Mãos que derramam sangue inocente (3/7)

Seguindo com a série de estudos sobre as coisas que o Eterno odeia e abomina, chegamos ao estudo sobre as “Mãos que derramam sangue inocente,” o terceiro da série.

Introdução

“Há seis coisas que O Eterno odeia, e a sétima é uma abominação da sua alma;(…) mãos que derramam sangue inocente;(…)”(Provérbios 6:16-17b)

Assassinato é um dos crimes que mais podem traumatizar uma sociedade. Embora não esteja entre os mais cometidos, é sem dúvidas o mais chocante. O Brasil lidera o ranking de países com mais assassinatos do mundo em números absolutos, segundo o Estudo Global Sobre Homicídios, realizado no ano passado, divulgado pela ONU. O que leva uma pessoa a cometer tal atrocidade ? Apesar de ser um crime hediondo, grande é o índice do consumo de conteúdos desse gênero. Grande hipocrisia, uma sociedade que condena a prática mais ama a teoria. Confesso que antes de conhecer de fato a Torah e fazer Teshuvah, eu me sentia atraído pelos filmes e séries. Quem aí não lembra do “brinquedo assassino” ?

O impacto que o cinema provoca em nossas emoções é inegável. Entretanto, o alcance desses efeitos pode ser assustadoramente extremo. Casos de crimes inspirados por filmes de horror infelizmente não são raros. Apesar de as histórias sangrentas, repletas de psicopatas aterrorizantes serem atraentes para uma plateia ansiosa por adrenalina, é alarmante quando essas tramas saem das telas e se materializam no mundo real. Veja alguns casos dessa triste realidade:

O Brinquedo assassino

Uma adolescente de Manchester, Suzanne Capper tinha apenas 16 anos quando foi sequestrada, torturada e assassinada por uma gangue de quatro criminosos em 1992. Um dos sequestradores de Suzanne teria iniciado as sessões de tortura com as palavras: “Chucky está vindo para brincar”. Antes de Suzanne sucumbir aos ferimentos, seus captores também colocaram fones de ouvido em seus ouvidos, tocando “Hi, I’m Chucky (Wanna Play?)”, “Olá, sou Chucky (quer brincar?)” em português.

O pânico

Em 2002, um trágico incidente ocorreu na França quando um estudante de 17 anos do ensino médio esfaqueou brutalmente uma garota de 15 anos com 17 golpes. Depois de ser interrogado pelas autoridades, o estudante admitiu ser obcecado por Pânico. As ações do agressor ecoaram a influência do filme sobre os jovens, levantando preocupações sobre o impacto da mídia sobre indivíduos vulneráveis.

Freddy Krueger

Em 2004 um jovem britânico, Daniel Gonzalez, inspirado pelo icônico Freddy Krueger, Gonzalez perpetrou massacres usando facas de variados tamanhos, matando quatro pessoas e ferindo outras duas. Gonzalez chegou ao ponto de revelar seu desejo de ser lembrado como um notório assassino em série.

Além desses, vários outros filmes influenciaram pessoas a cometerem assassinatos. Devemos ter muito cuidado com tudo quanto estamos pondo diante dos nossos olhos.

“Porque tudo que há no mundo é o desejo do corpo, e o desejo dos olhos, e a soberba do mundo; estas coisas não são do Pai, mas são do mundo.”(1ª João 2:16)

Nas escrituras Sagradas, temos alguns exemplos de seres (humanos/celestiais) que foram influenciados por algo que viram.

“E a mulher (Eva) viu que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; então, tomou do seu fruto, comeu e deu também ao seu marido, e ele comeu.”(Bereshit 3:6)

“Os filhos de Elohim (“anjos”) viram as filhas dos homens quando elas se embelezavam e tomaram para si esposas de quem escolheram.”(Bereshit 6:2)

Derramar sangue inocente (assassinato) é um ato desumano e abominável aos olhos do Eterno.

O primeiro assassinato na história da humanidade

Cain e Abel

Como já foi mencionado, o assassinato é um dos crimes mais hediondos e mais antigos do mundo. Na primeira porção da Torah, quando o mundo tem apenas alguns “dias” de idade, lemos que Abel foi assassinado pelo seu próprio irmão, Cain. Parte daquilo torna tudo tão chocante que parece surgir do nada. Esse, é sem dúvidas, o crime mais conhecido já relatado nas Sagradas Escrituras. Com destaque na B’rit Chadashá (“Novo Testamento”), o assassinato de Abel é para muitos, um assunto enigmático. Cain e Abel, tiveram um relacionamento difícil que culminou em uma discussão acalorada, que terminou com Cain assassinando seu irmão mais novo. A história do assassinato horripilante de Abel por Cain, é descrito na Torah de forma breve e sombria.

Os sábios comentaristas da Torah fornecem um pano de fundo muito necessário sobre como as vidas de Cain e Abel se desenrolam. Vamos selecionar esses comentários e desenhar um quadro detalhado da relação conturbada entre os dois irmãos logo após a criação do mundo.

Texto da Torah( Bereshit 4:3-7)

ויהי מקץ ימים ויבא קין מפרי האדמה מנחה–ליהוה (E aconteceu que, ao cabo de alguns dias, Caim trouxe do fruto da terra uma oferta para Adonay).

והבל הביא גם הוא מבכרות צאנו ומחלבהן וישע יהוה אל הבל ואל מנחתו (E Abel também trouxe dos primogênitos de seus rebanhos e dos mais gordos, e Adonay voltou-se para Abel e para sua oferta).

ואל קין ואל מנחתו לא שעה ויחר לקין מאד ויפלו פניו (Mas ele não se voltou para Cain e para sua oferta, o que irritou muito Cain, e seu semblante caiu).

ויאמר יהוה אל קין למה חרה לך ולמה נפלו פניך (Então Adonay disse a Cain: Por que estás tão irritado? Por que está descaído o teu semblante?).

הלוא אם תיטיב שאת ואם לא תיטיב לפתח חטאת רבץ ואליך תשוקתו ואתה תמשל בו (Não é assim que, se você melhorar, isso lhe será perdoado? Se você não melhorar, no entanto, na entrada, o pecado está deitado, e para você é o seu desejo, mas você pode dominá-lo.”)

Os versículos acima citados, tratam das ofertas apresentadas pelos irmãos Cain e Abel. O texto mostra que o Santo Bendito Seja Ele, aceitou a oferta de Abel. Em contraste a isso, rejeitou a oferenda de Cain. Há várias maneiras, e diferentes explicações talmudicas acerca do porque D’us rejeitou a oferta de Cain. O foco desse estudo não é tratar das ofertas, por isso apresentarei apenas um comentário. No entanto, deixarei um link de acesso aos comentários dos sábios. O Rabino e filósofo, David Kimhi, também conhecido como Radak, comenta:

“A oferta pretendia ser uma expressão da gratidão do homem a D’us pelo sucesso de seus esforços. A Torá é vaga sobre precisamente em que consistia a oferta, além de dizer que era parte do fruto produzido pela terra. Não sabemos nada sobre a qualidade ou quantidade desta oferta. Vendo que ao descrever a oferta de Hevel a Torá acrescenta as palavras: “do primogênito de suas ovelhas e de suas melhores”, é razoável supor que a oferta de Kayin, em comparação, foi mesquinha, na verdade representou um insulto a D’us em vez de um reconhecimento grato da parte de D’us em fazer a terra produzir uma colheita para ele. É por isso que sua oferta não foi bem-vinda, foi rejeitada.”

O midrash em Bereshit, conta que enquanto eles ofertavam, desceu um fogo do céu e consumiu a oferta de Abel. Cain, entendendo que a sua oferta não fora aceita, ficou com ciúmes de seu irmão, e a partir daí, procurava pretexto para matá-lo. Não sabemos sobre a infância de Cain e Abel, todavia, é óbvio que eles tiveram. Isso me leva a imaginar os dois correndo, brincando, nadando nos rios, subindo nas árvores, brincando com os animais, rolando na relva verde entre outras brincadeiras. O tempo passou, eles cresceram e num fatídico dia, tudo mudou. O que era alergia, virou tristeza; o que era risos, virou choro; o que era amor, virou ódio; onde havia vida; houve morte.

O que devemos fazer quando não somos aceitos ?

Somos rejeitados devido ao que fazemos, dizemos, ou por algo relacionado a quem somos. Nem sempre a rejeição é total; às vezes apenas não nos aceitam o tanto quanto desejaríamos ser aceitos. Seja como for, a rejeição dói. Não é agradável receber um comentário de desaprovação de um amigo, do chefe de trabalho, ou a sensação de não satisfazer as expectativas de alguém. Somos rejeitados por fazermos o mal, mas também o bem; somos rejeitados por fazermos injustiça, mas também justiça.

Quem cursou o Enem em 2016 lembra muito bem dessa questão:

A frase: “Eles não aceitaram você fazer parte do grupo, porque você não é igual a eles” está correta ? Se você respondeu, sim. Você errou. A frase correta é: “Eles não aceitaram você fazer parte do grupo, porque você é diferente deles”. Ninguém é rejeitado ou aceito, por não ser igual, mas por ser diferente. Uma pessoa de pele negra sofre com o preconceito, não por não ser branca, mas por ser preta.

Ser ou não ser: eis a questão. Kefa, Shaliach Há Yeshua (Pedro, Apóstolo de Jesus) reponde a questão da seguinte forma:

“Porque melhor é que padeçais fazendo bem (se a vontade de D’us assim o quer), do que fazendo mal.”(1ª Pedro 3:17)

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.”(Mateus 5:10-12) Palavras de Yeshua, o mais rejeitado de todos os homens. Pois a seu respeito disse o profeta Isaías:

“Desprezado e rejeitado pelos homens, homem de dores e acostumado a enfermidades, e como alguém que esconde de nós o seu rosto, desprezado, e não tivemos dele consideração.”(Isaías 53:3)

Sabemos que há no talmud várias opiniões rabinicas que tentam explicar o real motivo para a rejeição de Cain e de sua oferta. Esses comentários são muito importantes, todavia eles não fornecem cem por cento de certeza. Porém, se no talmud, a dúvida ainda paira, ela é extirpada pelos escritores da B’rit Chadashá. Confira:

“Porque é este o Mandamento que vocês ouviram anteriormente: amém um ao outro. Não como Cain, que era do maligno e assassinou a seu irmão. E por que assassinou ? Porque eram más as suas obras, e as de seu irmão, justas.”(1ª João 3:11-12) O escritor deixa bem claro que Cain era do maligno, ou seja, era maligno e suas ações mostravam isso.

“Estes homens, porém, estão blasfemando sobre coisas de que não sabem. E naquelas coisas pelas quais são persuadidos naturalmente como animais irracionais, nestas eles se corrompem. Aí deles, porque foram no caminho de Cain, e foram atrás do erro Bil’am, cobiçando o pagamento, e pereceram na rebelião de korach.(Judas 1:10-11) Mais um escritor (Shau’l) deixando claro a natureza má de Cain.

O próprio texto em Bereshit indica a maldade de Cain. Após ser rejeitado devido as suas más ações, Cain fica irritado, cheio de ódio. O Eterno repreende Cain, e juntou a repreensão, oferece-lhe perdão.

“Se fizeres bem o teu trabalho, a tua culpa não te será perdoada? Mas se não fizeres bem o teu trabalho neste mundo, o teu pecado é retido até o dia do grande julgamento, e às portas do teu coração jaz o teu pecado. E em tuas mãos entreguei o poder sobre a paixão maligna, e a ti estará a inclinação dela, para que tenhas autoridade sobre ela para te tornares justo, ou para pecar.”(Targum de Yonatan Bereshit 4:7)

Cain deveria ter aceitado o perdão do Eterno e ter feito Teshuvah, mas preferiu alimentar o ciúme, a inveja, a raiva e todo pensamento mau para com o seu irmão Abel. Cain tinha em suas mãos o próprio destino, ele tentou esconder o seu pecado, porém o Eterno que sonda a mente e o coração do homem, jamais será engando.

“Aquele que esconde os seus pecados não terá sucesso, mas aquele que os confessa e os abandona alcançará misericórdia.”(Provérbios 23:13)

A farsa do pecado original

O pecado original é uma doutrina cristã que descreve o primeiro ato de desobediência humana (quando Adão e Eva sucumbiram à tentação da serpente e comeram o fruto proibido), e da consequente queda da humanidade num estado de irremediável alienação de D’us. Na tradição cristã o pecado original é inerente à condição humana, mas independente de quaisquer pecados que possam ser cometidos ao longo da vida. Enquanto para os cristãos o conceito do pecado original deriva do Tanach (“Antigo Testamento”), a doutrina é rejeitada na teologia judaica. Aliás, o Cristianismo é a única das três religiões abraâmicas que defende a ideia de nascermos todos pecadores.

No Judaísmo não há pecado original. Nós não nascemos pecadores. A palavra hebraica para pecado é chet/chatah, que significa literalmente “errar o alvo”. O termo é usado no tiro com arco, quando uma seta se desvia do alvo. “Errar o alvo” pode ser entendido como “perder o rumo”, ter um desvio de comportamento. Chet é qualquer coisa que fazemos, não quem somos. De acordo com a tradição judaica, cada um de nós tem duas inclinações que competem entre si: a boa inclinação (yetzer hatov) e a má inclinação (yetzer harah). Embora algumas linhas de pensamento do judaísmo clássico considerem que a má inclinação é mais forte do que a boa inclinação, temos, a cada momento das nossas vidas, liberdade de escolha entre estes dois impulsos. Como nos conta a Torah, quando os ciúmes de Cain por Abel ameaçam tornar-se em fratricídio, D’us dá-lhe a oportunidade de dominar o ciúme e regressar ao bom caminho. Cain não dominou a má inclinação, cedeu ao ciúme e matou o irmão. Criou seu próprio caminho e desperdiçou a oportunidade de regressar ao bom caminho, O Caminho da Teshuvah.

Como um bom judeu, guardião de Torah e estudioso da tradição do seu povo, Shau’l escreveu sobre a má inclinação que permeia a nossa mente, ele disse:

“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; por estas coisas é que vem a ira de D’us [sobre os filhos da desobediência]. Ora, nessas mesmas coisas andastes vós também, noutro tempo, quando vivíeis nelas. Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar. Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos.”(Colossenses 3:5-9)

O fatídico dia do assassinato de Abel por Cain

ויאמר קין אל הבל אחיו ויהי בהיותם בשדה ויקם קין אל הבל אחיו ויהרגהו (E falou Cain a Abel, seu irmão. E aconteceu que, quando eles estavam no campo, Cain se levantou sobre Abel, seu irmão, e o assassinou).(Bereshit 4:8)

Esse versículo “não faz sentido”. Não está sintaticamente bem formado: Diz “Cain disse”, mas não nos informa o que ele disse. Portanto a maioria das traduções cristãs segue as versões Samaritana, Septuaginta, Vulgata e Ciríaca que acrescentam uma frase nos dizendo que Cain disse: “Vamos até o campo.” Porém o original hebraico diz o que diz por uma razão. Está escrito “Caim disse ao seu irmão Abel”, e então há um lapso de silêncio antes de nos dizer que Cain atacou seu irmão. A sintaxe desse versículo nos transmite uma ideia poderosa. A Torah faz silêncio com relação as palavras de Cain, isso trás a ideia de quão horrível foram as palavras ditas por Cain ao seu irmão Abel, ao ponto da Torah não fazer questão de menciona-las.

O livro do justo (outros também), relata algo muito interessante sobre essa fatídico dia. Lembrando que o livro do justo é citado no Tanach, sempre foi usado pelos judeus, e continua sendo usado até hoje. Inclusive, vários comentários rabinicos foram extraídos desse livro.

“E, algum tempo depois disto, Cain e Abel, seu irmão, foram um dia para o campo para fazer o seu trabalho, e eles estavam no campo, Cain lavrando e arando a terra, e Abel apascentando seu rebanho, e o rebanho passou na parte que Cain tinha arado no solo, e Cain se encolerizou por conta disso. E Cain aproximou-se de seu irmão Abel com raiva e disse-lhe: O que há entre mim e ti, para tu vires apascentar o teu rebanho para o alimentar na minha terra? E Abel respondeu seu irmão Cain, e disse-lhe: Que há entre mim e ti, para que tu comas da carne de meu rebanho e te vistas com a sua lã? E agora, portanto, despe a lã das minhas ovelhas com que estás vestido, e recompensa-me pela carne que tu tens comido, e quando tiveres feito isso, então me retirarei de tua terra como disseste. E Cain disse a seu irmão Abel: Certamente se eu te matar neste dia, quem vai exigir o teu sangue de mim? E Abel respondeu a Cain, dizendo: Certamente D’us, que nos fez na terra, ele irá vingar a minha causa e Ele irá exigir o meu sangue de ti se tu me matares, porque o Senhor é Juiz e Árbitro. É Ele quem vai recompensar cada um segundo as suas obras, e aos homens ímpios de acordo coma maldade que eles fizerem na Terra. E agora, se tu me matares aqui, certamente D’us conhece teus segredos, e irá julgar-te segundo o mal que decidires fazer comigo neste dia. E quando Cain ouviu as palavras que o seu irmão Abel havia dito, eis que a ira de Cain se acendeu contra o seu irmão Abel por declarar isso. E Cain apressando-se levantou-se, e tomou a parte de ferro de seu instrumento de lavoura, feriu seu irmão e o matou. E Cain derramou o sangue de seu irmão Abel sobre a terra e o sangue de Abel caiu sobre a terra diante do seu rebanho.”(Livro do justo 1:17-25)

ויאמר יהוה אל קין אי הבל אחיך ויאמר לא ידעתי השמר אחי אנכי (E disse Adonay para Cain: “Onde está Abel, teu irmão?” E ele disse: “Não sei. Sou eu o guarda do meu irmão?”)(Bereshit 4:9)

O Santo Bendito Seja Ele, sabia o que tinha acontecido, sabia onde estava Abel, sabia que Cain o havia assassinado. A pergunta: “Onde está Abel teu irmão?” Incomodou Cain, o Eterno o fez lembrar que ele, por ser o mais velho, era responsável por seu irmão mais novo, o Abel. Por esse motivo, Cain, com espanto, responde ao Eterno: “Sou eu o guarda do meu irmão?”.

ויאמר מה עשית קול דמי אחיך צעקים מן האדמה (E disse: “O que você fez? A voz do sangue do seu irmão clama a mim desde a terra”.)(Bereshit 4:10)

O sangue do justo Abel foi derramado pelas mãos do ímpio Cain. E como ele fez isso ? Numa época em que havia várias teorias a respeito da motivação e da forma de execução do assassinato, o Rabino.Azariah e outros rabinos defenderam a hipótese de que Cain observou atentamente enquanto Adão sacrificava um bezerro, então ele perfurou a garganta de Abel. (Midrash Bereshit Rabbah 22:8). O Talmude ressalta que Cain não conseguiu tirar a vida de Abel até perfurar o esôfago e a traqueia (Sanhedrin 37 b). Ao empregar o termo plural para sangue “damei” (דמי) “A voz do sangue do seu irmão clama a mim desde a terra”, o versículo ensina que Cain causou ferimentos múltiplos a seu irmão Abel, essa é a opinião de alguns Sábios, porém não há várias outras. Como Cain não sabia de onde a alma partia, ele o golpeou várias vezes. Isso continuou até que ele chegou ao seu pescoço e o golpeou ali, quando Abel morreu. Outra explicação que os sábios dão, para a palavra sangue está no plural, é que Cain assassinou não somente Abel, mas toda geração, povos que dele surgiriam.

Os sites chabad e sefaria, traduzem o versículo da seguinte maneira: “E disse: “O que você fez? Ouça ! O sangue do seu irmão clama a mim desde a terra.” Essa tradução nos permite fazer a seguinte conjectura: O Eterno faz Cain ouvir o sangue de Abel clamando por justiça. Por fim, O Eterno julga e sentencia Cain à morte após a sétima geração contando a partir de Adão. (Sobre a marca que D’us pôs em Cain, e sobre a sua morte, contarei em outro estudo).

Esse crime bárbaro, hediondo, e que D’us odeia, infelizmente vem se repetindo ao longo da história com irmão assassinando irmão e ainda pior: pai contra filho, filho contra pai, e assim famílias são destruídas.

As Sete Leis de Noach

Após o grande Mabul (dilúvio), no alvorecer da história humana, D’us deu ao homem sete leis para seguir a fim de que Seu mundo fosse sustentado. Chegará um tempo em que todos estarão preparados para regressar a este caminho. Será então o início de um novo mundo, um mundo de sabedoria e paz. O judaísmo considera alguns princípios como base da fé, ética e moral universais, que devem ser difundidos por toda a humanidade, para garantir a existência pacífica e justa entre as nações.

Apesar de existirem inúmeros preceitos Divinos, sete deles ultrapassam as fronteiras da fé judaica e foram ordenados por D’us para toda a humanidade. No judaísmo, acredita-se que quando todas as nações do mundo seguirem esses sete preceitos básicos, garantiremos um mundo ideal para viver. As Sete Leis são uma herança sagrada de todos, um código que toda pessoa na face da terra pode usar como base para sua vida espiritual, moral e pragmática. Se pessoas suficientes começassem a incorporar estas leis em suas vidas, veríamos um mundo diferente em muito pouco tempo. Mais cedo do que podemos imaginar. Entre elas está a proibição de cometer assassinato.

1. Não praticar idolatria; 2. Não blasfemar contra D’us; 3. Não cometer homicídio; 4. Não roubar; 5. Não cometer adultério e não manter relações incestuosas; 6. Estabelecer tribunais; 7. Não molestar os animais ingerindo um órgão retirado em vida.

שפך דם האדם באדם דמו ישפך כי בצלם אלהים עשה את האדם

Quem derramar o sangue do homem no homem terá seu sangue derramado, pois D’us fez o homem à sua imagem.(Bereshit 9:6)

A expressão “o sangue do homem no homem” é entendido por alguns Sábios como uma referência ao aborto, a final, não existe sangue mais inocente do que um bebê na barriga da mãe. Sobre o aborto, falaremos em outro estudo.

O Rabino Ibn Ezra entende esse versículo como uma ordem de D’us para os filhos de Noach (Noé) executar juízo sobre os assassinos. O Rabino Ovadiah Sforno faz um comentário bem interessante sobre o versículo.

“A partir do momento em que D’us disse: “façamos o homem”, Ele o dotou com uma inteligência independente, capaz de desafia-lo coletivamente ou individualmente. É esse “atributo divino” do homem que o torna suficientemente importante para que seu Criador exija uma prestação de contas daqueles que destroem essa imagem divina matando um ser humano”.(Sforno) Assassinar um homem, é assassinar uma particula de “D’us “.

O CÓDIGO PENAL SEGUNDO A TORAH

A Torah distingue claramente entre duas formas de assassinato: assassinato premeditado ou com intenção e assassinato por erro ou acidental. Algumas vezes o Homem decide cometer um assassinato e atentar contra o seu próximo. Sabe que é uma ação proibida e, no entanto, comete-a, assassinando-o. O castigo para esta ação é, segundo a Torah, a pena de morte. Existem circunstâncias nas quais uma pessoa pode causar morte a outra sem intenção premeditada, pois não existe ódio nem causa para o prejudicar; em alguns casos pode tratar-se até de um desconhecido. Para nosso pesar, por vezes somos testemunhas de acidentes nos quais acontece uma morte involuntária.

A Torah fala que se um lenhador se encontrar trabalhando na floresta e, sem intenção alguma, o machado escapa-se-lhe da mão e matar uma pessoa que se encontrava no local. Neste caso não se considera o lenhador um homicida e por tanto não recebe o castigo correspondente ao assassinato.

ואשר יבא את רעהו ביער לחטב עצים ונדחה ידו בגרזן לכרת העץ ונשל הברזל מן העץ ומצא את רעהו ומת הוא ינוס אל אחת הערים האלה–וחי

Assim como quando um homem vai com seu companheiro à floresta para cortar lenha, e sua mão balança o machado para cortar a árvore, e o ferro voa do cabo, e atinge seu companheiro, e ele morre, ele fugirá para uma dessas cidades e viverá.(Devarim 19:5)

Existe um castigo especial na Torah para o assassinato por imprudência, no caso de não existir maldade nem intenção premeditada. O homem que cortava lenha na floresta, segundo a Torah, não pretendia matar ninguém; estava apenas a fazer o seu trabalho. Mas incorreu no erro de não prever a sua ação, inspecionando as suas ferramentas, ou reforçando o machado antes de começar a trabalhar. Torah ensina-nos que o homem que incorresse numa falta deste tipo tinha que ir para a “cidade refúgio”.

Em seguida, os juízes do Sanhedrin o levam a julgamento e determinam se ele matou intencionalmente ou por engano. Se decidirem que o assassinato foi cometido deliberadamente, o assassino não pode retornar a cidade-refúgio. É condenado à morte pelo Bet Din (desde que tenha sido advertido e duas pessoas tenham testemunhado o assassinato). Entretanto, se os juízes decidirem que o assassinato ocorreu por acidente. Apenas lá ele estará a salvo do vingador do sangue, que é o parente mais próximo da vítima. Ele tem o direito de matar o assassino em qualquer local, fora da cidade de refúgio, mas jamais dentro dela. Alguém que matou por acidente deveria permanecer na cidade de refúgio até a morte do sumo sacerdote vigente. Então poderia retornar para casa. De certa forma, o “assassino” recebia uma certa punição, pois estaria preso nessa cidade sem poder ver a família. Porém o principal propósito das cidades de refúgio era evitar mais derramamento de sangue inocente.

A base para todo estudo apresentado é o sexto Mandamento que diz: Ló Tirtsach (לא תרצח) Não assassinar.

Assassinato na B’rit Chadashá

Ouvistes que foi dito aos antigos: Não assassinarás; mas qualquer que assassinar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno. Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti,Deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta. Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil.(Mateus 5:21-26)

Yeshua indica que a Torah foi dada por intermédio de Moisés de forma elíptica – isto é, nem todo o conteúdo inerente ao mandamento foi expresso em palavras. Sempre que nos deparamos com três ou quatro pontos no meio de uma frase ou um parágrafo, isto indica que determinado conteúdo foi deliberadamente deixado de fora. Estes pontos são chamados de “elipses”. Quando há elipses na lei, isto significa que, além da proibição específica, a Torah também proíbe o contexto mais amplo relacionado ao ato em questão. Assim, quando D’us diz que não devemos assassinar, isto consequentemente significa que nós não devemos fazer qualquer coisa que prejudique a vida do próximo.

Yeshua amplia a abrangência do pecado, destacando que a ira, o insulto e as palavras de desprezo implicam a quebra do sexto Mandamento, Ele vai mais fundo, ao próprio âmago da questão. Ele encontra o princípio por trás do preceito e o endossa. O assassinato, O homicídio começa com raiva e ódio, incluindo ofensas, calúnias e desavenças entre pessoas. É por isso que Yeshua disse que ninguém escapa do peso da lei simplesmente abstendo-se do assassinato em si […]. O outro aspecto da elipse é este: Yeshua está dizendo aqui que, além de não devermos jamais matar o próximo por causa da importância da vida humana, também devemos promover a segurança, o bem-estar e a santidade da vida.

Yeshua não diz que a ira conduz ao homicídio, mas sim que a ira é uma forma de homicídio. Os rabinos limitavam o sexto mandamento ao ato do homicídio; Yeshua, porém, deixa claro que o espírito da lei se liga não apenas ao ato, mas também à motivação.

Conclusão

Durante o estudo, ficou claro o quanto o ódio e o rancor são igualados à morte. E quando um homem nutre esse tipo de sentimento contra alguém, e até contra o próprio irmão, seja de sangue ou na fé, é o mesmo que ser um assassino, rejeitando o princípio de D’us.

Qualquer que odeia a seu irmão é assassino. E vós sabeis que nenhum assassino tem a vida eterna permanecendo nele. Conhecemos o amor nisto: que Ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos.” (1 João 3.15.16)

Desta forma, qualquer pessoa que nutre um sentimento contrário contra alguém, como ódio, mágoa e vingança, não terá a salvação dada por D’us. Por isso, o verdadeiro seguidor de Yeshua deve vigiar os próprios sentimentos, para permanecer firme na fé, seguindo os Seus mandamentos. Portanto devemos valorizar a vida, fazendo isso temos a capacidade de perceber que ela é única e irrecuperável. Sendo assim, viver bem com os nossos semelhantes potencializa uma mentalidade e experiências que promovem felicidade, paz, bem-estar, saúde física e mental e, como consequência, uma excelente qualidade de vida, e por fim a vida Eterna.

“Porque fora estão os cães, os feiticeiros, os impuros, os assassinos, os idólatras e todo aquele que ama e pratica a mentira”.(Apocalipse 22:15)

Abençoado seja o Eterno


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