shabat não pode ser usado como desculpa para omissão diante do sofrimento humano. Em outro exemplo, ao curar alguém e comparar a situação a resgatar um animal que caiu num poço no Shabat, Yeshua usa um argumento já conhecido entre os sábios: se é permitido salvar um animal para evitar perda e sofrimento, quanto mais salvar uma vida humana, criada à imagem de Elohim. Não violação, mas fidelidade à Torah. Yeshua não violou o Shabat. Ele rejeitou interpretações rígidas e desumanizadas que colocavam cercas acima do propósito original da Torah. Sua prática está alinhada com o princípio rabínico de que: O Shabat foi dado para o bem do ser humano. A vida tem precedência sobre rituais. Misericórdia (chesed) é central na obediência a Elohim. Isso está em harmonia com a máxima judaica: “Os caminhos da Torah são caminhos de paz.”

Portanto, as curas de Yeshua no Shabat devem ser entendidas como: Aplicação de pikuach nefesh, continuidade da ética judaica, defesa da vida contra interpretações legalistas, fidelidade ao espírito da Torah, não sua negação. Assim, Yeshua se apresenta não como um transgressor do Shabat, mas como um mestre judeu que o viveu e ensinou segundo seu propósito mais elevado: preservar e restaurar a vida.

Yeshua e as moedim (festas da Torah)

A palavra מוֹעֲדִים – Moedim é o plural de מוֹעֵד – Moed e significa “tempos determinados”, “encontros marcados” ou “datas designadas”. Na Torah, os Moedim não são apenas festas culturais, mas convocações divinas, momentos em que Elohim marca um encontro com o Seu povo:

“Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: As festas (moedim) do Eterno, que proclamareis como santas convocações, são estas.” (Vayikra/Levitico 23:2)

Os Moedim formam o calendário sagrado de Israel, estruturando a vida espiritual do povo: Shabat – o moed (encontro) semanal; Pessach – libertação do Egito; Chag HaMatsot (Pães Asmos); Yom HaBikurim (Primícias); Shavuot – entrega da Torah; Yom Teruah (Rosh Hashaná); Yom Kipur – expiação; Sucot – habitação e alegria; Shemini Atseret – encerramento solene. Todas essas datas são chamadas “Moedim do Eterno”, não “festas dos judeus”.

Yeshua viveu como um legítimo judeu do primeiro século, plenamente inserido na vida religiosa de Israel. Isso inclui exatamente a observância das festas estabelecidas por Elohim na Torah, que não eram apenas rituais, mas memoriais vivos da história, da identidade e da redenção do povo judeu. As Bessorot (evangelhos) mostram claramente Yeshua participando dessas festas, subindo a Jerusalém e ensinando nelas, revelando seu significado mais profundo.

Pessach – A Festa da Redenção

Lucas (2:41) registra: “Seus pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa do Pessach.” Matityahu/Mateus (26:17–19) descreve Yeshua ordenando a preparação da refeição pascal. Lucas (22:15) detalha: “Desejei muito comer convosco esta Pessach antes do meu sofrimento.”

Pessach relembra a libertação do Egito, a saída da escravidão e o nascimento de Israel como povo. Celebrar Pessach era (é) um mandamento da Torah. Yeshua celebrou Pessach todos os anos, conforme o costume judaico. Ensinou durante a ceia, reinterpretando os símbolos à luz da redenção que Elohim realiza. Não aboliu Pessach; viveu seu significado: libertação, fidelidade a Elohim e esperança messiânica. Yeshua não substitui Pessach por outra celebração, mas se apresenta dentro do significado da festa, como alguém que vive plenamente a redenção de Elohim.

Sucot – A Festa da Habitação e da Alegria

“E estava próxima a festa dos judeus, chamada a dos tabernáculos (Sucot)… Porém, depois que seus irmãos já tinham subido, então subiu ele também à festa, não manifestamente, mas como em oculto… Mas, no meio da festa, subiu Yeshua ao templo, e ensinava” (Yochanan/João 7:2,10,14)

Sucot celebra: A peregrinação no deserto; A presença de Elohim habitando com Israel; A alegria pela provisão divina. Durante Sucot havia a cerimônia da água, pedindo chuva e vida. A iluminação do Templo, simbolizando a luz divina. Yeshua participa ativamente da festa, não à margem dela. Ele usa os símbolos da água e da luz para ensinar verdades espirituais, conectadas ao que a própria festa já ensinava. Yeshua ensina a partir dela, como um rabi judeu. Ele se insere na pedagogia da Torah, revelando o sentido espiritual sem negar o mandamento.

Chanuká – A Festa da Dedicação

“Celebrava-se em Jerusalém a festa da Dedicação (Chanuká), e era inverno. Yeshua andava no Templo, no Pórtico de Salomão.” (Yochanan/João 10:22-23)

Chanuká não está na Torah escrita, mas surgiu da história judaica (1 Macabeus): Celebra a purificação do Templo; A fidelidade à Torah; A resistência contra a assimilação pagã. Mesmo não sendo uma festa bíblica, Chanuká era amplamente celebrada no judaísmo do primeiro século. Yeshua está presente no Templo durante Chanuká. Ensina ali, no contexto da festa. Não critica a celebração, nem se afasta dela. Isso mostra que Yeshua respeitava não só a Torah escrita, mas também a memória histórica e espiritual de Israel.

O Que Isso Nos Ensina? Yeshua guardou as festas da Torah. Ele não as aboliu. Viveu como um judeu fiel. Ele ensinava a partir das festas. Usava seus símbolos. Revelava seu sentido profundo. Não há ruptura entre Yeshua e a Torah. Há continuidade. Ele é um mestre dentro do judaísmo do seu tempo. Como ele mesmo disse:

“Não penseis que vim abolir a Torah ou os Profetas; não vim abolir, mas ensinar de forma plena”(Matityahu/Mateus 5:17)

Yeshua celebrou Pessach, Sucot e Chanuká não como alguém distante da tradição judaica, mas como parte viva dela. Ele subiu a Jerusalém, participou das festas, ensinou nelas e revelou sua profundidade espiritual. Longe de rejeitar a Torah, Yeshua viveu a Torah, ensinou a Torah e mostrou como ela aponta para uma vida de fidelidade, redenção e comunhão com Elohim.

Yeshua e a Kashrut (leis alimentares)

Kashrut é o conjunto de leis alimentares da Torah que orienta o que o povo de Elohim pode ou não comer e como os alimentos devem ser preparados. Essas leis aparecem principalmente em Vayikra e Devarim. De forma geral, a kashrut define: Quais animais são permitidos (kasher), como os que têm casco fendido e ruminam. A proibição do consumo de sangue. Regras específicas sobre o abate (Shechitá). Mais do que uma dieta, a kashrut é uma prática espiritual que ensina santidade, disciplina e obediência a Elohim, lembrando diariamente que até o ato de comer faz parte do serviço ao Eterno.

Não há nas Bessorot (evangelhos) qualquer registro de Yeshua comendo alimentos proibidos pela Torah ou incentivando seus discípulos a fazê-lo. Pelo contrário, Ele frequentava sinagogas, participava das festas da Torah (como já explicamos) e se movia dentro do padrão de vida judaico normativo. Em uma sociedade onde a kashrut era parte essencial da identidade e da santidade do povo, a quebra dessas leis teria causado escândalo imediato — algo que não aparece nas acusações feitas contra Ele. Quando Yeshua aborda questões alimentares, como no debate sobre “pureza” em Marcos 7, o foco não está na revogação da kashrut, mas na crítica às tradições humanas que haviam distorcido o propósito da Torah.

Ele confronta a ideia de que a impureza moral vem apenas de fatores externos, ensinando que o pecado nasce do coração. Em nenhum momento ele declara lícitos os animais que a Torah chama de impuros; essa é uma leitura posterior, desconectada do contexto judaico original. Além disso, Yeshua afirma explicitamente (como já mostramos aqui) que não veio abolir a Torah, mas cumpri-la. “Cumprir”, no pensamento judaico, significa viver, ensinar e aplicar corretamente a instrução divina. Assim, ensinar seus discípulos a obedecerem aos mandamentos do Eterno incluía também os mandamentos alimentares, que fazem parte da santidade diária do povo de Israel.

Os próprios discípulos continuaram observando a kashrut após a ressurreição. Em Atos, vemos Keyfá (Pedro) declarando que nunca havia comido nada impuro — evidência clara de que os seguidores de Yeshua não entenderam seus ensinamentos como uma anulação das leis alimentares. Portanto, Yeshua guardou a kashrut, ensinou dentro de seus princípios e jamais a revogou. Seu ensino não foi contra a Torah, mas contra interpretações que esvaziavam seu sentido. Ele reafirmou que a obediência externa deve andar junto com a pureza do coração, e não ser substituída por ela. Assim, Yeshua permanece como um mestre fiel da Torah, que viveu e ensinou a santidade em todas as áreas da vida — inclusive naquilo que se come.

Andar como Yeshua andou — O sentido original e sua relativização posterior

Infelizmente, ao longo da história, leituras anacrônicas surgidas após os escritos dos nazarenos, especialmente a partir do segundo século em diante, passaram a relativizar o sentido original do ensino apostólico de “andar como Yeshua andou”. Essas interpretações, distantes do contexto judaico do primeiro século, projetaram categorias filosóficas e teológicas posteriores sobre textos que nasceram dentro da Torah, do judaísmo e da vida concreta de Israel. O resultado desse processo foi uma redução do significado da expressão bíblica. Passou-se a ensinar que “andar como Yeshua andou” se resume a praticar bondade, caridade e amor, entendidos muitas vezes como sentimentos abstratos, desconectados de práticas objetivas, mandamentos e responsabilidades concretas. Assim, o ensino deixou de ser um chamado a um modo de vida obediente, para se tornar apenas um ideal moral genérico.

No entanto, para os primeiros discípulos — judeus que viviam dentro da Torah — andar como Yeshua andou nunca foi algo subjetivo ou meramente emocional. Por isso, quando texto afirma: “Aquele que diz que permanece nele, deve andar como ele andou”, não estão falando de um sentimento interno vago, mas de imitação concreta de vida, de halachá, de conduta diária moldada pela Torah. As leituras posteriores, ao relativizarem a Torah, acabam também esvaziando o peso do discipulado. Se tudo se resume a “amar” de forma abstrata, então: Não há exigência; Não há responsabilidade; Não há compromisso prático. Dessa forma, essas interpretações invalidam a responsabilidade pessoal de cada discípulo em andar de fato como Yeshua andou.

Retiram do ensino sua força ética concreta e sua dimensão comunitária, afastando-o do chão histórico onde nasceu. No contexto original, amor não se opõe à Torah; o amor é vivido por meio da obediência. Guardar a Torah não era legalismo, mas expressão de fidelidade, e ensinar a guardá-la era parte essencial do discipulado. Separar Yeshua da Torah é criar um Yeshua estranho as Bessorot (evangelhos) e aos escritos dos primeiros nazarenos. Portanto, recuperar o sentido original de “andar como Yeshua andou” exige retornar ao seu contexto judaico, rejeitar leituras anacrônicas e reconhecer que seguir Yeshua implica viver como ele viveu: em obediência à Torah, ensinando-a com misericórdia, justiça e verdade.

Texto

“Irmãos, não vos escrevo mandamento novo, mas o mandamento antigo, que desde o princípio (Bereshit) tivestes. Este mandamento antigo é a palavra que desde o princípio ouvistes.” (vs 7)

Comentário

Não é um “mandamento novo”, mas antigo— No pensamento judaico do primeiro século, a ideia de um mandamento totalmente novo seria estranha. A fé bíblica não se fundamenta em inovação religiosa, mas em continuidade e fidelidade à revelação divina. Quando o Yochanan afirma que não escreve um mandamento novo, ele se alinha à visão judaica de que a vontade de Elohim já foi revelada na Torah. A expressão “desde o princípio” ecoa o conceito de Bereshit — não apenas como o início histórico da criação, mas como o ponto de origem da ordem divina, onde a instrução de Elohim já estava estabelecida. Assim, o mandamento não nasce no presente, mas remonta às raízes mais profundas da revelação.

A Torah como realidade eterna — Segundo a tradição judaica, a Torah é eterna e antecede a criação do mundo. Os sábios ensinam que a Torsh foi “criada” antes do universo:

“Sete coisas foram criadas antes do mundo: a Torah, o arrependimento, o Gan Éden, o Guehinom, o Trono da Glória, o Templo e o nome do Mashiach”(Pessachim 54a; Bereshit Rabbah 1:1)

Isso significa que, desde Bereshit, a Torah já existia como o projeto divino da criação. Ela não é temporária, nem sujeita a substituição; é a expressão eterna da vontade de Elohim.

“A palavra que desde o princípio ouvistes” — No judaísmo de Yeshua, ouvir (shema) implica obedecer e praticar. A “palavra” não é abstrata, mas a Torah proclamada, ensinada e vivida nas casas, sinagogas e na vida diária do povo. Portanto, a palavra ouvida “desde o princípio” remete tanto ao Bereshit da criação quanto ao início da formação de Israel como povo da aliança. Yochanan reafirma aquilo que sempre foi ensinado: amar a Elohim, andar em seus caminhos e guardar seus mandamentos. O texto não rompe com o judaísmo, mas fala a partir de dentro dele. Para um judeu do primeiro século, a Emunah (fé plena) é continuidade, não ruptura. Elohim não muda, e sua instrução, estabelecida desde Bereshit, permanece. Assim, Yochanan não apresenta uma nova lei, mas reafirma a Torah eterna, conhecida, ouvida e vivida desde o princípio.

Texto

“Outra vez vos escrevo um mandamento novo, que é verdadeiro nele e em vós; porque vão passando as trevas, e já a verdadeira luz ilumina.” (vs 8)

Comentário

“Mandamento novo” não significa substituição. No judaísmo do primeiro século, “novo” (chadash em Hebraico/kainós em grego) não significa algo criado do zero, mas algo renovado, restaurado ou vivido com maior plenitude. A própria Escritura hebraica usa essa linguagem:

“Farei uma aliança renovada — Brit Ha’dashá” (Yermyahu/Jeremias 31:31)

Escrita no coração, não abolindo a Torah, mas internalizando-a. Assim, Yochanan não contradiz o verso anterior. Ele explica como o mandamento antigo se torna “novo” na prática.

Texto

“Aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está em trevas. Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo. Mas aquele que odeia a seu irmão está em trevas, e anda em trevas, e não sabe para onde deva ir; porque as trevas lhe cegaram os olhos. Filhinhos, escrevo-vos, porque pelo seu nome vos são perdoados os pecados. Pais, escrevo-vos, porque conhecestes aquele que é desde o princípio. Jovens, escrevo-vos, porque vencestes o maligno. Eu vos escrevo, filhos, porque conhecestes o Pai. Eu vos escrevi, pais, porque já conhecestes aquele que é desde o princípio. Eu vos escrevi, jovens, porque sois fortes, e a palavra de Elohim está em vós, e já vencestes o maligno. Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Elohim permanece para sempre” (vs 9—17)

Comentário

No trecho dos versículos 9—11, Yochanan nos confronta com uma verdade central: não se pode afirmar que se está próximo de Elohim se há ódio no coração em relação ao outro. No judaísmo do primeiro século, o amor ao próximo era inseparável da relação com Hashem; o mandamento “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Vayikrá/Levítico 19:18) não era apenas uma lei ética, mas uma extensão natural do amor a Elohim. Amar o outro é, portanto, caminhar na luz de HaShem. Yochanan segue alertando que o ódio é como andar nas trevas, cegando espiritualmente. Isso nos lembra os ensinamentos da Mishná e do Pirkei Avot, onde se destaca que a sabedoria não se manifesta apenas em estudo ou ritual, mas na prática da bondade e da harmonia social. Quem não ama o próximo está espiritualmente perdido, mesmo que se considere justo. O Shaliach (apóstolo) também coloca em contraste os desejos do mundo:

“Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo” (vs 15-16)

Aqui, Yochanan nos ensina que amar o próximo é incompatível com o apego egoísta às coisas passageiras. A verdadeira luz e segurança espiritual vêm de investir no amor que reflete a santidade da Torah, e não nas paixões temporais ou no orgulho pessoal. Amar é colocar o outro acima das próprias ambições e medos, é refletir a luz divina em nossas ações diárias. Por fim, o texto nos lembra que o tempo é limitado:

“O mundo passa, e a sua concupiscência, mas aquele que faz a vontade de Elohim permanece para sempre.” (vs 17)

O amor ao próximo, portanto, não é apenas uma prática moral, mas uma afirmação de eternidade. Amar o outro é alinhar-se com a vontade de Hashem, transcender a escuridão do egoísmo e caminhar na luz eterna. Amar o próximo é a marca de quem está na luz. É uma prática ativa que exige renúncia aos desejos do mundo e um compromisso profundo com a santidade da vida. É no amar verdadeiro — sem rancor, sem inveja, sem interesse próprio — que encontramos a presença de Elohim refletida em nós e nos outros.

O estudo continua… (Capitulo 2:18—29)


Comentários

Uma resposta para “A Primeira Carta de Yochanan”

  1. […] (Confira o segundo capítulo da primeira carta de Yochanan clicando no link a seguir: primeira carta de Yochanan Capitulo 2:1—7) […]

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